Os meus 67 leitores já devem ter se acostumado a ver aqui no Ouro de Tolo sempre a tentativa de um ângulo diferente dos fatos. Às vezes com sucesso, outras muitas vezes, nem tanto. Mas o meu objetivo neste espaço é sempre a de buscar o que está por trás do que a apuração trivial nos aponta.

Não falarei aqui do aspecto criminal do “Caso Bruno”. Ressalvo, apenas, que ele somente pode ser demitido pelo clube após a condenação definitiva, sob pena de um processo trabalhista extremamente dispendioso após uma eventual declaração de inocência ao término do processo. Minha convicção pessoal é de que ele não somente é responsável pelo sumiço da moça como premeditou tal ato.  Entretanto tecnicamente sem o corpo sequer podemos falar em assassinato, somente em sequestro.

Entretanto, quero chamar a atenção para algo que é uma das raízes do problema, com duas faces, e que não vem sendo observada: a falta de formação destes jovens que, de uma hora para outra, se tornam não somente homens ricos – ou com boa condição financeira – como celebridades instantâneas, acima do bem e do mal.

O meu amigo Affonso Romero, colunista deste espaço, costuma dar uma definição que parece meio preconceituosa, mas não é: “jogador de futebol é um ‘peão’ com dinheiro”. Ou seja, são pessoas de formação intelectual – que é diferente de inteligência – parca, gostos popularescos, quase vulgares e pouca visão do mundo fora de seus limites estreitos.

Ressalto que a meu ver este tipo de comportamento vale tanto para aqueles garotos oriundos de classes sociais mais baixas quanto para os “filhos de escolinha”, teoricamente de classe média ou média-baixa. Estes últimos largam os estudos bem cedo para dedicarem-se ao futebol e também, acabam se adequando ao arquétipo típico de um “boleiro”. A própria família, em média, estimula que o adolescente largue os estudos para se dedicar ao futebol, porque a perspectiva de ganhos futuros se torna alta.

Ou seja, ainda mais nos dias de hoje onde os jovens são guindados aos times principais dos clubes com dezessete anos, às vezes menos, o fato de se começar a ganhar dinheiro ainda muito jovem e com uma formação deficiente tende a tornar os jovens bastante vulneráveis a “tentações”. Ainda mais se o candidato a boleiro vier de uma família desestruturada, sem o pai ou sem a mãe, com conflitos familiares e sem formação religiosa.

Não é incomum ouvirmos que “a promessa se perdeu”. Caiu na noite. Caiu na bebida ou em más companhias. Tornou-se perdulário. Como não tem a necessária formação familiar ou educacional acaba se deslumbrando. Cai de rendimento, perde o lugar no time muitas vezes e começa a perambular por times pequenos. Isso quando não comete outros erros.

Complicando o quadro temos outro tipo de problema: como já escrevi anteriormente, as ditas “celebridades” não somente adquiriram status de semi-deuses quanto passaram a personificar a idealização da vida comum das pessoas. Muitas vezes o cidadão comum vive a vida destas pessoas, especialmente consome a vida destas pessoas – que “gira” todo um mercado altamente lucrativo de entretenimento – e as tem como um espelho.

Do outro lado o espelho é a celebridade se sentir acima do bem e do mal. E embora não desculpe explica um pouco do “Caso Bruno”. Certamente ele se inebriou de tal forma pela fama e pela idolatria que, confrontado a uma possível chantagem, julgou que poderia fazer o que fez sem ser responsabilizado. Isso além de ter características de psicopata, mas nem me aventurarei por esta seara por me faltar conhecimento.

Traduzindo, este lamentável e torpe episódio é reflexo de três fatores: às deficiências de formação dos meninos que se tornam jogadores, à transformação da vida das pessoas de destaque na sociedade em uma “mercado de consumo” e às próprias tendências psicopatas demonstradas pelo jogador.

