A partir desta semana o Ouro de Tolo terá uma nova coluna: a “Cacique de Ramos”, assinada pelo publicitário e historiador Fabrício Gomes – um dos mais assíduos comentaristas deste espaço, além de amigo e vizinho.
Os textos terão periodicidade quinzenal e o título da coluna vem de uma brincadeira que faço com ele – mas ele que conte, se quiser…
O tema da primeira coluna são os percalços encontrados pelos usuários do Metrô carioca. As fotos são do jornal O Dia.
“Metrô: quando o transporte sobre trilhos precisa andar nos trilhos

Atualmente o assunto que ocupa os principais veículos de comunicação de nossa cidade, seja mídia impressa ou TV, tem sido os graves problemas com nosso metrô. Problemas que vão desde a costumaz superlotação nos vagões, entremeados de atrasos – que já viraram rotina – e agora, pra completar, a preocupante (e polêmica) questão envolvendo o trajeto em “Y”, que liga as estações São Cristóvão até a Central do Brasil – especialistas afirmam que a sinalização nesse percurso é manual e, como sabemos, sinalização humana é passível de erros, sendo que “erros” nesse caso, costumam ser fatais.

A empresa responsável pelo serviço de transporte urbano sobre trilhos, neste caso, o metrô, é a Companhia do Metropolitano, atualmente chamada de Metrô Rio – foi criada em novembro de 1968, por lei estadual, e começou efetivamente suas operações em março de 1979. Em 1998, foi privatizada e coube ao grupo Opportrans gerencia-la. Mas o projeto de um transporte sobre trilhos, que atendesse a cidade, é bem mais antigo do que a própria criação da companhia, em fins da década de 1970.

Desde 1928, quando a população da cidade do Rio de Janeiro era de pouco mais de um milhão de habitantes, o metrô já era percebido como o meio de transporte capaz de resolver a questão do tráfego urbano. Justamente por esse motivo, vários estudos foram apresentados, até que na década de 40, a Light ofereceu um projeto comprometendo-se a abrir a linha do metrô e construir as estações, pedindo para isso, um acréscimo de 100 réis sobre o preço da passagem de bonde, de então. Caberia ao Governo do Distrito Federal (Rio de Janeiro) a responsabilidade de comprar os trens, enquanto à Light a operação por tempo determinado. Entretanto, não houve desdobramento dessa proposta. Somente em 1966, o Governo do Estado da Guanabara determinou a constituição de um grupo de trabalho para estudar a implantação de um sistema de metrô.

Em dezembro de 1968, sob supervisão da Comissão Executiva de Projetos Específicos – METRÔ, foi aprovado o Estudo de Viabilidade Técnica e Econômica do Metropolitano do Rio de Janeiro, elaborado pelo consórcio brasileiro-alemão, integrado pelas firmas Companhia Construtora Nacional, Hochtief e Deutch Eisenbahn Consulting, com participação efetiva de cinqüenta por cento de técnicos brasileiros.

Nesse trabalho recomendava-se a construção de uma Linha Prioritária ligando a Praça N. S. da Paz à Praça Saens Peña, passando por Copacabana, Botafogo, centro da cidade e Central, com conclusão prevista para 1975.

Seria prolongada até Jacarepaguá, via Meier, até 1990. Recomendava também a construção de uma Linha 2 que ligaria Pavuna a Niterói, incluindo Estácio e Carioca como estações de transferência.

Voltando ao longínquo ano de 1979, em seus primeiros dias de operação, a extensão da linha do Metrô ocupava 4,3 kms, com apenas quatro carros ligando cinco pontos próximos (cinco estações), sendo o horário de funcionamento de 09h às 15h. O numero de usuários era de apenas 60 mil por dia.

Hoje, 31 anos depois, os números são bem maiores, sendo que atualmente o serviço transporta 550 mil usuários por dia.

Entretanto, o serviço atualmente é um dos piores, na visão dos usuários. Problema do metrô? Ou o carioca é muito exigente?

Do ponto-de-vista do usuário, é inegável perceber que apesar do grande salto dado no início, com a construção de algumas estações, o serviço caiu no marasmo, principalmente em fins da década de 1980 e toda a década de 1990, até que, bem recentemente, toda a sociedade civil – apoiada pela mídia – passou a questionar a eficácia do serviço. Todos os obstáculos enfrentados pelo cidadão atualmente, podem ser explicados pela falta de investimento dos sucessivos governos que passaram por nosso Estado. E isso pode ser contrastado com uma política de transportes voltada única e exclusivamente a atender as grandes empresas de ônibus da cidade, uma verdadeira “máfia” que age, tal qual uma célula cancerígena, por toda a cidade, prestando desserviços à população. Interesses ocultos estiveram em jogo: “pra quê investir em transporte de massa?”, não é mesmo?

O olho gordo dos empresários de ônibus, aliado a falta de visão destas sucessivas autoridades pode ser visto atualmente no caos do transporte público: aglomeração de linhas para a zona sul e Barra da Tijuca (linhas rentáveis na visão do tal empresaiado, ora pois!) – que por sua vez acaba gerando congestionamentos no cento da cidade, rumo a Copacabana, por exemplo -, e consideravel déficit de linhas para regiões longínquas da cidade, como zona oeste, baixada fluminense e Ilha do Governador, por exemplo.

O metrô, que hoje era para servir a maior parte de nossa cidade, tal qual estipulado em seu projeto original, atende de forma deficiente alguns pontos da cidade. E se não bastasse a inércia, o usuário ainda tem que conviver com a deterioração dos serviços: vagões sem ar-condicionado (verdadeiras saunas), fungos brotando do teto dos vagões mal iluminados e com atrasos que não cabem mais desculpas. Na terça-feira de carnaval, por exemplo, enquanto diversos blocos ainda tomavam conta da cidade e as escolas de samba ainda desfilavam no sambódromo, o metrô atrasava, em média, 17 minutos nas estações – este que vos escreve contou no relógio, pessoalmente. O resultado não podia ser outro: vagões hiperlotados de passageiros, empurra-empurra e a refrigeração, que já era deficiente, tornou-se rarefeita, virando temperatura saariana.

E as notícias não são boas, já que o poder público, o único que poderia dar um basta nessa situação de desserviço do metrô, mostra-se reativo quanto a mudanças. Recentemente, um grupo de deputados estaduais propôs uma CPI para resolver, de uma vez por todas, esses problemas – CPI esta prontamente rechaçada pelo presidente da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, Jorge Picciani.

O Metrô-Rio rebate dizendo que somente em 2011, com a compra de novos carros, a situação será restabelecida.

Um dado que ainda não foi percebido pela população é que a inauguração de estações na mesma linha, horizontalmente, irá atrapalhar mais ainda o serviço, superlotando ao quadrado os vagões e estações. Levar o metrô até a Barra pode ser muito bonito no papel, mas na prática, se não forem construídas estações de conexão rumo a outros lugares da cidade, irá gerar o colapso nesse sistema, que já é bastante discutível, sob o ponto-de-vista da prestação equivocada dos serviços aos usuários.

Os governos estadual e federal, ao invés de melhorarem o serviço – seja investindo, seja cobrando da empresa concessionária – preferem inaugurar estações e linhas, já que dá mais visibilidade fazer isso.

No meio desse tiroteio, troca de acusações e clara demonstração de incompetência e falta de respeito, está o cidadão que trabalha e paga impostos, cujo único interesse dos políticos reside em época de eleições.”