Outro ponto importante são as conversas com o ex-candidato à Presidência José Serra e o compromisso deste de priorizar as empresas americanas de petróleo na exploração desta nova fronteira petrolífera, bem como retomar o modelo de concessão de áreas exploratórias. Aqui eu escrevi o porquê deste modelo ser inadequado para a produção da camada pré-sal. Embora os documentos divulgados não tragam isto explicitamente, pelos trechos divulgados fica claro que o trabalho de desmonte da empresa brasileira de petróleo seria reiniciado em um eventual Governo José Serra, tal como estabelecido entre 1995 e 2001.
O leitor mais antigo do Ouro de Tolo, bem como meus seguidores no Twitter sabem que me bati arduamente na defesa do petróleo em mãos nacionais e de uma Petrobras forte, como operadora do pré sal e instrumento de geopolítica energética. As análises que empreendi no período pré eleitoral caminhavam no sentido agora revelado por estes documentos, que o que estava em jogo nas eleições presidenciais era o controle geopolítico desta fonte de energia. De certa forma, a questão do petróleo foi algo determinante em minha disposição de entrar na arena eleitoral e buscar conquistar alguns votos além do meu à candidata do PT, posteriormente eleita.
Ao contrário de uns e outros, não omito que sou parte diretamente interessada na questão: teoricamente, uma Petrobras forte é particularmente interessante para mim. Ponto.
Os documentos mostram toda a pressão que representantes de empresas estrangeiras fazem junto à Embaixada americana e ao PSDB no sentido de se organizar uma estratégia de lobby no Senado – onde o Governo Lula não tinha maioria e a Presidente eleita Dilma Roussef terá – a fim de barrar a aprovação de nova lei. Percebe-se uma irritação frequente de representantes de empresas estrangeiras – em especial Exxon e Chevron (no Brasil, Texaco) com o que seria uma “inação” da oposição brasileira em combater o novo marco regulatório.
Outra preocupação demonstrada era o avanço das petroleiras chinesas, estatais, na competição pela exploração do pré-sal. A avaliação era de que estas poderiam oferecer uma maior rentabilidade ao governo brasileiro, o que não deixa de ser uma curiosa constatação de que eles mesmos se achavam menos eficientes em comparação à Sinopec, à Cnooc e à PetroChina.
Algo que transparece de forma nítida no material divulgado é como uma Petrobras forte causa receios nos representantes de empresas americanas. O fato de a empresa também controlar as compras de equipamentos e materiais é visto com preocupação, haja visto que sem as petroleiras o mercado cativo para as fornecedoras amercicanas também se perderia.
Que fique claro ao leitor: petróleo é geopolítico, não é uma “commodity” pura e simples. No mundo todo o domínio do petróleo ou é estatal, ou está nas mãos de americanos mais Shell e British Petroleum (BP). Não custa lembrar que as empresas chinesas são estatais e as russas que oficialmente não são na prática é como se fossem – e as duas maiores são estatais plenas.
Isso se torna mais importante ainda ao se perceber que não existem grandes novas fronteiras de descobertas petrolíferas mundiais, e o pré sal brasileiro é a “jóia da coroa”. Ainda hoje os países árabes, instáveis politicamente, dominam boa parte da produção, e seria extremamente interessante ao governo dos Estados Unidos um suprimento dominado em um país sem grandes problemas políticos como o nosso. Basta lembrar que boa parte do petróleo importado dos EUA vem da Venezuela.
Ressalte-se, também, a preocupação destes grupos de não atiçar o “sentimento nacionalista” da sociedade brasileira. E, paralelamente, a disposição entreguista de setores oposicionistas. Vale lembrar que a recente capitalização da Cia dará todas as condições à Petrobras de executar o plano de investimentos necessário a tal tarefa.
Finalizando, ontem a Petrobras concluiu a recompra da Refap, Refinaria Alberto Pasqualini, no Rio Grande do Sul (foto abaixo). Em 2001 o Governo FHC entregou 30% dela à Repsol, percentual agora recomprado. É uma mostra interessante do fortalecimento da empresa nacional e do tratamento do petróleo como algo estratégico.
E não deixa de ser auspicioso ver que todas as análises de cenários que empreendi sobre o tema estavam absolutamente corretas. Não sou de me vangloriar mas não deixa de ser reconfortante saber disso, deixando claro que não tenho conhecimento de nenhuma informação que o grande público não tenha e que explano meus posicionamentos, sem falar pela companhia em que trabalho.
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A gente sempre imagina algo por trás das negociações e tal, mas tomar pé do que realmente envolve essas coisas dá um susto.
Quando você fala, por exemplo, de os estrangeiros não quererem despertar o sentimento nacionalista brasileiro, eu fico pensando em quantas outras coisas nós perdemos por não prestarmos atenção no que temos. Dói!
Se bem que, no caso em questão, bastava acompanhar o noticiário em diversas fontes para se perceber o que está por trás desta história.
grande abraço !