A rotina de vida está uma loucura, mas não poderia deixar os meus 23 leitores sem mais uma edição do “Samba de Terça”.
Falamos de Salgueiro, falemos de União da Ilha desta vez. Uma escola marcada pela descontração e por uma coleção de sambas digna de figurar em quaisquer antologias que se façam sobre o tema.
Obviamente, não contaremos a história dos sambas mais famosos e conhecidos da agremiação insulana. Vamos contar como de hábito a história de um samba não tão famoso, mas de muita qualidade.
Ao final do carnaval de 1997 a azul, vermelha e branca do Cacuia passara por um grande susto. Fizera um desfile bastante problemático no carnaval daquele ano e, por um triz, não foi rebaixada ao Grupo de Acesso. As alegorias, muitas inacabadas, e os problemas de harmonia levaram a agremiação a um desfile que, analisando friamente, deu muita sorte de escapar do descenso. Muita sorte mesmo – eu estava lá e vi ao vivo.
Para o ano seguinte o Presidente Jorge Taufile Gazele, o popular ‘Peixinho’, resolveu investir em contratações de impacto a fim de melhorar os resultados da agremiação.
Ele iniciou com uma contratação que, hoje, talvez seja inimaginável aos leitores mais jovens: simplesmente tirou o carnavalesco da Beija Flor, uma das escolas mais poderosas da Liga Independente das Escolas de Samba. Milton Cunha era considerado a grande revelação dos carnavalescos cariocas aquele momento, tendo assinado três carnavais com bons resultados na escola de Nilópolis.
Reza a lenda que o patrono da escola nilopolitana jamais perdoou a União da Ilha por causa desta transferência. Se é lenda pura e simplesmente eu não sei, mas fica o registro.
A União da Ilha também traria da Portela o grande puxador Rixxa, considerado “o Pavarotti do samba”, para abrilhantar o seu desfile.
Mantendo a sua linha de enredos culturais, Milton Cunha propôs um enredo que eu chamaria de “afro-light”: contar a vida do fotógrafo e estudioso da cultura negra Pierre Verger. Em sua história de vida envolveu-se de forma tal com a cultura e a religião afro-brasileira que se tornou “babalaô” – como diz a letra do samba, “homem branco feiticeiro”. Seus livros fotográficos tornaram-se um material de estudo inestimável para entender a Bahia, o candomblé e os costumes de um povo.
Além disso, ele é um raro caso de expoente nascido no mesmo dia que eu (04 de novembro), o que torna este enredo ainda mais querido por mim. O título escolhido por Milton Cunha foi “Fatumbi, a Ilha de Todos os Santos”. Fatumbi foi o nome adotado por Verger quando da sua conversão ao candomblé.
Com o belíssimo samba de autoria de Márcio André, Almir da Ilha e Maurício 100, a escola insulana pisou na avenida na madrugada da terça feira de carnaval, 24 de fevereiro, como última escola a desfilar pela Marquês de Sapucaí. A escola fez um bom desfile, mas problemas com as alegorias muito largas na concentração acabaram dificultando a escola de obter um bom resultado na apuração da Quarta Feira de Cinzas. Assim mesmo, a União da Ilha obteve o nono lugar, com 255 pontos e ficando longe do rebaixamento em termos de pontuação.
O samba a meu ver possui um padrão bastante diferente do que nos acostumamos a ver na escola. Ele é mais cadenciado e melodioso, lembrando muito os sambas de sua madrinha Portela. Possui boas sacadas de letra, como nos versos:
E com Jubiabá na memória
Muda sua trajetória, vem-se embora
E da Bahia faz seu canto
Se torna filho de santo, de mãe senhora
Contribuiu para isso a “puxada” cadenciada dada pelo puxador Rixxa ao samba, que valorizou a melodia da composição. No vídeo que disponibilizo abaixo isto fica bem claro. Aqui você pode ouvir o samba também.
Vamos à letra e, abaixo, o vídeo da passagem pela escola na avenida:
“Vem brilhar, um dom divino
Na regência de Ifá, nasce o filho do destino
E com a Ilha atravessa o mar
O navio é negreiro, ô ô ô
E na vinda vem os Orixás
Pra surgir nossos terreiros
Na cultura Yorubá Nagô, ô ô
Se entrega por inteiro
E se sagrou babalaô
Homem branco feiticeiro
Negro chora, negro ri, amor, amor
Negro é raça, negro é grito,
Negro é tão bonito
Fatumbi fotografou
E com Jubiabá na memória
Muda sua trajetória, vem-se embora
E da Bahia faz seu canto
Se torna filho de santo, de mãe senhora
E sua obra no candomblé
Mostra a força do nosso axé
E a grandeza dessa nação
Iluminado pela paz de Oxalá
É luz que brilha com seu encanto
É Ilha de Todos os Santos
Vem ver, vem ver a bateria arrepiar
Xirê, Sapucaí vai tremer
Pra Fatumbi Ojuobá”
Semana que vem, um dos maiores “sacodes” da história recente do Sambódromo: “Mar Baiano em Noite de Gala”, Unidos de Lucas 1976 e reeditado em 2005. Até lá.
Sambão!!!!!!!!!!!!
Um dos meus favoritos!!
Guilherme Dourado
O Rixxa matou a pau neste desfile, como de hábito.
ILHA , MINHA ILHA……..
Foi meu primeiro desfile no Rio.
Eu desfilei nesse ano pela Uniao!!!!
Rixxa da de 1000 nesse samba!!!!!!!!!!!!!!!