Como comentei de passagem no post anterior, vivi uma situação kafkiana na manhã de ontem e que deixou clara a ineficiência do transporte público em nossa cidade.

Eu precisei deixar meu carro para fazer a revisão obrigatória dos 15 mil quilômetros e aproveitei-me de que estaria fora do Rio segunda e terça a trabalho para fazê-la com o mínimo de transtorno possível à minha rotina. Só que precisou ser feito um serviço no ar condicionado e – voilá! – me vi sem carro para trabalhar ontem.

Bom, saí de casa mais cedo já sabendo a complicação que é depender de transporte público na Ilha do Governador. Cheguei ao ponto, em frente à confeitaria Majestosa, por volta de 06h40 e me preparei para pegar o “frescão”, da empresa Ideal – acima – ou mesmo uma van. Ambos não podem carregar passageiros em pé.

Começaram a passar um, dois, três carros, sempre lotados. O único que tinha um lugar disponível eu caí na asneira de deixar uma senhora entrar primeiro e, para meu azar, era o único lugar. Ainda que tendo chegado antes, ela não me cedeu a vez novamente. Parêntese: é espantoso como o Rio de Janeiro está se tornando uma cidade mal educada e egoísta. Pano rápido.

Quatro, cinco, seis… o tempo passando e todos os ônibus ou as raras vans vinham lotadas. Por volta das oito da manhã, uma hora e vinte depois de ter chegado ao ponto, comecei a fazer sinal para táxis, também raros. Quando os motoristas descobriam o destino da corrida, desistiam – recebi umas sete ou oito negativas. Uma mocinha que tinha uma entrevista de emprego no Centro, às nove, desistiu e foi para casa. Outros resolveram ir para Bonsucesso ou alternativas equivalentes.

Somente às nove e quinze, duas horas e trinta e cinco minutos depois de chegar ao ponto é que, no décimo quarto carro, haviam lugares e pude me transportar para o trabalho – onde cheguei extremamente atrasado e não tive como evitar a tradicional bronca por causa disso, não sem razão. Obviamente, estava de péssimo humor. Ainda tive de ouvir o motorista falando que “naquele ponto onde você pegou, até no máximo seis e quinze você consegue pegar o ônibus, depois só bem mais tarde.” Ou seja, o cliente que se vire.

A situação que vivi demonstra bem o quadro dos transportes públicos na Ilha do Governador e, em menor gravidade, na cidade do Rio de Janeiro. A Ilha possui apenas duas empresas, a Ideal e a Paranapuã, que dominam em situação de monopólio o transporte do bairro. Não há trem nem metrô e a precariedade do sistema é suprida, em parte, por vans e kombis. Até porque as linhas de ônibus são extremamente escassas, poucos ônibus, velhos e mal conservados – as baratas nos coletivos da Paranapuã já se tornaram históricas.

O leitor deve estar se perguntando como esta situação perdura se as linhas de ônibus do Rio de Janeiro são concessões municipais. Pois é, explico.

Há bastante tempo que se vem falando em uma nova licitação para a concessão e racionalização de linhas de ônibus na cidade. A idéia original era diminuir a oferta excessiva na Zona Sul e aumentar em áreas como a Zona Oeste e a Ilha do Governador, bem como permitir a entrada de novas empresas no mercado. E o que aconteceu ?

No último mês de agosto finalmente a “licitação” foi realizada. As empresas que já operam os ônibus se uniram em quatro consórcios – cada um para uma das áreas a serem licitadas – e arrematou todas as linhas. Ou seja, tudo continua como antes, com apenas a diferença de que aumentou o preço das passagens e a pintura dos coletivos será padronizada. Empresas como a Supervia, que administra os trens urbanos, o Metrô e grupos argentinos tentaram impugnar a licitação na Justiça, alegando que o tempo reduzido da mesma beneficiaria as atuais detentoras das concessões – o que se confirmou.

Tendo em vista as evidências, o Ministério Público do Rio de Janeiro abriu um inquérito a fim de verificar possíveis irregularidades não somente na licitação como em eventuais artifícios utilizados por empresas com problemas fiscais para poder participar dos consórcios – como a utilização de “laranjas” e assmelhados.

Não custa lembrar que as empresas de ônibus cariocas são talvez o grupo mais forte de lobby na municipalidade carioca. São grandes contribuintes nas eleições e possuem um grupo de vereadores bastante articulado em defesa de seus interesses.Não me parece coincidência a estagnação do serviço de trens urbanos e o alcance extremamente restrito do Metrô. E se começa a entender o excesso de carros nas cidade, causando engarrafamentos cada vez maiores: o sistema de transportes não funciona.

Dá até raiva ir a uma cidade como Curitiba, onde estive em junho, e ver que o trânsito não tem retenções porque o sistema de transporte coletivo funciona. Mesmo parando diversas vezes para pegar funcionários, o ônibus que me levava do hotel no Batel até a refinaria, em Araucária – uns trinta e cinco quilômetros – não levava mais que 45 minutos. Eu levo isso, de carro, entre a Ilha e o Centro, em um dia sem grandes retenções – um percurso que com o trânsito livre levaria uns 25 minutos, no máximo.

Aí se entende porque tem tanto carro com apenas um ocupante nas ruas cariocas. Para quem mora na Ilha do Governador, é necessidade, não luxo – como aprendi da pior forma possível ontem.

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