Saiu na edição de hoje de O Globo, na parte de Opinião [página 7 do primeiro caderno], um pequeno artigo meu sobre futebol e quejandos. Reproduzo abaixo o texto:

A PÁTRIA DE PRONTIDÃO

Até as pinturas rupestres da Serra da Capivara sabem que a Copa do Mundo transcende o futebol. De 1930, quando Uruguai e Argentina disputaram uma final que honrou as pancadarias entre os velhos caudilhos do Rio da Prata, até hoje, não há um mundial de futebol que não tenha misturado a bola e a política em proporções pouco recomendáveis.
O uso do esporte como instrumento de propaganda nacionalista é recorrente na maior parte dos países – e não custa lembrar que a Copa da África do Sul será disputada em um ano eleitoral no Brasil. Não é preciso o dom da profecia para prever que, em breve, candidatos a todos os cargos eletivos, alguns tão versados em futebol quanto o poodle da minha vizinha em física quântica, encarnarão a pátria de chuteiras.
Exemplos não faltam. A Copa de 1974, disputada na Alemanha Ocidental e vencida pelos donos da casa, é um prato cheio. Foi a primeira que contou com a participação de uma seleção da África subsaariana. A honra coube ao Zaire, governado pelo ditador Mobutu Sese Seko. O déspota, que dentre outros atributos se considerava descendente de leopardos da savana, exigiu dos atletas um desempenho de espantar o mundo – sob ameaça de prender o elenco inteiro na volta ao país.
O desempenho da seleção zairense acabou sendo mesmo espantoso, ainda que não exatamente no sentido pretendido pelo leopardo em chefe. O time perdeu de 2X0 da Escócia, tomou um acachapante 9 X0 da Iugoslávia e despediu-se com uma derrota por três gols a zero para o escrete brasileiro. O placar, entretanto, ficou na medida justa. Mobutu, depois da surra tomada contra os iugoslavos, havia declarado que uma derrota por mais de quatro gols para o Brasil seria passível de pena de morte para o elenco. O três a zero manteve o Brasil na Copa e os jogadores do Zaire vivos.
A delegação do Brasil àquele certame, por sua vez, refletiu os anos de chumbo da ditadura e, de certo modo, propõe uma questão para a Copa de 2010. Entre coronéis, capitães, tenentes e majores, mandamos um verdadeiro contingente militar para coordenar o escrete nos gramados da Alemanha. O encarregado da segurança dos jogadores, o Capitão Guaranys, era homem de poucas palavras e indefectíveis óculos escuros, que não tirava nem para dormir. No fim das contas, não se sabe se tínhamos um time de futebol ou um regimento de infantaria. O hotel em que a equipe se concentrou mais parecia uma casamata da Segunda Guerra Mundial. Para piorar, o técnico Zagallo, embalado pelo clima de bunker, deu chiliques em entrevistas quando perguntado sobre a surpresa tática do carrossel holandês – A Holanda, aliás, acabou nos eliminando.
Esperemos que em 2010 a coisa não desande e o escrete traga o caneco. O técnico Dunga dá toda a pinta de que pretende manter os jogadores isolados na concentração. O homem até que tem lá suas razões. Dunga quer evitar o furdunço, de enrubescer o próprio deus Dionísio, em que se transformou o hotel da seleção brasileira no fiasco de 2006. É justo.
Há, porém, que se evitar a fuzarca com discernimento, sob pena de repetirmos as maluquices de 1974. Os exórdios nacionalistas, piripacos moralistas e delírios religiosos, tão ao gosto da atual cúpula da seleção e de alguns atletas que crêem que o próprio Jesus Cristo vestirá a camisa canarinho na África do Sul, não garantem necessariamente bons resultados e geram momentos, quase sempre, ridículos. Evitar que um treino da seleção mais pareça um piquenique em Paquetá, como ocorreu em 2006, não significa reproduzir o aparato de bunker que houve em 74.
Nunca é demais recordar a frase de João Saldanha, atribuída a Neném Prancha: Se concentração ganhasse jogo, o time da penitenciária seria campeão. E, acrescento eu, as freiras carmelitas descalças, concentradas em regime de clausura, bateriam um bolão.
Luiz Antonio Simas

7 Replies to “A PÁTRIA DE PRONTIDÃO”

  1. Fabuloso meu caro mestre!!! fico triste porque andou meio sem tempo de vir aqui pois, sei que é conhecimento e entretenimento na certa! Vc parece uma enciclopédia muito viva e saltitante! desculpe o modo de falar! Bjs!

  2. Simas, acho que veremos cenas lamentáveis de autoritarismo e arrogância durante a Copa. Não sei se dará certo, porém torcerei para o sucesso da nossa seleção canarinho. Como sempre.
    Abraços!

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