Nesta terça feira, retomaremos o tema da coluna anterior e trazemos um carnaval que é declaradamente inspirado no “Tupinicópolis” que mostramos aqui.
A Renascer de Jacarepaguá é uma escola nova, fundada em 1992. Entretanto, suas raízes são antigas, derivadas do antigo bloco “Bafo do Bode”, fundado em 1959 – e do qual herdou a quadra, que fica no Tanque, um dos sub-bairros de Jacarepaguá.
A escola oscilou nos grupos inferiores até a chegada do Presidente, patrono e mecenas Antônio Carlos Salomão, consagrado presidente da escola. Em 2005 a escola chegou ao Acesso A, segunda divisão das escolas de samba, e por lá se mantém, crescendo ano a ano em seu desempenho e sua estrutura.
Para 2010, a escola esperava dar mais um salto de qualidade após o surpreendente vice campeonato do ano anterior. Para isso a escola trouxe nada menos que o carnavalesco Paulo Barros, que revolucionara os desfiles nos anos anteriores; e a grande promessa Wagner Gonçalves, com bons trabalhos na Inocentes e posteriormente na Cubango – com um belo enredo sobre a bailarina Mercedes Batista.
Barros e Wagner propuseram um enredo que era uma homenagem e uma referência a Fernando Pinto e “Tupinicópolis”: uma cidade aquática, no fundo do mar, uma “Atlântida” no carnaval. “Aquaticópolis”.
A sinopse era uma homenagem clara a Fernando Pinto:
“Sinopse
Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará…
…Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente
Viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo
A Renascer de Jacarepaguá lança um novo olhar sobre o espelho d”agua e vislumbra a sua imagem, distorcida e refletida, parodiando uma ficção de impostação fabulística : a lendária Aquaticópolis. Uma Megalópole Aquática, na qual humanóides, em um jogo lúdico, convivem entre os crustáceos, anfíbios, peixes, moluscos, mantendo uma civilização exótica nas profundezas do mar. O bio-acquo-magnetismo desenvolveu brânquias e membrana nos habitantes dessa fantástica cidade, estabelecendo assim uma força capaz de resistir à grande pressão da água.
Tudo em Aquaticópolis é Biofilosofia Aquática e compõe um Coletivo Aquático, uma Metrópole Marinha.
Aquaticópolis é a ilusão da cidade pós-moderna composta por toda a engrenagem marítima. Imponente e fascinante, esta cidade ergue-se entre algas, corais, bolhas, espumas e águas vivas, decorrente de riquezas naturais. Aquaticópolis é uma carnavalização consciente das necessidades de preservação ambiental.

O cotidiano da cidade navega entre o dia e a noite, velejando por entre as obrigações do dever que envolvem a indústria e o comércio (e a informalidade desses setores); a educação, a segurança e a saúde (e principalmente a falta delas), determinando assim todo o planejamento de uma grande metrópole.
A locomoção na aglomerada cidade se dá através do transporte marítimo resultante de um grande desenvolvimento industrial, com bases nos investimentos na infornáutica e tecnologia, gerando a acqualização profissional do cidadão acquaticopolitano. A concentração e dispersão da cidade vão seguindo todo um mar de movimentos fluindo em perfeita harmonia.
Entretanto, uma tormenta provocada pela Ganância e a Ambição das questões políticas dessa espinha social, desencadearam um choque térmico de ordem e desordem entre os valores, criando assim camadas e escamas sociais. Pérolas da Aldeia Marinha, na qual poucos conduzem o remo e muitos se deixam levar pela correnteza. E assim, entre a maresia e a ressaca, a fascinante Aquaticópolis é incapaz de resolver os problemas de poluição e conter ondas de violência, transbordando o caos e o stress.
A noite na cidade é fascinante. Os shows que embalam a Concha Acústica emitem sons de caráter libertário. A iluminação fluorescente, vinda de peixes bioluminescentes, dando brilho e glamour à cidade, impulsionando novas performances náuticas que geram cardumes de possibilidades. Nos Lençóis, a sensualidade é um mix de moda, cultura e entretenimento.
Em Aquaticópolis, a correnteza represada criou uma sociedade naufragada nas mazelas. E assim, nos desprezados escombros, são reconstruídos valores outrora ancorados na memória em que se entrelaçam presente, passado e futuro, formando um verdadeiro divisor de águas. Inovações e invenções que nos dias de folia fazem com que o povo de Aquaticópolis, abençoado pelo Rei dos Mares, dê um original “banho de mar à fantasia” que vai se renovando sempre como uma onda no mar…
Mergulhe nessa fantasia e venha Renascer em Aquaticópolis.
