Nosso “Samba de Terça” de hoje não enfoca um samba inesquecível ou que tenha sido um desfile daqueles de nunca se olvidar. Entretanto, é um exemplo acabado das transformações que os desfiles sofreram e do quão prejudiciais podem ser estas transformações.
O ano é 2005. A Caprichosos de Pilares, escola conhecida pela irreverência em seus enredos e sambas, viria com um samba sobre a reciclagem. Aliás, este é um tema que volta e meia aparece em escolas de grupos menores por ter fácil execução, mas seria a primeira vez em que passaria no Grupo Especial.
Entretanto, em meados de setembro devido a uma decisão judicial a escola realiza novas eleições para a Presidência. Paulo de Almeida foi eleito com 25 votos, contra 10 de seu adversário – o então Presidente Alberto Leandro. Estes números, a propósito, mostram bem como é fechado o núcleo de decisões em uma grande escola: apenas quarenta pessoas tinham direito a voto naquela ocasião.
Ao assumir a escola, o novo presidente solicitou à Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba) que fosse trocado o enredo. O carnavalesco Cahê Rodrigues foi demitido e substituído por Chico Spinoza; bem como o puxador Jackson Martins, assassinado em circunstâncias até hoje mal explicadas em agosto daquele ano, por Serginho do Porto.
O enredo proposto para 2005 em substituição à reciclagem foi “Carnaval, Doce Ilusão. A Gente se Vê Aqui no Meio da Multidão: 20 Anos de Liga”, que homenageava os 20 anos da Liga Independente das Escolas de Samba completados no ano anterior.
A proposta era relembrar grandes carnavais do período administrado pela Liesa, bem como bons momentos da história recente da história. Nas palavras da sinopse:
Sinopse:
“Carnaval doce ilusão / Dê-me um pouco de magia / de perfume e fantasia e também de sedução / quero sentir nas asas do infinito / minha imaginação…” A Caprichosos de Pilares pede licença ao poeta Silas de Oliveira e usa seus versos imortais como base de inspiração para o seu carnaval de 2005.

Há 21 anos, era criado um palco fixo para a realização do carnaval carioca: o Sambódromo. Um ano depois, um grupo de sambistas fundava a Liga Independente das Escolas de Samba. A intenção desses visionários era criar uma entidade que lutasse pelos direitos das Escolas de Samba.

A iniciativa deu certo e, ao longo de 20 anos, o que podemos acompanhar foi um crescimento forte do maior espetáculo audiovisual do planeta. As escolas desfilam por esse imenso palco de ilusões, disputando, quesito a quesito, o lugar mais alto do pódio. O carnaval tornou-se um verdadeiro jogo de xadrez, no qual a agremiação que for mais inteligente e que melhor movimentar suas peças leva o troféu. Não importa se ela é pequena ou grande, mas sim como se prepara para o jogo.

O povo, que nessa folia vive a magia de esconder atrás das máscaras as amarguras do dia-a-dia, muitas vezes não tem condições de brincar nesse palco, então se espalha pela concentração e tenta acompanhar os desfiles da margem do Mangue, do alto do viaduto ou espremido nas barracas, através de televisores. A televisão, com sua força e poder, tornou-se o vínculo de aproximação entre as comunidades carentes e suas agremiações.

Esse povo, que ano após ano se encontra no carnaval, que revive nas fantasias reis e rainhas, personagens históricos e imaginários, que unidos nas arquibancadas são muitas vezes responsáveis pelo verdadeiro sucesso de algumas agremiações, criou musas e mitos. Diversos anônimos entraram na passarela e tornaram-se figuras reconhecidas e populares. A Caprichosos tem a honra de ter posto pela primeira vez na passarela uma modelo que, 18 anos após, seria considerada a maior musa que já existiu na história da Passarela do Samba. Luma de Oliveira pisava na Sapucaí pela primeira vez no carnaval de 1987, fazendo top less, à frente dos ritmistas da Caprichosos de Pilares.

Um dos mais fortes mitos é o “gênio da criação”, Joãozinho Trinta. O mago maranhense encanta o público e faz delirar a todos que acompanham seus trabalhos. Ele se encontrou com o povo e fez das paixões desse povo sua principal fonte de enredos. Com “O Mundo é uma Bola” propôs na avenida uma verdadeira pelada nacional. A Beija-Flor jogou debaixo de um forte temporal, e mesmo assim sobrou na avenida, dando um banho de samba em 86.

Sua aclamação veio três anos depois. Em 1989 com o desfile do Luxo e do Lixo se encontrou de vez com o povo que sempre defendeu. Num momento de humildade, vestiu-se de gari e brincou o carnaval como um simples folião.

