Hoje é quarta feira, mas por conta da divulgação do resultado da promoção ontem temos a nossa coluna “Samba de Terça” hoje, quarta.
Nos mantemos em 2010. Outro samba bastante incensado na pré-temporada carnavalesca e que também foi bastante afetado no dia do desfile por questões extra-samba.
A escola da Leopoldina vinha de um desfile bastante morno no ano anterior. Apesar do sétimo lugar, o desempenho do samba não agradou à escola, bem como o trabalho da carnavalesca Rosa Magalhães.

Para 2010 a diretoria da escola resolveu dar uma sacudida. A carnavalesca, desde 1993, foi dispensada. Trocou-se também todo o carro de som, a começar pelo puxador.

Foram contratados o carnavalesco Max Lopes e o puxador Dominguinhos do Estácio, ambos vindos de experiências não muito bem sucedidas em suas escolas anteriores – respectivamente Porto da Pedra e Inocentes de Belford Roxo.

Max Lopes propôs à escola o enredo “Brasil de Todos os Deuses”, um passeio pela religiosidade do povo brasileiro. Era um enredo muito semelhante aos levados pela Mocidade Independente em 1995 e especialmente pelo Império Serrano em 2006.

Nas palavras da sinopse:

“Uma terra abençoada! É um Brasil que nasce de homens bem-aventurados, de uma história de dores e de alegrias, que gera um povo miscigenado, criativo e crente no que se tem de mais valor: o poder dos deuses. Seres iluminados, supremos, espirituais ou materiais, sagrados ou profanos, divinos de um Brasil de todos os Deuses.

Brilha! A Coroa da Imperatriz Leopoldinense às coroas das divindades… Despertamos da imensidão do nosso Brasil, do “realismo mágico” do Reino de Tupã à nossa criação.

Povoado pelo consciente imaginário dos índios brasileiros – os donos da terra; ressoam das matas cantos, louvores, ritos, rancores, paixão e fé. No enredo do meu samba, Tupã é um Deus, genuinamente, “brasileiro”. Ele é a força divina, como no mito guarani da criação, que desce à terra personificado em um manto de luz e cor e cultuado como Deus do Carnaval. É Tupã que une e apresenta os elementos constitutivos das religiões brasileiras e o fenômeno religioso universal do Homem, que crê em Deus, em Olorum, em El, em Alá, em Maomé, em Jeová, em Buda, em Brahma, ou seja, em um Ser Superior.

Tupã, de seu trono, tudo vê. No século XVI, treze caravelas de origem portuguesa aportam em terras brasileiras. À primeira vista, tais navegadores, cumprindo um contrato religioso, acreditam tratar-se de um grande monte e chamam-no de Monte Pascoal. Realizam, em 26 de abril de 1500, a primeira missa no Brasil. Desde então, as atitudes e imposições dos homens brancos aos filhos de Tupã, e até mesmo aos negros africanos que, posteriormente, viriam para além-mar na condição de escravos, cultuou-se o cristianismo. A cruz marca o testemunho de fé desses navegadores portugueses, que reconhecem Cristo como “Deus Homem” ou como a encarnação de Deus.

Assim, a fé cristã é difundida, chegam as catequeses e a lavoura e, com elas, a exploração do Novo Mundo, desvendado por Seu Cabral.

O sopro forte de Tupã vai nos mostrando a nossa formação. Criam-se doutrinas, estórias, mitos e lendas. Sob a inviolável fé cristã, vindos da África Ocidental, os negros africanos trazem, além da dor da escravidão, suas crenças, suas divindades, suas lembranças… de um ritual chamado N?Golo, praticado nas aldeias do sul de Angola, à época do rito da puberdade – que representava a passagem de moça para a condição de mulher. Também aporta, com os negros africanos, o culto aos Orixás – que atuam como intermediários entre o mundo terrestre e o Deus Negro – chamado Olorum ou Olodumaré, o Princípio Criador.

