Retomando uma tradição do primeiro aniversário, teremos este ano também um convidado que assina um texto especial e inédito para o Ouro de Tolo.
Ano passado foi o jornalista Marco Aurélio Mello, editor da Rede Record. Este ano, temos a jornalista Milly Lacombe, uma das amizades que conquistei no último ano e que abriu a nossa série de entrevistas,a “Jogo Misto”. Graciosamente ela escreveu este post especial,o que muito me honra.
A crônica é uma fábula sensacional sobre os políticos e os juízes de nosso país. Divirtam-se.
Era Uma Vez Um País
Em uma distante galáxia, congressistas de um certo país, localizado em um minúsculo planeta conhecido no universo inteiro por suas temperaturas altas e praias de areias muito brancas, decidiam sobre questão de fundamental importância: se deviam ou não se conceder aumento salarial. 
Quereriam eles ganhar mais? Quereriam ficar mais ricos? Quereriam poder comprar mais carros, mais casas e construir mais castelos? Em votação quase unânime, os congressistas do pitoresco país decidiram, depois de matutar questão tão complexa por longos 15 segundos, que sim, gostariam imensamente de ficar mais ricos. E se outorgaram aumento de 60% sobre vencimentos que já eram excelentes em relação ao salário médio do povo que os elegeu.
O povo, gente simples, de olhos muito pequenos e narizes avermelhados e arredondados, universalmente conhecido por sua passividade secular, nada fez.
Em seguida, congressistas passaram a votar a segunda questão de suma importância. Quereriam eles ser mais belos? Quase que por unanimidade, com apenas um voto contra, escolheram que sim: além de mais ricos, gostariam imensamente de ser mais belos. 
O homem que votou não, famoso por passar horas diante do espelho, estava satisfeito com suas formas faciais, embora andasse desgostoso com a própria altura. Por isso, propôs que votassem, antes de saírem para os quase três meses de férias a que tinham direito, a respeito de serem mais altos. 
Gostariam aqueles ilustres congressistas de, além de mais ricos e mais belos, serem mais altos? E em outra votação relâmpago, decidiram que sim: gostariam imensamente de ganhar altura.
E assim, ficou decidido que os congressistas do estranho país seriam mais ricos, mais belos e mais altos. E que o povo, tão simpático e passivo, pagaria por tudo isso. 
Ao final das votações, abraçaram-se, riram a fartar, entraram em seus carros novíssimos, dirigidos por motoristas contratados com o dinheiro do paupérrimo povo que, em sua maioria, nem carro tinha, e partiram para as férias.
Tudo parecia resolvido, quando, em local não muito distante dali, seres de capas pretas e longas que acompanhavam atentamente a votação no congresso, ficaram ligeiramente revoltados. 
Sabendo perfeitamente que eram mais importantes do que todos os congressistas juntos, e incrivelmente mais importantes do que o povo, acharam uma ofensa tamanho aumento salarial, que acabou deixando o salário dos congressistas muito parecido com o deles.
E começaram a tramar silenciosamente o que fariam para, no retorno das férias prolongadas, se concederem, às custas do povo sempre tão pacífico, aumento significativo.
Enquanto isso, o povo, tendo recebido algumas migalhas salariais de fim de ano, preparava-se alegremente para o feriado prolongado que antecederia o ponto alto da próxima temporada: o carnaval, época em que todos os felizes habitantes desse bizarro país podem se vestir com suas roupas favoritas, as de palhaços.”