A Caprichosos, ao longo da sua trajetória, marcou o público com seus desfiles polêmicos e criativos, recheados de irreverência. Foram personagens e histórias que para sempre ficarão na história do carnaval. Como esquecermos da Cabrocha Lilli, da luta entre o Canariquito e o Sandrácula, dos políticos corruptos que sempre criticamos ou de pivete de 1993, manchete de todos os jornais. Foram temas do povo cantados pelo povo.

Nesses 20 anos de Liga, o que se pôde perceber foi uma fusão entre escolas de samba e o seu público. A Sapucaí balançou com desfiles empolgantes como o Ita do Salgueiro em 93, a Paulicéia da Estácio em 92, o Bi da Mocidade em 90 e 91, a Kizomba de Vila Isabel em 88 e, num momento de ápice, o povo desceu as escadarias para acompanhar de perto o Braguinha da Mangueira em 84.

O público fez a sua parte e as agremiações também. O desfile ganhou ares de técnica e perfeição. Uma figura polêmica, porém muito divertida, surgiu tornando-se a maior campeã da passarela do samba – Rosa Magalhães. Com seus desfiles tecnicamente perfeitos, a carnavalesca tornou-se a pessoa mais discutida dessa festa. Quando surgiu no Salgueiro, através das mãos de Pamplona e Arlindo, a carnavalesca não previa o que a aguardava.

Rosa é como um bom vinho ou wisky, com o passar dos anos vai ficando melhor. Sua Catarina de Médicis, com os leques e luxo barroco, marcaram para sempre o palco das ilusões.

Nesta noite de esplendor, a Caprichosos debocha de tudo, resgata sua essência, sua veia crônica e traz de presente para a Liga um pouco da história desse que mistura realismo e imaginário nos últimos 20 anos. Venham conosco, vistam suas fantasias, sejam o que quiser. Vamos nos encontrar mais uma vez e juntos celebrar nesse arrastão da ilusão.

Chico Spinoza

“Um samba pra brincar”
Autor: Chico Spinoza
Parceria: Grandes Compositores da Passarela do Samba

Vou vivendo o dia-dia
Embalado na folia
Do meu carnaval
Um jeito novo
De fazer meu povo delirar
Sou da vida um mendigo
Da folia eu sou Rei
Vem menininha pra dançar o cachambu

Moça bonita aqui não paga
Pisa na casca de banana e escorrega
Aqui não paga, mas também não leva

Me dê, Me dá, Me dá, Me dê
Onde você for eu vou com você
Ajoelhou tem que rezar
Quem comeu. Comeu
Quem não comeu, não come mais

Bota, bota, bota fogo nisso
A virgindade já virou sumiço”

Com o curtíssimo tempo para a disputa de samba enredo – o final de outubro é o prazo limite para a escolha das composições, devido aos prazos de produção do CD anual – a opção foi dividir os componentes da Ala de Compositores da escola em três parcerias e resumir o concurso à final, com uma única apresentação. 
Também foi decidido que todos os compositores da ala dividiriam os direitos autorais daquele ano – um valor que gira em torno de R$ 200 mil – entre si, independente do samba que fosse escolhido.
O samba escolhido retornava à tradição da escola de sambas irreverentes e críticos, que havia feito a fama da escola na década de oitenta e progressivamente abandonada nos anos seguintes, em busca de se adaptar aos “novos e empresariais tempos” do carnaval.
Pois é.
É normal um samba vencedor sofrer pequenas alterações de letra – e, mais raramente, de melodia – a fim de se adaptar às necessidades de desfile ou do canto e da dança dos componentes. É algo corriqueiro e algumas vezes necessário, ainda mais neste modelo anômalo de escolha onde muitas vezes vence a parceria mais rica ou poderosa na escola, e não a que fez a melhor composição.
Só que o samba em questão foi totalmente modificado a fim de torná-lo “politicamente correto”. Mais da metade dos versos foi alterada e passagens inteiras do samba tiveram seu sentido completamente invertido. O que era uma engraçada crítica se tornou um pastiche, com uma letra igual a de milhares de sambas a atenderem exigências de patrocinadores e que são esquecidos imediatamente após o Desfile das Campeãs.
Para o leitor ter uma idéia, publico abaixo a letra original do samba e o que foi para a avenida após as modificações:
Samba Concorrente:

Autores: J.L. Froes, Danoninho, Edmar, Jorge 101, Fernando Lima, R. França e Lee Santana

“Hoje é Carnaval, vem se encontrar
Chegou a hora
Vamos recordar e ver também
Bumbum de fora
No me dê, me dá
Caprichosos brinca com você
Ajoelhou, tem que rezar
Olha aí, tem tititi
De novo na Sapucaí
Eu ouvi alguém gritar:
Bota fogo nisso
A virgindade já levou sumiço

