De volta, a coluna “Whisky, Televisão e Carnaval”, assinada pelo médico, folião e diretor de escolas de samba Walkir Fernandes.
O texto deste domingo joga uma luz sobre algo muito badalado, mas pouco conhecido: as rainhas de bateria e seu processo de escolha.
“Elas não fazem parte de um quesito em avaliação, seus desempenhos nada ou muito pouco influenciam os jurados, mas recebem as maiores atenções da mídia e de boa parte do público. Em torno delas se acotovelam fotógrafos, cinegrafistas, câmeras e aduladores de “celebridades” em geral. Elas são as Rainhas de Bateria.
Há controvérsias sobre quem teria sido a precursora. Falam na maravilhosa mulata Adele Fátima – conhecido por muitas como a mulata das ‘Sardinhas 88’, mas eternizada para os adolescentes de então como a Branca de Neve do filme “histórias que as nossas babás não contavam” – que teria vindo a frente da bateria da Mocidade Independente, lá pelos anos 70. Mas foi a mesma Mocidade que trouxe aquele que seria, no coração do público a primeira grande, transgressora e libidinosa rainha: Monique Evans, isso em 1985.
De lá para cá o cargo ganhou status, atenção do público menos engajado no conteúdo do desfile e mais preocupado com o balançar de glúteos e silicones diversos; e principalmente adquiriu especial importância para a mídia de entretenimento e para patronos e presidentes de escola.
E dá-lhe deusas, semi-deusas, tchutchucas e cachorras. O que antes funcionava como um elemento motivacional para os ritmistas, hoje se transformou num balcão de negócios; tão forte que já deu origem a variações em cima do mesmo tema: musas, madrinhas e princesas de bateria.
Mas qual a importância dessas beldades para uma escola de samba? Atrai mídia e badalação para as agremiações, diriam os teóricos das escolas de samba. Menos como um elemento fomentador de cultura popular, e mais como um produto que é divulgado para mais de 100 países, que assistem os desfiles da Sapucaí e podem gerar grandes patrocínios. Alimentando a tese do “grande espetáculo teatral” .
Para mim elas não tem a menor importância no contexto do desfile. Mas não é bem assim para as escolas e principalmente para as rainhas. Para elas, uma chance de ouro para se projetarem, e alavancarem suas carreiras. Seja rumo a uma ponta em alguma novela, seja rumo ao coração de algum “patrono “, empresário ou membro do deslumbrado Jet set nacional, e com certeza rumo às capas da Playboy…
E para isso não medem esforços, ou melhor não medem esforços por elas. E o que se vê são minúsculas fantasias, ricas em plumas, penas de faisão e cristais swarovski; que emolduram músculos hipertrofiados, para júbilo de esposos, namorados, amantes, padrinhos, tios (os que não medem esforços) e delírio do público em geral.
Evidentemente, nada contra as Moniques, Brunets, Lumas e Pagungs da vez, todas divinas e maravilhosas. Mas irrita um pouco a badalação exagerada que as rainhas tem, sendo que na mais das vezes não há nenhuma identificação entre as monarcas em questão e seus súditos; muitas inclusive se comportando como aves de arribação e migrando de escola em escola. Tantas vezes em detrimento de belas meninas da comunidade, que frequentam suas agremiações o ano todo e de forma assídua. Poucas e louváveis exceções, como as lindas Raissa da Beija Flor e Bruna Bruno da União da Ilha, que fazem parte da comunidade de suas escolas de coração.
E as escolas em que se beneficiam, perguntaria o leitor? Grana, troca de favores e outras milongas mais. Nada muito louvável, mas tudo parte da engrenagem que move o espetáculo.
Tem madrinha que banca a roupa dos ritmistas, tem madrinha que ajuda escola mirim, tem madrinha que é amasiada com poderosos dos mais diversos calibres. Segundo se comenta, algumas escolas colocam seus tronos a venda por quantias que podem chegar, muito conservadoramente, a 60.000 reais.
Reportagem especial de uma conceituada revista semanal sobre o tema afirma que em 2010 tivemos pelo menos um caso de comprovada compra. Diz a referida matéria: “Rainha da Vila Isabel, Gracyanne lançou mão de uma moeda de troca: os shows do namorado, o cantor Belo. Em troca do posto da amada, o pagodeiro ofereceu à agremiação da Zona Norte 80% da arrecadação de duas apresentações feitas na quadra da escola”.
Esses são os caminhos que nosso maior espetáculo (já nem tão) popular vem tomando: balcão de negócios. Pra virar Broadway falta pouco, pra virar SexHot, quase nada …”