http://www.youtube.com/watch?v=3vOs4Z7RpJw
Nestes tempos de incêndios, desculpas esfarrapadas e “febeapás”, nossa coluna de hoje, excepcionalmente na quinta feira, traz aquela que foi uma das maiores tragédias carnavalescas e que poderia ser, também, uma tragédia em mortos e feridos: Unidos da Viradouro 1992, “E a Magia da Sorte Chegou”.
A vermelha e branca de Niterói durante muitos anos desfilava apenas no carnaval da cidade limítrofe ao Rio de Janeiro, que possuía um desfile bastante forte, embora de nível inferior ao do Rio de Janeiro. Sua grande concorrente era a Acadêmicos do Cubango, cujo samba “Afoxé”, defendido em 1979 no carnaval local e reeditado em 2009 abriu esta série – embora eu pretenda reescrever este texto.
No final da década de 80 a Viradouro, com nova diretoria – capitaneada pelo banqueiro do jogo do bicho José Carlos Monassa – passou a desfilar no carnaval da Cidade Maravilhosa e obteve uma ascensão meteórica: em três anos a escola veio do quarto grupo, então último – hoje são seis – para o Olimpo do samba.
No ano anterior, em sua estréia no Grupo Especial, mesmo abrindo o desfile e ainda de dia a escola obteve um honroso sétimo lugar com um enredo em homenagem à comediante Dercy Gonçalves. Detalhe é que a escola acabou a apuração empatada com a quarta colocada Beija Flor e somente nos critérios de desempate caiu para o sétimo lugar.
Para 1992, a estratégia da diretoria da escola era dar um salto de qualidade e buscar o título do carnaval carioca. O presidente e patrono não mediria esforços – e grana – para levar a vermelho e branco a seu objetivo.
O enredo escolhido pelos carnavalescos Max Lopes e Mauro Quintaes foi “E a Magia da Sorte Chegou”, que visava fazer uma homenagem ao povo cigano contando seus costumes, suas crenças, sua história, as perseguições sofridas pelo povo e a sua luta pela liberdade.
A preparação da escola seguia a todo vapor. O carro que representava a Sibéria e os ciganos russos (ao lado, a réplica feita pela Grande Rio em 2010) era considerado o grande “xodó” dos carnavalescos. A escola se preparava com grandiosidade para o carnaval.
Poucos dias antes do desfile, um dos carnavalescos, Max Lopes, mostrou o barracão a um grupo de ciganos que fora convidado especialmente para este fim. Ao final da visita, um dos líderes do grupo virou para Max Lopes e disse que “estava faltando uma fogueira, que toda festa cigana tem fogueira e que deveria haver alguma representação desta em um dos carros”.
O carnavalesco disse que não iria alterar o projeto e depois da partida do grupo teria feito o seguinte comentário: “eu já estou homenageando os caras, ainda querem se meter no meu trabalho?” A escola ainda teve outros problemas na preparação de seu desfile. A equipe da escola ainda contava com o lendário Mestre Marçal, além de Paulinho de Pilares, no comando da bateria, bem como o puxador Quinzinho, ex-Império Serrano.
A Unidos do Viradouro seria a sétima e penúltima escola a desfilar no domingo de carnaval, 01 de março. Na verdade ela seria a sexta a desfilar, só que a Acadêmicos de Santa Cruz ganhou na justiça o direito de desfilar no Especial aquele ano – faltara luz no ano anterior e ela não foi julgada. Só que a escola da Zona Oeste desfilou às cinco da tarde e, óbvio, foi a última colocada…
A vermelha e branca pisou na avenida com pinta de campeã. Belos carros, o excelente samba muito bem puxado e a escola, embora muito grande, estava compacta. Um grande e marcante desfile. Mas…
Em frente ao Setor 11 o carro das geleiras russas, com os cães, pegou fogo de forma inexplicável até se consumir totalmente. Uma densa fumaça negra subiu pela pista e a escola ficou parada longo tempo até que o fogo consumisse todo o carro, com material inflamável.
O carro, o mais belo do desfile, consumiu-se inteiro. Como podem ver no vídeo acima da extinta TV Manchete, que possui uma boa descrição do fato, o socorro demorou demais – até pelas características do Sambódromo – e se não houve uma grande tragédia foi por pura sorte. A escola ficou parada um bom tempo e com isso acabou estourando o tempo máximo de desfile em 13 minutos, o que representou uma penalização de igual número de pontos na apuração.
Com isso, o sonho do título e até de uma boa colocação estava acabado, desfeito. Pelo menos não houve vítimas.