Pisa na casca de banana e escorrega
Mulher linda não paga, mas também não leva
Olha o bumbum paticumbum prugurundum emocionou
Nessa kizomba, viu, nada mudou

Carnaval sedução, palco de ilusão
Vista sua fantasia
Povo e liga se abraçam, 20 anos se passam
Meu samba caiu na folia
A grana que a vovó guardou no colchão
Comprou a taça do ladrão
Parabéns, palmas para os sambistas
Carnavalescos, artistas
Sem vocês não tem show
Não vai dar pra terminar
Esse samba de primeira
Um pivete bateu minha carteira

É Carnaval, tudo é muita doideira
Mulata, cachaça e samba a noite inteira
Vem cá, meu bem, me dê seu coração
A sua bolsa, o relógio e o cordão”

Samba Oficial, após as alterações:
“Hoje é carnaval
Vem se encontrar, chegou a hora
Vamos recordar e ver também bumbum de fora
No ‘me dê, me dá’
Caprichosos brinca com você
Ajoelhou tem que rezar, olha aí tem ti-ti-ti
De novo na Sapucaí
Eu ouvi alguém gritar: bota fogo nisso
A virgindade já levou sumiço.

Pisa na casca de banana e escorrega
Moça bonita aqui também não leva
Bumbum paticumbum prugurundum nos avisou
Nessa kizomba, viu, tudo mudou

Carnaval, sedução, palco de ilusão
Vista sua fantasia,
Povo e Liga se abraçam, 20 anos se passam
O Ita foi só alegria
A Rosa que desabrochou campeã
Numa explosão de amor ! ( Parabéns )
Parabéns, palmas para os sambistas
Carnavalescos, artistas, sem vocês não tem show
Não vai dar pra terminar, eu “tava” de bobeira
Um pivete bateu minha carteira

É carnaval, tem samba a noite inteira
Mulata, cachaça e muita zoeira
Vem cá meu bem, me dê seu coração
E não a bolsa, o relógio e o cordão”

Como percebem, os dois refrões tiveram seu sentido alterado – um alertava sobre os rumos do carnaval e o outro, a violência na cidade – e diversos versos também sofreram modificações a fim de tornar a composição “politicamente correta”.
As duas partes do samba sofreram mudanças em praticamente todos os versos. Não é exagero dizer que é um outro samba, embora a melodia tenha se mantido intacta.
E somente ficou a referência ao pivete por lembrar um episódio polêmico da história da escola – no ano do enredo sobre o subúrbio, o abre alas representava um assalto na Zona Sul da cidade. A idéia era mostrar que o subúrbio era a terra da tranquilidade no Rio de Janeiro. “Coincidentemente”, a escola foi rebaixada, mas vieram à tona gravações telefônicas indicando manipulação de jurados e o descenso foi anulado.
É um bom exemplo da progressiva pasteurização dos sambas, aprisionados em disputas onde quase sempre vence o mais rico ou o mais poderoso, em enredos que muitas vezes não passam de panfletos publicitários ou “jabás” e no equivocado direcionamento ao turista dado pela Liesa – que, com a omissão do poder Público e seu poder fiscalizador é a virtual dona da festa.
Aqueles que tentam fugir a este padrão – que está matando os desfiles, a meu ver – são imediatamente “podados”, ou na disputa ou em um caso extremo como este. O samba foi mutilado.
A Caprichosos foi a segunda escola a desfilar na segunda feira de carnaval, 07 de fevereiro de 2005. Em que pese o prazo extremamente curto para a confecção do desfile, fantasias e alegorias, embora simples, contaram o enredo a contento.
Ressalte-se que, no final das contas, o desfile acabou se transformando em uma louvação aos donos do poder carnavalesco, a Liesa. Não é culpa da escola, mas é o modelo patrimonialista de poder que o nosso carnaval vive até hoje. Moderno em alguns aspectos, na Idade da Pedra em outros.
No fim das contas a escola obteve 386,3 pontos e, com o décimo primeiro lugar, alcançou o seu objetivo: não ser rebaixada. Nem poderia, em um ano onde a Portela fez o pior desfile de sua história – qualquer dia conto esta história aqui – e a Tradição conseguiu ser ainda pior.
No início do texto há o vídeo com um trecho do desfile, e aqui você pode baixar o samba em sua versão ao vivo.

3 Replies to “Samba de Terça: "Carnaval, Doce Ilusão. A Gente se Vê Aqui no Meio da Multidão: 20 Anos de Liga"”

  1. Na verdade, se não me engano, o intérprete era o Anderson Paz. Aí o Presidente novo assumiu, e trouxe o Serginho do Porto.

    E foi cogitado na época reeditar “Como era verde o meu Xingu”, no enredo sobre reciclagem.

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