Para Fernando Pinto e Marvel Stan Lee”
A disputa de samba, no entanto, teve alguns percalços. Passo a palavra ao compositor Gabriel Carqueijo, vencedor em 2009, petroleiro e portelense como eu, que esteve lá e pode dar o seu relato:
(por Gabriel Carqueijo)
“O carnaval de 2010 da Renascer de Jacarepaguá foi desenvolvido pelos carnavalescos Paulo Barros e Wagner Gonçalves. No primeiro encontro com os compositores, durante a apresentação do enredo, os carnavalescos deixaram bem claro que tratava-se de uma homenagem ao carnaval de 87 da Mocidade do genial Fernando Pinto.
Simples assim: algo como substituir os índios e as aldeias daquele desfile por seres marinhos e o fundo do mar. Quinze sambas foram inscritos e, após dois meses de disputa, três composições foram para a final. Os mesmos que haviam participado da final no ano anterior.
Nossa parceria (Gabriel da Penha, Leandro Nogueira, Luiz Gustavo, Deco e Igor do Cavaco – campeões em 2009), a parceria de Cláudio Russo, Adriano Cesário, Fabio Costa e Cia. e a parceria de Moisés Santiago, Jayme Cesar e Cia.
O samba da parceria do Moisés seguia uma linha mais animada e irreverente, com um refrão bem popular, ao estilo das últimas composições do Salgueiro, sua escola de origem: “Deixa a água rolar (deixa! deixa!) / Vem que eu sou Renascer (vem ver! Vem ver!) / Aquaticópolis, um mundo de magia / É show, é carnaval, é Alegria!”
O samba de Claudio Russo e parceiros não se prendia tanto ao texto da sinopse. Conseqüentemente, era mais poético. A cabeça do samba era bem bonita: “Nas profundezas desse mar / Aqua-cidade da magia / Meu sonho vai se transformar / Buscando a hidroarmonia / Eu vou… / Ao oceano da minha ilusão / Vai navegando o meu coração / Vencendo a bruma / Na branca espuma / Corais… / Manto bordado num grande portal / Meu acalanto a caminho do cais / Brilha a sereia do meu carnaval”.
Nossa parceria optou por descrever o enredo. Detalhes e a ordem da sinopse foram respeitados por nós. De acordo com a sinopse, o enredo começava com a escola de samba lançando seu olhar para o fundo do mar e avistando essa cidade submersa, onde os seres humanos se adaptaram para ali viver, ganhando brânquias e guelras.
A cidade se desenvolveu, tornando-se uma megalópole marinha. A tecnologia, o transporte… toda a modernidade trazia mais vantagens para a vida ali. A vida noturna também era bastante agitada. Como toda cidade, Aquaticópolis tinha problemas de desigualdade, miséria, pirataria… Mas todos esses problemas eram esquecidos numa única época do ano. Carnaval! O rei dos mares ordenava e os súditos iam festejar!!!
Dessa forma, compusemos o samba levando em conta essa cronologia que destaquei:
“MERGULHEI NO ESPELHO AZUL DO MAR
A FANTASIA REFLETE EM MEU OLHAR
BELEZAS DE UMA CIDADE
ONDE A HUMANIDADE VEIO ENCONTRAR
A HARMONIA COM A NATUREZA
TANTA RIQUEZA PARA DESVENDAR
ASSIM…
AQUATICÓPOLIS EVOLUIU
UMA METRÓPOLE ENTÃO SURGIU
ALÉM DA IMAGINAÇÃO
INOVANDO O DIA-A-DIA A TECNOLOGIA
NAS ÁGUAS, A TRANSFORMAÇÃO
A LUZ DO LUAR VEM PRATEAR
UM SHOW DE ESTRELAS-DO-MAR
TUDO É FESTA… ESPLENDOR!
QUEM DERA CONQUISTAR UM GRANDE AMOR (bis)
AMANHECEU…
OS VENTOS TRAZEM A REALIDADE
PIRATARIA E DESIGUALDADE
BANHADAS PELA AMBIÇÃO
CORRENTES DISPUTAM PODER
O POVO CANSOU DE SOFRER
NADA PRA SOBREVIVER
PORÉM… NUM DIA DE MAGIA
A ONDA DA ALEGRIA INVADE O CORAÇÃO
É CARNAVAL!
UM LINDO CORAL CLAMA A PRESERVAÇÃO
VEM NAVEGAR
NO OCEANO DE EMOÇÃO
RENASCE EM JACAREPAGUÁ
O SONHO DE SER CAMPEÃO”
Aqui o leitor pode ouvir e baixar o samba.
É sempre bastante difícil falar de uma Final quando se perde, mas foi uma final bastante equilibrada, porém com erros da bateria. A Bateria criou uma bossa para ser apresentada no dia da final e que encaixaria nos 3 sambas.
Durante a apresentação do primeiro samba (Moisés e parceiros) e do segundo samba (Gabriel e parceiros), a bateria não encaixou a bossa, atravessaram o samba e as apresentações, pelo menos no início, foram caóticas, apesar da participação ativa das torcidas. Já no terceiro samba (Cláudio e parceiros), a bossa encaixou perfeitamente.