O Brasil transcende a um princípio de unidade geral: negros, índios e europeus ganham um só corpo, viram uma só gente, abençoada pelos “deuses brasileiros”. É o despertar poético de uma ardente nação, uma nação, que perante os olhos de Tupã, vê navegar sobre seus mares, navios a vapor trazendo homens, mulheres, velhos e crianças (1870-1930) à nova terra.

A viagem marca para sempre a vida dos imigrantes europeus, asiáticos, indianos, americanos, entre outros. Partir assinala o encerramento da origem da sua existência, sublinhado pelo traço genérico comum de ansiedade, estranheza, expectativa da chegada e a reconstrução de uma nova vida em outro país. Até que o processo de imigração viesse a se concretizar, fatos como a visão etnocêntrica (dos nacionais) e a autopercepção do imigrante como estrangeiro contribuíram para reforçar os laços de grupo, os laços familiares e, sobretudo, os laços religiosos.

As tradições religiosas dos imigrantes no Brasil fundiram-se a nossa brasilidade. Dos bairros étnicos, judeus, árabes, ortodoxos, japoneses budistas ou xintoístas, alemães protestantes, e até indianos hare krishnas, com suas formas de linguagens, expressões diretas e atuantes, preservam seus mistérios e cultuam seus deuses…

Do Judaísmo: “um velho pastor, cansado da fome e da seca, certa vez ouviu uma voz a dizer: Parte da tua terra. Era o Senhor, que propôs guiar aquele homem até um lugar abençoado, onde água e comida nunca faltariam. Em troca, ele deveria adorá-Lo como o único Deus e espalhar pelo mundo uma mensagem de justiça. A proposta era arriscada numa época em que reis exploravam o trabalho de camponeses, invasores ameaçavam cidades-estado e os povos, em busca de proteção, veneravam várias divindades. Mesmo assim, o pastor aceitou o acordo. E foi recompensado por isso. Seu nome era Abraão. Ele sobreviveu a guerras, catástrofes naturais, perseguições. E seus descendentes foram guiados numa longa jornada rumo a Canaã – a Terra Prometida” (Revista Superinteressante, março 2009).

A narrativa da aliança entre Deus e Abraão é uma das mais conhecidas da tradição judaico-cristã e, embora nunca tenha sido confirmada historicamente, pode explicar como surgiu a primeira grande religião monoteísta, o Judaísmo.

Do Budismo: a essência do pensamento budista focado nas Quatro Nobres Verdades:

1º dor (a vida é cheia de dor);
2º a origem da dor (a dor provém do desejo de experiências sensoriais);
3º sobre a superação da dor (atingir o estágio de nirvana); e
4º o caminho que leva à superação do desejo (o desejo apaga-se quando se segue o “Meio-Caminho”, o sagrado caminho das regras da vida): a pureza da fé; da vontade; da ação; dos meios de existência; da atenção; da memória; e da meditação.

Uma filosofia espiritualista de vida baseada integralmente nos profundos ensinamentos do Buda para todos os seres, que revela a verdadeira face da vida e do universo.

Do Islamismo: a religião que mais cresce no mundo contemporâneo nasceu na Península Arábica a partir da reflexão de Maomé em torno da multiplicidade de deuses existentes nas tribos da própria península, assim como das religiões petrificadas e presas no formalismo ritualístico, sem a vivificação espiritual desejada e desejável, como o cristianismo ortodoxo grego, o cristianismo romano e o judaísmo.

Nos treze séculos que se passaram de sua gênese, a religião congrega hoje mais de 800 milhões de adeptos, unidos pelo sentimento profundo de pertencimento a uma só comunidade. E essa expansão, que continua, é, principalmente, em virtude de um espírito de universalidade que transcende qualquer distinção de raça e permite a cada povo se integrar no Islã, mas, ao mesmo tempo, conservar sua cultura própria.

