Nesta quarta feira, excepcionalmente temos mais uma edição da coluna “Sobretudo”, assinada pelo publicitário Affonso Romero.
O tema de hoje é algo que já abordei neste blog: o salário dos policiais militares. Como o próprio articulista reconhece na coluna, discordo de uns 80% do texto. Mas este é um espaço democrático e os colunistas tem total liberdade para expressar suas opiniões.
Sobretudo – O Salário da PM: uma visão alternativa

Dia desses o editor do blog, nosso amigo Pedro Migão, postou em um pequeno grupo privado de troca de emails a coluna que subiria no dia seguinte no Ouro de Tolo. O tema era dinamite pura: os salários dos policiais fluminenses.
Respondi, quase imediatamente, que discordava do ponto de vista do Migão e argumentei em seguida. A tréplica veio em forma de desafio: “então, já temos uma nova Sobretudo, certo?” Tínhamos e não tínhamos.
O texto, basicamente, era aquele mesmo. E eu sei que o espírito democrático do Migão me deixaria rebater sua coluna nos termos que eu desejasse. Aliás, a proposta partira mesmo dele. 
Mas eu tenho noção de que nem tudo o que eu escrevo num grupo privado pode ser dito publicamente. Ilações e comentários feitos de maneira até irresponsável não têm o peso das certezas quando feitos privativamente. Então, antes de virar “Sobretudo”, minha resposta ao Migão passou pelo filtro do bom senso.
Fiquei de reescrever naquele mesmo dia. Tomei um susto ao conferir as datas: de 18 de maio a hoje, levei mais de um mês para cumprir a promessa. Mas a discussão ainda deve estar valendo, ainda mais depois dos desdobramentos da crise dos bombeiros do Rio e de minha própria categoria profissional (ferroviários de São Paulo) ter passado por um dissídio.
Continuo discordando frontalmente do texto original do Migão. Na verdade, acho os salários da Polícia Militar do Rio até bons. Poderiam ser muito melhores, é verdade. Mas os policiais do Rio não merecem. Simplesmente, não merecem.
Eu penso que primeiro o sujeito tem que ser competente, depois pedir aumento.
Nunca o contrário. E se for uma classe inteira o competente paga o pato pela média dos colegas ser baixa.
Receber pouco não é desculpa para baixa performance. Isso explica, sim, a desvalorização de profissões onde há evasão de talentos por baixa remuneração. Na polícia, ninguém (poucos, na verdade) pede demissão. Logo, não há evasão de talentos.
Policial, bombeiro, militar, médico, professor etc. são profissões de sacerdócio. O cara pode até vir a ganhar bem, mas jamais deve ser estimulado que o salário seja o fator de decisão pela carreira. Por mais que se pague, os riscos envolvidos e/ou a necessidade de disponibilidade não compensam se o critério for apenas financeiro.
Ou o candidato gosta do que faz/fará, ou nem tenta estas carreiras. Pagar mais não atrairá mais talentos específicos, atrairá apenas aquele que vai para a profissão pelo dinheiro (logo, independente de quanto ganha, mais afeito à corrupção, ou a decidir seus caminhos sob o ponto de vista financeiro).
A maioria dos policiais prefere ir para as ruas a ficar no trabalho burocrático. Por quê? Porque apesar do risco nas ruas há mais oportunidades de “ganhos” extras. Estimular o ingresso na profissão oferecendo salários maiores só pioraria este quadro.
Por uma questão de justiça, deve-se dizer que parte daqueles que preferem o trabalho das ruas o faz por vocação, por vontade de combater o crime. Para estes, salário é o menor dos atrativos na profissão. Portanto, em profissões de sacerdócio, o argumento de que o salário atrairia talentos é uma barca furada.
E, de uma forma ou outra, o recurso humano da corporação hoje é de nível baixíssimo. O Migão comparou o valor do soldo com o salário de um serviçal doméstico. Há um preconceito embutido nesta comparação, como se o trabalho doméstico prescindisse totalmente de especialização ou talento específico. 
Eu diria que tenho talento e formação para funções bem mais valorizadas na sociedade, mas não os teria para a maioria das funções domésticas que conheço. Então, cada um na sua labuta, cada um segundo sua vocação. Pois eu me arriscaria também a dizer que a maioria dos policiais de baixa patente no Rio não conseguiria um serviço doméstico e que são sub-qualificados para as funções mais simples.
Pode parecer muito radical afirmar isso, mas tente pensar isso desconsiderando a baixa avaliação que costumamos fazer – por preconceito – dos trabalhadores braçais.
Policial, hoje, é o cara que não teve formação técnica em mais nada, não cursou uma escola sequer razoável, não sabe virar um concreto, apertar um parafuso, consertar um carro, fazer uma faxina, tocar um pagode ou jogar futebol. Tanto que o tipo de bico que eles conseguem fazer nas horas vagas, em geral, está ligado à segurança. Prova de que servem menos a trabalhos que pagariam o mesmo (ou mais) do que aqueles ligados, de uma ou outra forma, à violência.
Quantos policiais você conhece que você contrataria para instalar uma tomada na parede de sua casa? Para podar as plantas de um quintal, para pintar ou erguer uma parede, para cozinhar para sua família?
E um policial com “curso superior em polícia”? O que é um oficial típico da PM? Um cara que sentaria nos bancos de uma faculdade de Economia, Comunicação, Direito, Administração, Engenharia, Medicina? Ora, a maioria não serviria para mais nada na vida além da função policial. É chato constatar isso, mas é a triste verdade.
