Hoje, sábado, deixarei de lado a preguiça do pay per view e da televisão de LCD para cumprir um dever cívico: ir ao Maracanã e saborear uma vingança que está entalada há cinco anos, mais especificamente desde o dia 30 de junho de 2004. Uma das noites mais infelizes de minha vida.

Desde que o Santo André foi promovido à Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro, eu jurei a mim mesmo que, fosse o dia que fosse, fosse a hora que estivesse marcada, eu iria ao estádio.

Por quê ? Porque só Deus sabe o que eu passei naquela fatídica final de Copa do Brasil.

Começou na venda de ingressos. Eu dedicava à época nos cursos da Juventude Messiânica e tinha um aluno na turma que queria ver o jogo, mas não tinha ingresso. Propus a ele que, se entrasse na fila, eu pagava o ingresso dele.

Muitos tumultos depois, ele conseguiu os ingressos. Iríamos eu, meu pai, meu irmão, o Júlio (que era um dos meus auxiliares nos cursos) e ele.

Apesar do time estar em uma fase não muito boa, ninguém imaginava que o Flamengo pudesse perder uma final para um time que, à época, estava na Segundona, não tendo a menor tradição.

Na sexta feira antes do jogo, o apartamento onde eu morava no Cachambi foi arrombado. Os ladrões chegaram a mexer onde estavam os ingressos, mas não levaram.

Como consequência, minha esposa resolveu dormir na casa dos meus sogros na noite do jogo, porque seria muito tarde (22 horas) e, depois do furto, ela não queria ficar sozinha em casa.

No dia do jogo, quarta, meu pai iria se encontrar comigo no prédio onde trabalhava, que fica a 100 metros do estádio. Só que ele demorou, o tempo passou, celular não dava sinal devido ao número excessivo de chamadas na área e…

Chegamos perto da rampa do Bellini. Um tumulto infernal para entrar, a Polícia a cavalo baixando o pau, jogando gás de pimenta e todos espremidos em um curral estreitíssimo. Morreu gente ali.

Por meu turno, levei umas boas borrachadas da Polícia. Aliás, todo mundo apanhou.

A bagunça era tão grande que em momento nenhum precisei apresentar meu ingresso. Se estivesse sem ele, teria entrado do mesmo jeito.

Feito isso, restava menos de uma hora para o início do jogo, nos acomodamos nas arquibancada verde à direita das cabines. Logo o local onde cresci vendo meus adversários sentados.

Começa o jogo e Abel Braga, o técnico, escala o time em uma retranca feroz para segurar o zero a zero que nos daria o título. Felipe, mais conhecido como Firulipe, teoricamente o melhor jogador e líder daquele time, estava mais preocupado em fazer gracinha com a bola do que em jogar.

Vem o segundo tempo. O adversário faz um gol. Dois. Abel não tem muitas opções ofensivas no banco. O ‘melhor’ era um folclórico centroavante, ex-carregador de colchões, Negreiros. Nada de reação.

Termina o jogo. Choque. Perdemos. Uma vez mais, vejo o adversário fazer festa dentro da minha casa.

Cheguei em casa absolutamente anestesiado e transtornado. Desligo celular, telefone fixo. Custo a dormir. Lá pelas quatro, consigo.

Acordei quase meio dia, tomei banho, almocei no restaurante ao lado, peguei o ônibus (ainda não tinha carro). Cheguei no trabalho quase duas da tarde. O Zé Carlos, que era o chefe à época e rubro negro como eu, só me diz uma frase:

“- Te entendo, também to puto da vida. Senta aí pra trabalhar e vida que segue.”

Pelo menos não levei esporro. Pior foi a secretária:

“- Liga pra tua mulher que ela está doida atrás de você.”

Aí que me lembrei que tinha desligado os telefones…

P.S. – Aquele dia foi tão aziago que o Rafael, que comprou os ingressos para mim, faleceria precocemente dois anos depois, vítima de um problema renal congênito. Descanse em paz, amigo.