Na apuração, a escola obteve o total antes da penalização pelo tempo de 294,5 pontos, o que a deixaria incrivelmente ainda na terceira colocação. Lembre o leitor que a escola ficou parada um longo tempo e que isso impacta nos quesitos Evolução e Conjunto. ou seja, caso não houvesse o incêndio provavelmente a escola brigaria de igual para igual com Estácio e Mocidade, as grandes vencedoras daquele ano.
Penalizada, os 281,5 pontos relegaram a escola apenas ao nono lugar. Se o carnavalesco tivesse ouvido os ciganos…
Vamos ao belo e melodioso samba, de autoria de três lendas do carnaval: Gelson (já falecido, autor também do inesquecível “Gosto que Me Enrosco”, da Portela 1995), Flavinho Machado e Heraldo Faria. Aqui você pode baixar a versão original do cd daquele ano.
O samba tem uma frase que é a síntese do povo cigano: “a liberdade é sua religião”.
Vamos à letra:
Brilhou, brilhou, brilhou
Tão cintilante e os magos iluminou
Será o novo sol do amanhã
O arco-íris da aliança que não se apagará
Vem do Oriente com sua arte de criar
Na palma da mão lê a sorte
Com a magia do seu olhar
Chegando ao velho continente
A marca da desilusão
Castigo, degredo, açoite
Porque tanta discriminação ?
A cada passo, a poeira levanta do chão
Ferreiro, feiticeiro, bandoleiro
A liberdade é sua religião
E vem chegando o dono desse chão
No berço, a mão do menino
Abriu-se ao destino, eis a nova Canaã
Ê, ê, cigano, bandeirante em busca de cristais
Canta, dança, representa
Dá vida a nossos laços culturais
Cigano-rei, mineiro iluminado
O mundo não vai esquecer
Plantou no solo brasileiro
A realização do amanhecer
É uma nova era, ô, ô, a magia da sorte chegou
O sol brilhará, surge a estrela guia
E sob a proteção da lua
Canta a Viradouro, que a sorte é sua”
Aproveito para informar aos leitores que a coluna “Samba de Terça” está sendo publicada também no site “Galeria do Samba”, um dos mais prestigiosos do carnaval carioca. Os textos inéditos serão publicados sempre aqui pela manhã e lá na parte da tarde. É um pequeno reconhecimento ao trabalho de resgate da memória do nosso carnaval empreendido nestas linhas.
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Acho essa história muito sinistra. Um desfilaço, sem dúvidas, que colocaria a Viradouro como campeã daquele carnaval… não tenho qualquer dúvida quanto a isso.
O que eu achei mais interessante no teu texto, e eu não sabia, é que a Viradouro havia ficado, em 1991, empatada com a Beija eno desempate a queridinha da Baixada vem pras campeãs e a de Niterói, cai fora e é jogada pra um sétimo lugar…
Carlos,
Na verdade naquele ano quatro escolas empataram em quarto lugar com 290,5 pontos, pela ordem: Beija Flor, Estácio, portela e Viradouro. O desempate foi feito em MS e PB.
E naquela época só iam cinco escolas ao Desfile das Campeãs.
abs
Nem parecia que havia pegado fogo.
Por que estava tão bem deveria ser jugado também
E é nota 10
Choro só de lembrar! Ver tudo isso novamente ainda mexe bastante comigo, torcedor da Viradouro e certamente mexe com os demais torcedores da minha Unidos do Viradouro.
O desfile mais lindo de 1992, que cantava a SORTE… não teve sorte.
Ficou guardado para cinco anos depois.
Que 2013 nos coloque no lugar de onde não deveríamos ter saído. Porém… confesso que a queda valorizou ainda mais o sentimento de ser Viradouro. Só não subimos nos dois últimos anos por fatos que somente a LESGA pode explicar.
Simbooooooooooooooooooora Viradouroooooooooooooo!
Lembro bem do desfile. Teve colegas meus que desfilaram e diziam não saber do que se tratava, na concentração, até ver o carro de bombeiros atravessar a pista de ponta a ponta.
Como o Pedro disse, não morreu ninguém porque não era a hora deles. As condições (e a incompetência da LIESA em não deixar uma equipe de socorro na dispersão) eram “favoráveis” a mandar uma meia-dúzia pro céu.
Mais lamentável ainda foi o Max Lopes falar, após o ocorrido, em “incêndio criminoso”. E quem não lembra da patada que o Capitão Guimarães deu na repórter da Manchete???
Uma curiosidade é que este samba foi proibido pela direção da escola de ser executado na quadra e nos esquentas. Só foi liberada quando do título, em 1997, quando Dominguinhos e Celino Dias cantaram de forma exuberante este samba no Desfile das Campeãs – e levaram meio mundo às lágrimas!!