
Há 15 anos, líder usou seleção de rúgbi para unir a população. John Carlin, autor do livro que originou filme ‘Invictus’, fala das mudanças no país
Alexandre Alliatti – Porto Alegre
Imagine passar 27 anos preso. Pense como seria viver tanto tempo arquitetando sua vida pós-libertação. Calcule o peso de ganhar a liberdade e, quase na sequência, ter o poder de se vingar de seus inimigos. E agora tente entender um homem que, em vez disso, resolveu se unir a eles. Se a África do Sul vai sediar uma Copa do Mundo a partir do próximo 11 de junho, é porque existiu Nelson Mandela, um líder visionário a ponto de evitar que seu país mergulhasse no caos – e que usou o esporte para radicalizar (para o bem) as relações entre fatias tão heterogêneas de uma mesma nação.
Parece ter sido calculada a época de realização da primeira Copa do Mundo de futebol no continente africano. Em 2010, completam-se 20 anos da liberdade finalmente concedida a Mandela. E 15 anos de uma competição que mudou os rumos do país. Em 1995, já com o maior líder nacional como presidente, a África do Sul foi sede do Mundial de rúgbi. Mandela, ao pensar na disputa, teve um estalo: o esporte, então reservado quase que exclusivamente aos brancos, poderia servir como alavanca para um processo de união em um país que ainda sofria com a segregação.
O Springboks, nome dado à seleção nacional de rúgbi, era idolatrado pelos brancos (os chamados afrikaners) em 1995. E detestado pelos negros. Afinal, ali estava um dos símbolos do apartheid, o regime que separou a população sul-africana de acordo com o critério mais inacreditável: a cor da pele. Mandela, ciente da atenção que o mundo daria à Copa do Mundo de rúgbi, resolveu convencer a população negra, quase toda encantada com ele, a apoiar a seleção. Soou estranho. Era o líder supremo do país pedindo a ajuda dos negros a um símbolo do racismo. Mas Mandela sempre pensou adiante: ele sabia que conquistar o inimigo renderia frutos muito mais maduros do que enfrentá-los. E teve sucesso na empreitada.
A história vivida por Mandela, o povo sul-africano e o Springboks parece conto de fadas. E é real. No ano em que o planeta olha com mais atenção para o país, o mundo da arte se encarrega de relatar os episódios de 1995. Uma grande referência é o livro “Conquistando o Inimigo”, do jornalista inglês John Carlin, que morou seis anos no país, justamente no período do fim do apartheid. É a obra que inspirou Clint Eastwood a dirigir e produzir o filme “Invictus”, com Morgan Freeman no papel de Nelson Mandela e Matt Damon como François Pienaar, o capitão do Springboks.
O livro, como costuma acontecer em adaptações, é superior ao filme. É mais completo. John Carlin, profundo conhecedor do país, mostra as nuances da África do Sul, as peculiaridades de um país que precisou se equilibrar em uma corda bamba para evitar a guerra civil e que teve a sorte de contar com um líder como Mandela, o homem certo na hora certa.
Abaixo, você lê entrevista concedida por John Carlin, por e-mail, ao GLOBOESPORTE.COM. Ele fala sobre as diferenças que separam a África do Sul do Mundial de rúgbi, 15 anos atrás, para o país da Copa do Mundo de futebol, daqui a quatro meses. E também deixa suas lembranças de um país que marcou a vida do jornalista – do mesmo jeito que marcará a lembrança de tantas outras pessoas, mesmo que de longe, a partir de junho.
GLOBOESPORTE.COM: Passaram-se 15 anos desde a ideia de Mandela de usar a Copa do Mundo de rúgbi para tentar reduzir a segregação e a discriminação na África do Sul. E faz 20 anos que ele deixou a prisão. Mudar uma sociedade, claro, nunca é um processo rápido. Como você vê o país na atualidade? Está menos racista?
JOHN CARLIN: O racismo, na verdade, não é a questão agora. Não se você fala das pessoas comuns, cuja maioria trata aos outros com cordialidade e respeito, independentemente de sua raça. A África do Sul tem perdido muito de sua épica e terrível singularidade. Tem os mesmos problemas que muitos outros países. Se não fosse pela Copa do Mundo, a África do Sul não estaria sendo falada no noticiário internacional agora. É uma democracia sólida, com liberdade de expressão e Estado de direito: uma democracia muito mais sólida e respeitável do que, digamos, a Rússia, que mudou ao mesmo tempo. Os maiores problemas agora são a violência, a corrupção e a pobreza.
A África do Sul agora vai sediar a Copa do Mundo de futebol. O que aconteceu com o rúgbi pode ser repetido, e até melhorado, com o futebol no país?
JC: Não. O desafio na África do Sul em 1995 era político; agora, é econômico. A África do Sul vai usar a Copa do Mundo do mesmo jeito que o Brasil, com alegria, divertimento e esperança de benefícios econômicos.
Há um orgulho nacional com o futebol do mesmo jeito que ocorre com o time de rúgbi? Os afrikaners gostam do futebol tanto quanto a população negra?
JC: Orgulho, sim, mas amenizado pelo fato de que o time não é bom. E os afrikaners não tendem a gostar de futebol, não.
Você pensa que Mandela pode ser usado como motivação para o time e para o povo sul-africanos, como aconteceu em 1995?
JC: Um pouco. Mas ele está muito velho para ter um papel ativo.
Seu livro mostra um líder com carisma e estratégia. Quando você pensa em Nelson Mandela, que imagem você faz? Como você define este homem?
JC: Ele é um homem de enorme integridade, respeitador, cortês, espontâneo, calmo, charmoso, com vasta autoconfiança. E um democrata, que trata um garçom do mesmo jeito que faz com a rainha da Inglaterra.
Sabe se ele leu o livro?
JC: Não leu. Está muito velho. Não consegue se concentrar por muito tempo.
O que você achou do filme “Invictus”?
JC: Eu gostei. Agarrou-me do início ao fim – quatro vezes. Eu penso que o filme capta bem o espírito de Mandela e daqueles tempos na África do Sul, e o faz de uma maneira para entreter uma audiência global. Há muito mais política no livro; o filme focou mais na dimensão social do fato.
Que memórias pessoais você tem da África do Sul? Em seu livro, você parece adorar o país.
JC: Eu conheci as melhores pessoas do mundo lá, e também as piores. Há mais pessoas que eu admiro lá do que eu qualquer outro lugar do mundo.”