Sem dúvida alguma os clubes brasileiros, em especial os maiores, precisam olhar com mais atenção a formação dos jovens em suas categorias de base. Não somente a formação esportiva quanto a formação para a vida.

O próprio Bruno é um retrato disso, pois foi abandonado pelos pais com dias de vida, criado pela avó em um município de alta criminalidade na Grande Belo Horizonte – uma espécie de “Complexo do Alemão” mineiro – e com formação tanto educacional quanto familiar claramente deficiente. Se mesmo para aqueles que se preparam para tal guinada em suas vidas – pois é – já é complicado, imagina um histórico destes ?

Aproveitando, queria ressaltar algo que como rubro-negro muito tem me incomodado: este velho preconceito manifestado por muitos dando conta que “flamengo é tudo bandido”, que “a Gávea é uma fábrica de marginais”, que “todo torcedor do Flamengo deveria ser preso” e coisas do gênero. É o tipo de generalização mentirosa que não leva a nada produtivo. Até porque um caso como estes poderia ter acontecido com um jogador de qualquer clube do Brasil, pelos fatores que elenco acima. Mas é muito chato ser chamado de “bandido” e “marginal” quando a gente luta para pagar as nossas contas e viver uma vida digna e honesta. Deixo registrado aqui o meu protesto.

Outrossim, não poderia deixar de registrar a excessiva permissividade da diretoria rubro-negra com condutas no mínimo inadequadas de seus atletas. É algo que ocorreu e neste intervalo para a Copa do Mundo Zico, nosso Diretor Executivo, empreendeu uma série de medidas a fim de colocar as coisas em seus devidos lugares. Teremos um time mais fraco em um primeiro momento, mas nos poupará o dissabor de ver a imagem do clube desgastada pela presença nas páginas policiais dos jornais e da televisão. Sem contar as mudanças que vem sendo executadas nas divisões de base rubro negras, que irão gerar frutos mais tarde.

Complementando, espero que a Olympikus faça algum tipo de “recall” nas camisas vendidas com o nome dele. Até porque nós consumidores não tínhamos a opção de comprar as camisas de goleiro sem nome ou com o seu próprio, somente com o do jogador em questão. Tanto que minhas camisas da Olk que não de goleiro possuem todas o meu nome nas costas da camisa, como se pode ver abaixo em um dos exemplares de 2009 que possuo. Aliás, minto: tenho uma Olk sem patrocínio utilizada em jogo no início deste ano com o nome do Adriano nas costas, mas esta não foi vendida em loja.

Como coleciono camisas de goleiro, tenho nada menos que sete camisas – nas quais, provisoriamente, coloquei esparadrapos sobre nome e assinatura para poder utilizá-las. Espero que mantendo a tradição de bom relacionamento com o consumidor a fornecedora rubro-negra possa engendrar algum tipo de solução.

No mais, só me resta lamentar os fatos e deixar para reflexão o excelente texto do jornalista Marco Aurélio Mello – publicado em seu excelente “DoLadoDeLá” – sobre os excessos da imprensa na cobertura do caso e dos próprios policiais encarregados:

“A cena era patética. O goleiro do Flamengo Bruno se entregava à polícia e era recebido na porta de uma delegacia por uma horda de jornalistas famintos por sangue. Foi insultado e por pouco não foi linchado pelo caminho. Só não foi porque estava escoltado por agentes da polícia. Oras, por que o goleiro foi recebido na porta e não de maneira mais discreta e civilizadamente? Porque, assim como nós jornalistas, os policiais também anseiam pelo espetáculo de exibicionismo cruel. Já sei, todos vão dizer que foi um crime bárbaro e que ele tem que pagar caro. E por essa razão, é preciso que o mandante seja tratado barbaramente também? Por que somos incapazes de respeitar a presunção de inocência, durante as investigações? E por que somos incapazes de cumprir a lei, que dá ao réu o direito de ampla defesa? Mas o que é pior, na minha opinião, é a nossa reação de admiração e espanto, mesmo sabendo que somos nós os responsáveis pelo circo da notícia, que eleva a temperatura social quase à ebulição. São amplas e infindáveis coberturas, repletas de detalhes macabros e circunstâncias horrendas. Ok, damos ao telespectador o que ele quer. Basta ver os índices de audiência. Será? Vou além. Este tipo de comoção revela o estágio de evolução da nossa sociedade. Somos todos um corpo só, que sofremos as dores, ora nos outros que estão na tela, ora em nós mesmos, em nosso silêncio e omissão.”

