Começou ontem aqui no Rio de Janeiro o evento Comida di Buteco. Sobre ele escreveu com rigorosa propriedade o polemista carioca Eduardo Goldenberg [ aqui ]. O jornal O Globo trouxe, em encarte, detalhes sobre o babado. A coisa, como se percebe, promete ser movimentada.

Em resumo:  trinta e um restaurantes apresentam suas criações, o público atribui notas aos pratos, temperatura da bebida e higiene dos locais. Em meados de julho,  em um show com vários artistas e Djs, os vencedores serão anunciados.  Dentre os patrocinadores do furdunço, vejam só,  temos uma universidade privada, uma marca de maionese, uma cervejaria, uma corretora de imóveis e uma companhia de aviação.

A realização do evento sugere algumas reflexões sobre as relações entre cultura e economia. Vou pegar, de leve, esse bonde e dar meu pitaco. 
Entendo cultura como todo o processo humano de criação e recriação de formas de viver. Cultura é o conjunto de padrões de comportamento, elaboração de símbolos, visões de mundo, crenças, hábitos, tradições, anseios e que tais que caracterizam e distinguem um determinado grupo social.
É nesse sentido que a própria economia deve ser vista como um cadinho do processo cultural que caracteriza os povos. As relações econômicas também são elementos constitutivos do modo de ser de um grupo – e aí podemos refletir sobre uma pá de coisas, dentre elas a maneira como diferentes grupos socias encaram os atos de consumir, trocar, vender, comprar, se desfazer de um bem, valorizar ou não um objeto, etc… Tudo isso é elemento constitutivo de cultura, feito comer, dançar, rezar, enterrar os mortos e acordar as crianças.
O que esse Comida di Buteco propõe, infelizmente, se inscreve numa inversão perigosa: é um exemplo bem acabado – e assustadoramente corriqueiro – de submissão da cultura à economia. Explico.
A ideia do festival me parece ser a de transformar o que seria a cultura de botequim em um bom negócio para todos. Tento acreditar, sinceramente, nas boas intenções do babado e é possível que os envolvidos no evento achem de fato que estão valorizando o boteco. Sinto dizer que não estão.  
O problema é que ao invés de entender a economia como parte constitutiva da cultura – esse poderoso campo que engloba nossos atos e nos define como homens humanos –  essa perspectiva inverte tudo e transforma  a cultura  em parte constitutiva da economia – esse campo que, quando determinante, nos define como meros consumidores, desumanizados por conseguinte.
Insisto: a economia é que deveria ser encarada como um dos aspectos da cultura. O festival transforma  a cultura em um mero elemento submetido aos ditames do mercado. Quando isso acontece, o que era cultura perde toda a carga de representações de modos de viver dos homens e se transforma, esvaziada de sua dimensão vital, em simples evento ou entretenimento, como queiram.
O Comida di Buteco é isso: um evento, desprovido de qualquer outro valor que não seja o de movimentar a economia da cidade, divulgar os patrocinadores, difundir a imagem dos participantes e aumentar o faturamento dos restaurantes envolvidos – objetivos legítimos, diga-se de passagem, ainda que não me comovam e que eu lhes faça sérias restrições.

O problema – gravíssimo! – é que a cultura, quando transformada e empobrecida em mero evento, morre. O festival, sob o pretexto de valorizar o botequim, joga contra exatamente o que diz querer valorizar.

Quando digo que a cidade tem alma, uso evidentemente uma metáfora para demonstrar que a cidade tem cultura. O botequim é, pois,  um dos elementos constitutivos da cultura carioca. Certa feita escrevi o seguinte sobre o tema:
O buteco é a casa do mal gosto, do disforme, do arroto, da barriga indecente, da grosseria, do afeto, da gentileza, da proximidade, do debate, da exposição das fraquezas, da dor de corno, da festa do novo amor, da comemoração do gol, do exercício, enfim, de uma forma de cidadania muito peculiar. É a República de fato dos homens comuns…
É  o nosso jeito, a nossa maneira, de recriar o mundo, inventar a vida, beber o passado, digerir o presente e projetar futuros. Nos definimos, dessa forma, como membros do nosso grupo e criadores de cultura – humanizados, portanto.
O Comida di Buteco cumpre muito bem o objetivo de agitar a cidade, movimentar a economia, colocar as pessoas na rua e o escambau. Não consigo, porém, deixar de ouvir uma voz, vinda sabem os deuses de onde [será o rugir  do rótulo da maionese patrocinadora da coisa ?] , que parece inverter as lições do velho vagabundo:
– Não sois homens! Consumidores é que sois!
Tolo é quem pensa que o homem é desprovido da humanidade que lhe define quando morre. Mesmo morto, defuntinho da silva, o homem segue vivo na memória da sua gente, como dinamizador, pela lembrança, da tradição.
O homem só é desprovido de sua radical humanidade – morto, sem vitalidade – quando deixa de criar cultura e vira um reles espectador de uma vida que já não lhe é mais pertencimento.
Abraços.

7 Replies to “COMIDA DI BUTECO, O EVENTO”

  1. LA,

    É lamentável, a essa altura do campeonato, que se dê atenção a esse movimento de cretinização que é o tal commydadibuteko [ou outra grafia do gênero, tanto faz].

    Pior ainda, perceber que alguns fraternos amigos, donos de estabelecimentos participantes e descaradamente prejudicados em eleições passadas [o que foi aquela unanimidade do Original do Brás?], insistirem nessa bobagem, acertadamente apontada por você como atentatória à verdadeira cultura do botequim.

    E viva Chaplin!

    Saravá!

  2. Já começa errado quando grafam “comida DI BUTECO”, como se quisessem diminuir, transformar a comida de botequim em mera curiosidade engraçadinha, pra ser apreciada ironicamente.

    Tô fora

  3. Gostei do texto, mas discordo.

    Ao menos aqui em Salvador, o concurso é animador.
    Os bares vivem na mesmiçe do tira gostos básicos e mal-feitos. Com o concurso surgem novas opções, e valoriza a qualidade e o asseio.

    Daí a ser um resgate da cultura urbana, cosmopolita, neo-moderna, pós-gótica, latinidade, mediterrênea, blá, blá, blá… Ôpa, devagar com o andor que o santo é de barro.

    Abraços
    Helvécio

  4. Simas,

    Tem tanto buteco vagabundo por aí, o Felipinho já tentou listar os que ele conhece, é só não divulgar na internet o endereço.
    E a propósito desta fanfarronice de mídia , se for um caso extremo e obrigatório sentar lá pra beber, sempre terá como opção o velho frango a passarinho e a batatinha frita. Eu é que não como pastel de angú, bolinho de feijoada (perdõe-me os que apreciam) e outros trens que inventam por aí , por que sou adepta ao básico pra comer. Um arroz, feijão, dois ovos e batatata frita, já fazem a minha felicidade gastronômica.

  5. Lula
    Seu texto expressa exatamente o que o “povo” como eu acha, para nós que nem conhecimentos temos a respeito a não ser o que lemos no Boteco do Edu e em outros Blogger, agradecemos por não participar de coisas do tipo, só vou guardar os nomes dos participantes para excluir da minha lista de frequência.

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