Estou para escrever esta resenha há algum tempo, mas sempre surgia outro assunto ou não estava com o livro em mãos para escrever. Devo ter acabado esta leitura há mais de um mês…
Este “Guerra sem Fim”, do jornalista americano Dexter Filkins, é um retrato cru e frio de duas guerras: Afeganistão por volta de 1998 e no Iraque após 2003.
Sua narrativa chega a ser irritante de tão imparcial. Sem tomar partido ou estabelecer juízos de valor o correspondente estabelece um panorama bastante fiel dos combates nas duas regiões, dos motivos nem tão nobres que levam a tal, da vida diária em meio ao cenário de guerra, da democracia de araque que se implantava no Iraque e das dificuldades de se impor uma legislação ocidental neste país.
No relato sobre o Afeganistão fica claro porque o regime talibã, que parecia radical e incoerente aos nossos olhos ocidentais havia prosperado e tido apoio maciço da população.
Com todas as restrições culturais, o Talibã era um mínimo de ordem a ser estabelecido no país em guerra, e suas restrições eram toleradas por medo da vida sem a organização mínima da sociedade estabelecida pelos fundamentalistas. Sua oposição, as chamadas “Aliança do Norte” e a milícia uzbeque eram grupos de bandoleiros mais preocupados em impor o terror e em saquear tudo que pudessem.
Ou seja, por mais toscas que pudessem ser as instituições – baseadas na lei islâmica aplicada como no Século VII – e mais bárbara que fosse a aplicação da lei, a alternativa era ainda pior.
Maior parte do livro, o relato iraquiano é um intrincado retrato das relações comerciais, de segurança, de interesses petrolíferos e da dificuldade de se impor uma democracia à moda ocidental em um país que absolutamente não possui esta cultura.
Se fazem destaques também a descrição da rotina do repórter e sua equipe em Bagdá e as operações militares as quais ele esteve presente – com narrações detalhadas de mortes e de erros em campo que levavam a tais fatalidades.
Também há a descrição de torturas e assassinatos cometidos pelas forças americanas, bem como os problemas de infra-estrutura causados pela guerra.
O livro reforça uma impressão que há muito eu tinha: de que a ação americana tanto no Iraque quanto no Afeganistão muito mais desorganizou a sociedade dos dois países que qualquer outra coisa. No caso iraquiano fica claro o interesse econômico que levou à invasão.
Apesar de uma imparcialidade e de um distanciamento que chegam a irritar, é um panorama imprescindível para quem quer entender um pouco da dinâmica no Oriente Médio e o fundamentalismo islâmico. É melhor ainda se for lido em sequência com “Procedimento Operacional Padrão”, que conta as atrocidades dos soldados americanos na prisão iraquiana de Abu Ghraib – citadas de relance neste.

Na Livraria da Travessa, custa R$ 46.