O samba rendeu muito bem no desfile, a bateria fez uma ótima apresentação e a escola veio bem colorida e com uma curiosidade: SEM PLUMAS!
Não fosse o problema ocorrido durante a apresentação da Comissão de Frente, quando um integrante da escola empurrou o tripé utilizado pela comissão, o que não é permitido pelo regulamento, a Renascer de Jacarepaguá teria sido vice-campeã novamente, ficando atrás somente da São Clemente.”
Bom, o Gabriel já contou de certa forma o final da história, mas vamos retroceder e voltar à noite de 13 de fevereiro de 2010, sábado de carnaval. A Renascer seria a sexta escola a desfilar, posição que tinha escolhido por ter sido a vice campeã no ano anterior.
Após uma comissão de frente não muito feliz – e que seria penalizada – a escola começava a passar, trazendo um sopro de criatividade neste marasmo de plumas, índios, egípcios e cidades que vemos no carnaval atualmente. Todos os elementos de uma cidade iam sendo apresentados de forma inusual e muito feliz.
Eu, que estava nas frisas do Setor 3, imediatamente relacionei a Fernando Pinto o que estava vendo, sob alguns protestos, confesso, de amigos mais antigos.
As fantasias em espuma relacionavam a muitos o talentoso – e precocemente falecido vítima do drama da cocaína – Oswaldo Jardim. Era como se os espíritos dos dois carnavalescos estivessem permeando e sendo novamente revividos na avenida. Algumas fantasias, como a da arraia carnavalesca (abaixo), eram sensacionais, inteligentíssimas. O samba, embora não tenha sido espetacular, embalou bem o cortejo da vermelha e branca.
Lembro aos leitores que uma escola sem se utilizar de plumas não necessariamente é uma solução de bom gosto: basta ver o que a Portela fez este ano, onde as fantasias também não tinham plumas, mas eram simplesmente lamentáveis…
Apesar do problema da comissão de frente – alegou-se que outras pessoas que não os integrantes dela empurraram o tripé – na visão de muita gente, inclusive eu, a escola saiu do desfile como uma das grandes favoritas à vitória e a única vaga ao Olimpo do samba, o Grupo Especial. Mas…
Em resultado sobre o qual já protestei aqui outras vezes e que até a minha filha mais velha perceberia que não teve muito a ver com o que se viu naquele sábado de carnaval (acho que o leitor entende o que eu quero dizer) a escola sofreu uma penalização de dois pontos e acabou apenas com o oitavo lugar, com 267,2 pontos.
Sem a perda de pontos a escola seria a vice campeã do carnaval, atrás apenas de um inacreditável “10 de ponta a ponta” da “campeã” São Clemente. Infelizmente todo o mundo do samba sabe o que ocorreu, mas provar é que são elas…
Bom, vamos ao samba, da parceria já citada. Abaixo o leitor pode ouvir a versão ao vivo na avenida dele:
“Nas profundezas desse mar
Aquacidade da magia
Meu sonho vai se transformar
Buscando a hidro harmonia
Eu vou ao oceano da minha ilusão
Vai navegando o meu coração
Vencendo a bruma na branca espuma
Corais, manto bordado no grande portal
Meu acalanto a caminho do cais
Brilha a sereia do meu carnaval
O tempo não para, como uma onda no mar
No espelho d’água, eu hoje vou me acabar
No horizonte de peixes minha paixão
A minha fonte de inspiração
Tormenta social
Corrente da ressaca de ambição
É tão desigual a maré da exclusão
A noite traz um show de cores que fascina
A concha faz um som que treme a marina
Embaixo dos lençóis a sedução
E a comunidade é abençoada
Pelo rei dos mares, assim embalada
Renova seus sonhos, renasce então
Na face de um folião
Sou Renascer de Jacarepaguá
As águas vão rolar, é carnaval
Vem mergulhar nessa alegria
Eu quero ver banho de mar a fantasia”
Abaixo, podemos ver mais um vídeo do excelente desfile da escola. Mas nem tudo foi decepção: Paulo Barros conquistaria seu primeiro título de campeão do carnaval pela Unidos da Tijuca, e com a boa repercussão do desfile da Renascer Wagner Gonçalves transferiu-se para a Estação Primeira de Mangueira.
Nada mal.
(Fotos: Arquivo Pessoal Pedro Migão)
P.S. – O post com a promoção das camisas rubro-negras está aqui embaixo
Escrito por: Pedro Migão em 14 de dezembro de 2010.
Sou Renascer de Jacarepagua ,as Águas vão rolar é Carnaval … a MINHA ONTE DE INSPIRAÇ;AO,, É ICOU ESTRANHO NÃO SERMOS CAMPEÓES,, mais tamos vindo em 2011 , nosso sonho vai se realizar ,