Quando eu digo que o Brasil não é moleza, não estou de sacanagem. Ontem mesmo recebi uma infirmação fabulosa de um camarada da curimba: o cacique Mário Juruna – um índio eleito deputado federal nos anos oitenta- virou entidade e está baixando em um terreiro de Umbanda em São João de Meriti. Assim que Juruna baixa no cavalo, o cambono corre para pegar um gravador portátil e entregar ao bugre. O caboclo passa a gira inteira dando passes, falando cobras e lagartos dos homens brancos e gravando a curimba.

Eu conheci uma senhora do santo, e minha Tia Nadja – leitora desse espaço – é testemunha, que trabalhava em rodas de encantaria com o Curupira. Maria dos Anjos, era esse o seu nome, não só incorporava o encantado das matas como também recebia a princesa Toia Jarina, tremenda entidade da guma brasileira [ o ponto de Dona Jarina, aliás, é lindíssimo: Jarina é flor, é flor do mar / ela é flor de laranjeira / é flor do mar…] . É, meus velhos, eu vi Jarina dançar e o caboclinho das matas pular serelepe numa roda de encantados. É mole, o Brasil ?
Outro dia mesmo me lembrei da Dos Anjos. É que ando clamando pela participação do Curupira nas próximas eleições. O Curupira está fazendo falta no atual e decisivo momento político brasileiro. Explico, antes que os camaradas achem que endoidei de vez.
O Curupira é matreiro. Gosta de pinga e fumo e costuma iludir os caçadores que entram na floresta e esquecem de lhe oferecer agrados. Quem entra na mata sem agradar ao Curupira termina mais perdido do que cego em tiroteio. É também o protetor de todas as árvores das florestas. Diz o nosso Câmara Cascudo que, quando arma-se alguma tempestade, o caboclinho verifica árvore por árvore, percute-lhes o tronco e as sapopemas, para saber se resistirão aos tormentos do temporal. No Alto Amazonas, bate com o calcanhar ; no rio Tapajós, bate com o machado feito de casco de jabuti; no Baixo Amazonas, bate com o pênis imenso!
Se eu fosse candidato a governador do meu Estado – e as opções esse ano são terríveis – prometeria  enviar funcionários da Secretaria de Meio Ambiente às matas profundas. A ideia é simples. De vez em quando uns temporais bíblicos, do estilo Noé, traz a arca, castigam o Rio de Janeiro. Árvores imensas, centenárias, vão ao chão. Os funcionários, instruídos pelo Curupira, saberiam exatamente como proteger as árvores mais vulneráveis. Correríamos, é verdade, o risco de ver um bando de machos batendo com as picas nos troncos das árvores, o que causaria comoção e histeria nas tradicionais famílias tijucanas. Mas, vá lá, é o preço da preservação.
Ou podemos, por outro lado, fazer o pacote completo e mandar um Índio do Rio de Janeiro para o Baixo Amazonas, para conversar com o encantado da floresta. Pensei em Índio da Costa, o Sancho Pança do candidato Zé Serra. Como o vice Índio entende tanto de cultura brasileira como eu entendo de física quântica – necas de pitibiribas –  certamente esquecerá de levar fumo e pinga para agradar ao Curupira. Enganado por um enfurecido ente fabuloso , Índio irá se perder para todo o sempre nas imensidões amazônicas. Eu apoio.
Pensei, inclusive, em um final perfeito, mais que desejado, para esse projeto. Imaginem a ameaça de um temporal arrasador nos confins da mata. O Curupira, de pau duro, sai batendo com a assombrosa jeba nas árvores para verificar se elas  resistirão. Nesse instante o Silvícola do Litoral, o vice do vampiro, está, desavisado e perdidinho da silva, bancando a estátua ao lado de uma sapopema gigantesca. O encantado vem chegando, com o báculo episcopal em ponto de bala…

Erra o alvo, Curupira, erra…

Abraços

2 Replies to “O CURUPIRA E AS ELEIÇÕES DE 2011”

  1. LULA
    Além de Toia Jarina e Curupira Dos Anjos trabalhava também com Barão de Gore, são muitas as lembranças, o espaço e pequeno para as toadas e relembrar os fatos da Encantaria.
    “Na Praia do Lençol onde Jarina mora, fora de hora criança chora…”
    Beijos, saudades da Encantaria hoje quase não tem mais, pelo menos aqui no Rio.

  2. Amigo Lula (permita-me chama-lo assim).
    Conheci teu blog hoje através de um link postado no Facebook pelo Marcelo Moutinho… como não o conhecia ainda? Perdi muito tempo, mas prometo recuperar.
    Seu texto é simplesmente genial.
    Parabéns. Mais um fã!
    Abraço. TOMÉ.

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