Excepcionalmente em dia diferente, dadas as minhas férias, temos mais uma edição da coluna “Sobretudo”, assinada pelo publicitário Affonso Romero. O tema de hoje é o livro “O Grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald (foto).
Mini Sobretudo de Férias, Capìtulo 1: Gatsby Globetrotter

Amigo leitor, combinado não fica caro. Escrevo uma série especial da (Mini)Sobretudo direto de Buenos Aires. 

Especificamente, do computador do hotel. O teclado é de matar qualquer um. Além de ter algumas teclas trocadas por contas das esquisitices da língua espanhola, é uma máquina velha que engastalha algumas letras. Fica combinado que este é um esforço de férias, o Migão também está de férias, de modo que nem ele corrige o que eu consegui escrever, nem o nobre leitor reclama de eventuais erros de digitação, acentuação e pontuação, ok?

Como o amigo deve saber, eu leio no trem, enquanto vou de casa para o trabalho. Dia desses, comprei uma edicçã de bolso de O Grande Gatsby (não deveria ser O PEQUENO Gatsby, de bolso?). A obra de F.Scott Fitzgerald é considerada o grande romance norte americano do século XX. Não é por acaso.

A maior curiosidade sobre o livro é que, depois de uma estreia espetacular, o jovem e já famoso Fitzgerald sonhava estar escrevendo sua obra prima enquanto preparava Gatsby. Seu editor reconhecia, nos primeiros originais, um grande romance. No entanto, o lançamento do livro foi um retumbante fracasso. 

Frances Fitzgerald morreu aos 40 e poucos anos, bebendo muito e sem ver Gatsby, sua obra magistral, reconhecida como tal. Ao contrário: ainda estava na primeira edição, praticamente encalhada. E isso, tendo sido um escritor de sucesso, vivido de sua arte e vendido milhares de seus outros títulos. Mas de Gatsby, não. Só depois da morte do autor o romance venceu a resistencia de critica e leitores, até se tornar uma referência acadêmica e uma obra símbolo da literatura americana e do próprio ‘american way of life’.

Eu fiz uma trajetória semelhante ao leitor americano médio do início do século passado e também levei mais de 20 anos para ler este clássico. Ele se arrasta um pouco nas primeiras páginas, o que talvez explique o insucesso inicial. Mas depois que embala, a obra é genial, cheia de ironia, paixão e realidade mágica. Recomendo mil vezes, e outras mil se forem necessárias.

Ainda assim, entrei de férias e não havia acabado a leitura. Não consegui esperar e vim lendo no avião. Já baixávamos em Ezeiza quando me dei conta de que faltavam duas páginas. Apressei a leitura e consegui terminar o livro. Olhei para o lado e vi a pista. O avião desceu suave e eu não o percebi quase tocar a pista. A aterrisagem se deu exatos 10 segundos depois da última letra.

Excelente forma de iniciar a viagem. Gatsby, ao que consta, fez um pouco de tudo na vida, mas não deve ter voado, não era uma forma de transporte exatamente comum na virada da década de 1910 para os anos 1920. Mas guardadas as diferencas de épocas, em todos os tempos houve Gatsbys, e todos nós (ou a maioria de nós, ao menos) somos Gatsby.

Não vou contar a estória, mas adianto que ele moveu mundos e se tornou poderoso em nome de um amor. Motivos variam, mas quem nunca se superou para provar alguma coisa para alguém? E se divertiu no caminho, porque prosperou e fez questão de demonstrar este sucesso com muitos excessos. E quem não se excedeu algumas vezes, quem não se fez excessivo?

Portanto, há Gatsby em toda parte, durante todo o tempo. Mas, apesar de ser uma estória simbolicamente americana, talvez nao haja tanto de Gatsby em Nova York quanto há na história da Argentina na mesma época, com reflexos presentes até hoje na suntuosidade decadente da bela Buenos Aires.

Aqui, em terras portenhas, descansa a alma do poderoso e solitário Gatsby. Mas isso é assunto para outra coluna. Até lá.