Ainda tenho “rescaldos” de domingo para escrever, mas hoje é terça feira e não podia faltar a nossa já tradicional coluna sobre samba.
Hoje farei uma homenagem a um dos maiores compositores do samba enredo carioca, capaz de ganhar um samba em 1957 e outro cinquenta anos depois, em 2007 – ele faleceu em novembro de 2006, sendo, na prática, um “samba póstumo”. Falo de Mestre Toco (foto abaixo), maior vencedor de sambas da Mocidade com 12 vitórias.

Antes de passarmos ao nosso samba de hoje, queria agradecer o inestimável auxílio da Vice-Presidência Cultural da Mocidade, na figura do Fábio Fabato, que cedeu todas as imagens da matéria de hoje; além de informações sobre o carnaval.
Nosso samba é de 1971. A Mocidade já era conhecida por ser “uma bateria cercada por uma escola de samba”, comandada pelo grande Mestre André. Entretanto, tinha grandes sambas naquela época, e “Rapsódia de Saudade” é um exemplar significativo.
Chega a ser uma injustiça se dizer que a verde e branca da Zona Oeste não possui sambas dignos de entrar no panteão dos melhores de todos os tempos.
O enredo, de autoria de Gabriel do Nascimento e desenvolvido por Clóvis Bornay, buscava contar a saudade e o sentimento através de uma série de músicas e poemas relacionadas ao tema. Relaciono abaixo parte do folheto explicativo do enredo, datilografado:

 
Reparem nos agradecimentos às autoridades na primeira página. Este material também é interessante para mostrar que, naqueles tempos, também haviam sinopses longas. Ou seja, não é exatamente devido a isto que os sambas atuais vem perdendo em qualidade.
Mestre Toco, em um samba curto – vinte versos – soube sintetizar o sentimento presente no enredo, compondo um dos maiores sambas da história da verde e branca de Padre Miguel. Não é exagero dizer que não fica nada a dever a outros sambas enfocados nesta série, como “Sublime Pergaminho”, por exemplo.
Uma curiosidade é que a palavra “célica” é um neologismo do compositor. Em sua visão, significa “celestial”, e foi criada a fim de se encaixar com a bela melodia do samba sem atrapalhar sua métrica.
Eram tempos em que não se precisava de “condomínios” nem de investimentos multimilionários. Bastavam o talento e a caneta.
A Mocidade foi a sétima escola a desfilar no domingo de carnaval, 21 de fevereiro. A análise do grande Albino Pinheiro, publicada na revista “Manchete”, fala por si mesma:
“Já se ouve o som fantástico. Nosso governador (Negrão de Lima) se entusiasma: “Esta é realmente uma das melhores baterias da cidade”. E, não resistindo ao apelo quentíssimo daquele som, acompanha com gestos ritmados a escola que se aproxima. O Rei do Carnaval, Joaquim Meneses, que se mantém há horas ao lado do governador, acha-se também na obrigação de se empolgar. Mas o bastão real, a coroa, a fantasia, as botas e a sua própria figura frustram a alegria que ele pretende mostrar. É o maior momento do desfile até agora. A bateria da Mocidade Independente há muito é um dos mais caros patrimônios da cultura popular de nossa cidade. O que Mestre André cria e recria sobre o ritmo de sua bateria é impossível de se descrever. Basta que se diga que aquele povo todo, amassado, esmagado, empurrado há mais de treze horas, se levanta inteiro, lepidamente. Enquanto o som da bateria é ouvido, é impossível permanecer quieto. Pela primeira vez vejo o gordo do imenso farnel levantar-se. A bateria foi mais forte que seu apetite. A pista continua a congestionar-se. Mas o secretário de Turismo, Levi Neves, comenta: “Se não houver invasão, não é carnaval”. Com isso, ele quis dizer que o grande desfile tem público cada vez maior e não há avenida que suporte tal entusiasmo. A massa acompanha o bonito samba da Mocidade e quando chega no verso: “Então componho um poema singular”, o coro cresce e a Avenida inteira se une. A harmonia de povo, bateria e escola de samba marca um dos mais belos momentos do carnaval de 71. A emoção foi grande. O bem que a Mocidade nos fez se reflete no comentário geral. O policial do meu lado, que há quarenta minutos reagia com cara feia à invasão da pista, está com outra fisionomia. Ele é jovem ainda e não parece ser carioca. Olha para o meu braço, vê meu nome e o da revista e quase humildemente olha para mim e diz: “Que coisa, hein, moço?”. Um bom samba acaba com qualquer tendência para a violência. O espetáculo continua.”

A bateria da escola (foto acima) contribuiu para este clima de devaneio vivido durante a passagem da escola pela Candelária.
Apesar do belíssimo samba e do bom desifle, a escola obteve apenas o nono e penúltimo lugar na apuração, com 86 pontos. Entretanto, não houve rebaixamento naquela ocasião. Uma curiosidade: a décima e última colocada foi a Unidos de Padre Miguel, sua “rival” e praticamente vizinha de quadra.
Aqui você pode ouvir e se deleitar com o samba, em sua versão original. Abaixo, a letra dele. O puxador era o famoso Ney Viana, de grande sucesso posterior nos primeiros dois títulos da escola de Padre Miguel.

“Canto
Faço do samba minha prece
Sinto que a musa me aquece
Com o manto da inspiração
Ao transportar-me pelas asas da poesia
Ao som de linda melodia
Que vai fundo no meu coração

Então componho um poema singular
Rememorando obras célicas
Do cancioneiro popular

Oh, divina música
Tua magia nos envolve a alma
Tua sutileza nos seduz
Pois emanas a luz que inebria e acalma
Tu és a linguagem dos cantores
Tuas entonações nos inspiram amores

Música
Nos traz saudades coloridas
Dos trovadores e serestas
E das canções sentidas”

Semana que vem, vamos à década de 80, com um dos sambas da excelente série da Unidos da Tijuca da época: “Macobeba – O que dá para rir, dá para chorar”. Até lá.

4 Replies to “Samba de Terça – "Rapsódia de Saudade"”

  1. o albino pinheiro e o haroldo costa arranjaram um concorrente a altura,PEDRO MIGÃO,grande comentarista de samba,se não tivesse visto fotos suas na avenida não acreditaria,sabe tudo,saudações rubro-negras,ronaldo.

  2. Cara, eu to muito longe disso. Apenas tento fazer um trabalho de resgate de sambas não muito conhecidos ou quase esquecidos.

    No caso específico do texto de hoje o apoio da diretoria da Mocidade foi fundamental.

  3. Só um erro , o puxador dessa obra prima na avenida foi o proprio gênio autor Antonio Correia do Espirito Santo o “poeta Toco” ;
    Ney Vianna ainda estava na Em Cima da Hora .

    André Poesia

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