Do Hinduísmo: uma intersecção de valores, filosofias e crenças, derivadas de diferentes povos e culturas.

Tem sua origem pelo ano de 1500 a.C. Nasceu a partir dos elementos religiosos dos vencedores (arianos) e vencidos (os autóctones). Provém da experiência humana. Consiste na investigação das profundezas da alma, na reflexão sobre si mesmo, da preocupação em não deixar escapar nada de experiência.

O credo fundamental do Hinduísmo é o da existência de um espírito Universal chamado Brahma (alma do mundo). Essa alma do mundo, também chamada de Trimurti, o Deus Trino e Uno, tem esse nome porque acreditavam que ela era: 1. Brahma, o Criador; 2. Vishnu (Krishna), o Conservador; 3. Shiva, o Destruidor.

A religião hindu acredita ainda em muitos deuses. Existem cerca de 33 milhões de deuses. Os sacerdotes hindus afirmam que são apenas representações de diferentes atributos de Brahma ou nomes do mesmo Deus.

No destino imaginário da humanidade celebram a vida e percorrem o caminho da verdade. Todos de braços dados e peito aberto em um convívio fraterno, sem ódio nem rancor, da passarela do samba mostram pro mundo que a união entre as crenças é um ato de amor…

Entre o sagrado e o profano, Brasil de todos os Deuses é a devoção de cada religião, é a celebração das festas religiosas. Da Festa do Divino, que tem origem nas comemorações portuguesas a partir do século XIV e que no Brasil é marcada pela esperança de uma nova era para o mundo dos homens, com igualdade, prosperidade e boa colheita. Do Reisado, da festa do negro que se faz no Congado, da Cavalhada – a histórica batalha entre cristãos e mouros, das romarias e dos beatos e sua peregrinação pelos caminhos da fé.

De um Brasil que vive em harmonia, onde deus paga, onde deus cria e convive com o povo brasileiro no seu dia-a-dia:

Deus lhe pague!
Deus lhe abençoe!
Deus é o vosso Pai,
Deus é o vosso guia…

Vai com Deus!
Deus é amor.
Graças a Deus!
Deus é meu pastor.

O encanto toma conta do espírito de Tupã que abençoa o Brasil como o templo da união de todas as crenças. Das matas indígenas ao cristianismo, dos cultos afros às manifestações religiosas, dos imigrantes, da festa da fé ao povo brasileiro. A Imperatriz Leopoldinense é o templo do Brasil, é o Brasil de todos os Deuses – um poema épico, erguido ao longo da nossa história, que pede passagem para contar em “canto e oração” a ação sociocultural de todas as religiões nesse encontro mágico e poético chamado Carnaval.

Ideia Original e Carnavalesco: Max Lopes

Pesquisa e texto: Marcos Roza

ESTRUTURA DE APRESENTAÇÃO DO ENREDO

“BRASIL DE TODOS OS DEUSES”

ABERTURA – A COROA DAS DIVINDADES
2º SETOR – A TERRA DE TUPÃ
3º SETOR – A VINDA DA FÉ CRISTÃ
4º SETOR – O CULTO NEGRO
TRIPÉS – JUDAÍSMO
5º SETOR – BUDISMO
6º SETOR – ISLAMISMO
7º SETOR – HINDUÍSMO
8º SETOR – BRASIL: TEMPLO DE UNIÃO”

(Fonte: Galeria do Samba)

A disputa de samba foi acompanhada com entusiasmo pelos gresilenses das listas de discussão das quais participo, que “abraçaram” o samba da parceria de Jefferson lima, Guga, Flavinho, Gil Branco e Me Leva. Os comentários eram de que este era o grande samba da escola em muitos anos, e também o grande samba do carnaval caso fosse escolhido.

A diretoria atendeu ao clamor de sua comunidade e resolveu levar este samba para a avenida. Ele se sagrou vencedor e tinha um andamento mais lento que o observado nos recentes desfiles, a fim de valorizar a bela melodia.

