A proximidade do tríduo de Momo faz com o meu coração coisas de que até Deus duvida e o diabo desconfia. Prometi, por exemplo, dedicar esse mês aos textos sobre o Carnaval. Houve, porém, desvios de percurso e acabei falando até sobre a mais anticarnavalesca das figuras do mundo, o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos. Hoje quero retomar o rumo certo e enterrar os ossos. Falemos da folia. Para mostrar que não sou um imperiano xiita, vou lhes contar sobre um homem que virou lenda na escola vizinha: Natal da Portela.

O samba, o jogo do bicho e o futebol, três instituições da cultura carioca, fizeram a história e a fama de Natalino José do Nascimento, o Seu Natal, homem cuja trajetória se confunde com a da cidade do Rio de Janeiro – apesar de não ter nascido aqui. Como não? Natal não era de Madureira? Explico.
Não vejo nada demais na origem não carioca de Seu Natal. Nelson Rodrigues, alma carioca até a medula, era pernambucano de nascimento, feito meu avô e minha mãe. O oposto é verdadeiro; tá cheio de nascido no Rio de Janeiro que é tão carioca quanto um caubói de filme de bang-bang passado no velho oeste ou urso panda de jardim zoológico chinês.
Natal nasceu em 1905 na cidade de Queluz, São Paulo , mas chegou de calças curtas ao Rio, nos tempos em que ainda fazia xixi na cama e dizia gugu-dadá. Depois de um curto período em Cachoeira Grande, entre o Méier e o Lins de Vasconcelos, mudou-se com a família para a esquina da Rua Joaquim Teixeira com a Estrada do Portela, no subúrbio de Oswaldo Cruz.

Foi em Oswaldo Cruz, no quintal da casa do pai de Natal, que os bambas Paulo, Rufino, Alvarenga, Heitor, Caetano, Claudionor e Manuel Bam-Bam-Bam fundaram o bloco carnavalesco Vai como Pode. O bloco acabou gerando a escola de samba da Portela, campeoníssima do carnaval carioca até o arrebatador tetracampeonato do Império Serrano, entre 1948 e 1951.
Natal foi funcionário da Central do Brasil durante seis anos. Trabalhou como cabineiro, condutor de trem e telegrafista. Em 1925 sofreu um acidente, perdeu o braço direito nos trilhos do trem e, inválido para o serviço, parou no olho da rua. Fez muito biscate, foi camelô, penou na mão do rapa e foi chamado de crioulo aleijado. Sem conseguir o famoso trabalho formal, arrumou emprego de anotador do jogo do bicho e foi pro pau.
A carreira do cabra na contravenção foi exuberante. De anotador a gerente, de gerente a dono de banca, tornou-se o bambambam da loteria popular e foi pioneiro da polêmica ligação entre o bicho e as escolas de samba. Com ele surgiu a figura do patrono, depois tão comum no meio. A Portela deve às artimanhas pouco lícitas de Natal boa parte de seus triunfos. Envolvido com o futebol, chegou a diretor do Madureira, o tricolor do subúrbio.
Foi valente pra dedéu. Gostava de um charivari. Sofreu quase quatrocentos processos, foi preso umas noventa vezes, tirou cana quatro vezes na Ilha Grande e uma em Fernando de Noronha. Enfrentou, com um braço só, o temível matador China Preto, famoso pistoleiro do subúrbio nos anos 50. Deu um barata-voa no camarada que fez o China Preto ficar mais branco do que defunto dinamarquês.
Natal não era muito chegado no universo da moda: Só andava de chinelos e paletó de pijama. Era assim, em trajes tremendamente informais, que geralmente desfilava pela azul e branca de Oswaldo Cruz. No único ano em que convenceram o malandro a desfilar na beca, de terno, sapatos nos trinques e outros salamaleques, creditou ao traje requintado a derrota vergonhosa da Portela.
Para o bem e para o mal Seu Natal foi o retrato de um Rio de Janeiro que, nos anos 50, auge do seu poder, fugiu ao estereótipo da cidade cantada pela bossa nova, que então surgia com o objetivo mequetrefe de retirar a África do samba.
Muito além do barquinho, da garota gostosa, do cantinho e do violão, a cidade dos subúrbios, dos pequenos times de futebol, do samba e do jogo do bicho, pulsava nos botequins, terreiros de macumba e esquinas de Oswaldo Cruz e Madureira. Ali, longe do mar, Natal foi o rei e a lenda.

Cantou pra subir em 1975, com fama de bandido e herói, feito o personagem de desenho animado que tem asas de anjo e tridente de capeta. Gostava de resumir sua vida numa única frase, muito lembrada depois que foi oló: Acho que era covardia eu ter dois braços também.

No ano seguinte, 1976, a Beija Flor de Nilópolis conquistou seu primeiro título homenageando o jogo do bicho e a figura lendária de Natal. Um detalhe – o refrão do meio é uma bela dica para se saber como interpretar os sonhos e fazer a fé no bicho certo: Sonhar com filharada é o coelhinho/ Com gente teimosa na cabeça dá burrinho/ E com rapaz todo enfeitado/ O resultado, pessoal/ É pavão ou é veado. Para uma escola que no anos anteriores saudara os feitos do regime militar, a exaltação ao jogo do bicho foi um avanço e tanto: Sonhar com rei dá leão!
Evoé!

7 Replies to “NATAL DA PORTELA E SONHAR COM REI DÁ LEÃO”

  1. Caro Simas, as escolas tem seus baluartes e seus mitos, Natal foi um dos vários mitos populares que a Portela e Madureira tiveram, e contado assim por um estudioso que vive as histórias também na prática fica muito mais emocionante. Este seu artigo me encheu de alegria, pois, enalteceu a minha Portela através deste figuraça e o meu segundo time Madureira. Quanto ao Império é a minha segunda escola, quem vive nas proximidades de Madureira fica assim com o coração Azul-branco-verde (coisas de tricolor). Na verdade a Portela me ganhou desde criança e o Império me encantou com a convivência cultural que tive com a escola por alguns anos. Agora não tem mais jeito coração conquistado. Bjs!

  2. salve,grande simas,

    aqui em fortaleza, o maravilhoso monarco deu uma entrevista tipo roda-viva na tv o povo.

    rapaz, a moçada de tão emocionada só fazia render louvaçõs ao home, e tome monarco, lúcido pra caramba, desfiando suas histórias da portela, inclusive sobre o natal velho de guerra.

    seu post, também, me comeveu.
    evoé!

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