8 Replies to “O Caso Bruno – Uma reflexão mais profunda”

  1. Perfeito seus comentários Migão…penso exatamente igual sobre este mercado de carne em que se transformou o futebol. Quanto mais o sujeito for ignorante melhor para o empresário, que assim o ludibria melhor. Daí, talvez, a opção por jogadores cada vez mais ignorantes.

    Quanto ao texto do Marco Mello no final, discordo, pq a população precisa de fazer a catarse em algum momento de caso tão escabroso.

  2. Obrigado Migão. Henrin, tenho uma convicção Cristã: todos somos parte do mesmo corpo, velho. A sociedade é uma só. Portanto, a dor de um é sim a dor de todos.

  3. Não adianta tentar por panos quentes, tentar suavizar…
    A instituição Flamengo foi atingida fortemente com a sucessão de notícias nas páginas policiais:
    Adriano ameaçando amarrar a “noiva” em árvore na Chatuba…
    Love com proteção dos fuzis dos marginais traficantes…
    E o goleiro sequestrador…

    Não tem explicação, não tem perdão e o Flamengo foi atingido, SIM.

  4. Alípio, é óbvio que a imagem do Flamengo foi atingida. Mas temos de ter muito cuidado em generalizações do tipo “todo rubro negro é marginal”, como ouvi estes dias. O velho preconceito contra a origem social de nossa torcida.

    Marco, só quem tem a agradecer sou eu, forte abraço.

    Henrin, não sei se é exatamente isso, ainda mais quando temos “Ratzingeres” e assemelhados na chefia de jornalismo da grande imprensa.

  5. minha opinião não leva em consideração a violencia do caso em si, e nem a cndição da vitima

    eu acho a tal moça BURRA, no sentido literal da palavra…

    vamos aos fatos… pra esclarecer melhor

    1- ela tinha um relacionamento com o bruno e engravidou

    2- o bruno meteu a porrada nela pra tentar convence-la a fazer um aborto, que ela nao fez

    3- ela prestou queixa na delegacia, registrou ocorrencia, obteve aquele mandato de restrição contra ele, que não podia chegar a xxx metros de distancia dela

    4- ela falou sobre a violencia sofrida na TV, radio, jornal, internet e a porra toda

    daí, sem mais nem menos o bruno liga pra ela, manda ela encontra-lo sabe-se lá aonde, dizendo sabe-se lá o q e a sujeita, uma topeira completa, vai ao encontro do cara sem a companhia do advogado… ora, se ela já havia sofrido ameaça, se ela já havia sido agredida, se ela já havia aberto processo contra ele, PORQUE MEU DEUS, esta cidadã saiu da casa dela, junto com o filho de 4 meses para encontrar o cara a quem ela acusava de violencia ?????????????????????????

    eu não consigo acreditar na hipotese da burronilda ter acreditado que o bruno tinha ficado uma pessoa boazinha… eu não consigo conceber o fato de alguem se permitir esse tipo de agressao…

    fala sério, é ou não burra pra caralho ????

    enfim é isso… minha opiniao… (fora a opinião que eu tenho de q o bruno é um animal, psicopata, e não estou defendendo-o de forma alguma)

  6. Sem dúvida Drica, a moça foi no mínimo imprudente. Foi a primeira coisa em que pensei quando soube da história.

    O que, óbvio, não tira a culpa do goleiro rubro negro.

Comments are closed.