Em minha opinião particular, sem dúvida alguma era um bom samba, mas inferior ao do Império Serrano sobre o mesmo tema – e a outro que chegou à finalíssima da escola da Serrinha no referido ano. Também achava inferior aos sambas da Vila Isabel – que tratei aqui na coluna anterior – e ao da Mangueira.

Outra questão que preocupava quem gostava de carnaval era o carro de som da escola. Quem acompanha o desfile sabe que, a despeito de sua bela história, o puxador Dominguinhos do Estácio há tempos que se resume a fazer “cacos” durante o desfile, sem propriamente cantar o samba..

Completando o quadro, os intérpretes de apoio da escola eram questionados até mesmo por seus próprios torcedores e componentes da comunidade gresilense. O quadro se agravou com a saída próxima do carnaval do segundo intérprete, devido a declarações dadas em um dos espaços mais lidos de samba na internet.

A Imperatriz Leopoldinense era a segunda escola a pisar na Marquês de Sapucaí na noite de domingo de carnaval, 14 de fevereiro.

Talvez desacostumada com o posicionamento de desfile – onde a armação é feita diretamente na concentração – a escola teve problemas em sua preparação para o desfile. Os carros alegóricos foram amontoados no início e houve muita dificuldade para as alas se prepararem adequadamente.

Os tripés do abre-alas, com uma concepção errada – o maior peso estava todo na frente – andavam de forma lenta e com dificuldade para se mater em linha reta. Quando o samba começou a ser cantado a escola ainda estava na Presidente Vargas, longe do Setor 1.

Para completar o quadro, as fantasias estavam bem maiores que o padrão habitual da escola e isto prejudicou bastante a evolução da Imperatriz. A escola, que tinha feito bons ensaios técnicos, passou apática.

Finalizando os problemas que a escola enfrentou, o carro de som simplesmente não conseguiu dar ao samba o desempenho que dele se esperava, com uma performance sofrível. A bateria no início do desfile também rateou, embora tenha acertado o passo na sequência.

Com a lentidão provocada pelo atraso do abre alas e sua lenta evolução dos tripés, a escola teve problemas de evolução e precisou correr desesperadamente ao final para cumprir o tempo máximo de 82 minutos de desfile.

Com todos estes problemas, a escola alcançou a oitava colocação na abertura das notas, um resultado bem aquém do esperado. Entretanto, o samba ainda conquistou o Estandarte de Ouro, a despeito de seu desempenho apenas mediano na avenida. Em minha opinião a Mangueira seria um vencedor mais justo deste prêmio, mas não dá para se dizer que foi um equívoco do júri.

Vamos ao samba e, ao final, um vídeo do início do desfile – que mostra a exata posição onde eu estava.

“Terra abençoada!
Morada divinal
Brilha a coroa sagrada
Reina Tupã, no carnaval…
Viu nascer a devoção em cada amanhecer
Viu brilhar a imensidão de cada olhar
Num país da cor da miscigenação
De tanto deus, tanta religião
Pro povo, feliz, cultuar

O índio dançou, em adoração
O branco rezou na cruz do cristão
O negro louvou os seus orixás
A luz de deus é a chama da paz

E sob as bênçãos do céu
E o véu do luar
Navegaram imigrantes
De tão distante, pra semear
Traços de tradições, laços das religiões
Oh, deus pai! Iluminai o novo dia
Guiai ao divino destino
Seus peregrinos em harmonia
A fé enche a vida de esperança
Na infinita aliança
Traz confiança ao caminhar
E a gente romeira, valente e festeira
Segue a acreditar…

A Imperatriz é um mar de fiéis
No altar do samba, em oração
É o Brasil de todos os deuses!
De paz, amor e união…
 

(Fotos e vídeo: Fabrício Gomes)