Tem uma minoria que está de passagem, em geral fazendo outro curso em uma faculdade de segunda linha, e enquanto isso “brincam de policia e bandido”. Ora, ser policial para estes aí não é exatamente uma profissão, uma carreira, mas uma ferramenta para chegarem a outras carreiras. Não está errado, mas eu me recuso a analisar uma corporação a partir dos profissionais que estão ali de passagem.
Mas há situações piores: alguns até teriam alguma competência e talento para estarem em outra profissão, mas preferem estar na polícia para cometerem crimes com acobertamento oficial. Ora, e eu como cidadão vou pagar mais salário para estes caras?
Eu acho o seguinte: limpa a polícia. Limpa geral. Do tipo de limpeza que, se sobrar alguém sujo, vai ficar constrangido de continuar a infringir a lei. Vai demitir quantos? 80, 90% da tropa? Menos, mais? Que demitam. 
Aí, e só aí, a sociedade aceita discutir quanto se deveria pagar ao bom policial. Mas, por enquanto, qualquer aumento dado no salário do bom policial (que existe, deve existir – eu me recuso a acreditar que não exista nenhum) significa também que o contribuinte estará pagando um imposto que servirá a dar aumento salarial a policiais criminosos ou coniventes com a criminalidade.
Também não concordo com o risco como fator de elevação do soldo. O cara não escolhe uma profissão de risco pela grana. Escolhe por estilo de vida. Ou, então, nem deveria escolher. O risco faz parte da sensação necessária ao real policial, àquela minoria entre as minorias que está lá por gosto pela profissão. E se a tropa fosse feita só desses caras, o soldo até deveria ser maior, mas não exatamente por conta disso.
Risco de vida também é uma constante na vida dos bombeiros militares, do Rio e do mundo inteiro. Apesar da proximidade funcional – ambas são categorias de formação militar, com salários similares, ambos subordinados a políticos que pouco entendem da vida militar – bombeiros e policiais militares são percebidos de forma bastante distintas pela população do Rio de Janeiro. Bombeiros são admirados, respeitados. 
Há uma identificação do povo do Rio com sua causa. Independentemente de estrutura, salários, equipamento e comando apropriado, a sensação geral é que bombeiros cumprem a sua função. E que PMs, não.
Um bombeiro precisa ganhar o suficiente para manter sua família com dignidade e conforto. Mas não é porque não ganham o tanto que merecem que fazem pela metade o seu trabalho. Portanto, é injusto que policiais aleguem que sua categoria só não é competente por falta de dinheiro – seja nos salários, seja na estrutura.
Aqui em São Paulo, a categoria dos ferroviários entrou em greve por melhores salários. Há profissionais de formações diversas na empresa de trens urbanos, inclusive eu, que sou publicitário e trabalho com atendimento ao usuário. E há administradores, engenheiros, toda sorte de carreiras representadas. 
Mas falemos dos profissionais diretamente relacionados com a atividade-fim: transporte de passageiros. São bons pais e mães de família, gente com formação técnica específica, trabalhadores qualificados que ganham muito menos do que merecem. E é duro negociar com qualquer governo, difícil decidir paralisar o trabalho se colocar contra a população. Ao longo do tempo, vê-se uma defasagem salarial e, aos poucos, perda de talentos para outras empresas e carreiras. (Veja bem, amigo, não me incluo nesta: se eu estou na empresa, é porque ainda quero estar. E é princípio meu não reclamar neste caso.)
Só que, ainda assim, ninguém ousa dizer que trabalha menos, ou com menor qualidade, por conta do quanto recebe. Primeiro, faz-se um bom trabalho, depois, só depois, exige-se aumento. É o que a categoria a qual pertenço está fazendo neste exato momento.
Agora, se comparamos os salários da PM do Rio com os salários dos professores, a coisa piora muito. Ainda que sejam muitíssimo mais importantes para a sociedade, a meu ver, e com óbvia e necessária formação muito superior a policiais. E – pasme! – ganham bem menos.
Um tenente da PM do Rio – que tanto pode ser um jovem voluntarioso cheio de boas intenções, alguém de passagem pela corporação ou um corrupto – um jovem em início de carreira (ou um velho que não progrediu nem nisso) recebe de soldo maior do que uma professora de escola pública (em regime de 40 horas) recebe em final de carreira.
Uma diretora de escola receberá bem menos que um Coronel PM. Aliás, receber mais de 7 mil em emprego público numa carreira sem nenhuma qualificação é um absurdo.
Eu trocaria meu emprego hoje por ser coronel PM (que é o que eu seria se tivesse entrado para a Academia, em vez de entrar para a ECO-UFRJ para estudar Comunicação Social). Sendo absolutamente honesto, eu ganharia bem mais do que recebo num emprego público que me exigiu passar num concurso com apenas uma vaga (relação candidato-vaga de 2500 para 1) e cujo desempenho pressupõe mais experiência profissional e predicados do que um coronel.
Eu acho que a percepção do cidadão médio deve ser ainda mais rigorosa do que a minha, já que eu ganho um salário bem maior do que a maior parte da população. Um coronel PM, então, recebe uma fortuna para dar resultados pífios do seu trabalho à sociedade que lhe paga.
(Fotos: O Dia)


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