O recente episódio da queda de um helicóptero em Porto Seguro, onde faleceram a namorada do filho do Governador do Rio e mais seis pessoas, deixou evidentes no mínimo alguns aspectos mal explicados da gestão do Governador à frente do Rio de Janeiro.
Sérgio Cabral Filho está em seu segundo mandato, mas já faz parte do grupo que domina a política carioca em termos Legislativos há bastante tempo. Foi Presidente da Assembléia e quando saiu para ocupar sua cadeira de Senador seu grupo político ocupou e dominou o espaço político do estado, comandados pelos políticos Jorge Picciani e Paulo Melo.
Sua atuação como Governador, como expliquei em post antes das últimas eleições, era marcada por acertos mas também por várias questões mal explicadas – entre elas a de seu patrimônio pessoal, também descrita em post aqui neste espaço.
Entretanto, a queda do helicóptero trouxe à tona questões mal explicadas.
A primeira delas é o fato de o Governador estar em um evento de aniversário de empresário que detém contratos milionários com o Governo do Estado. A Construtora Delta, de propriedade de Fernando Cavendish, somente na reforma do Maracanã deverá ter uma fatia de aproximadamente R$ 500 milhões em contratos.
Segundo o jornal O Globo, em 2007, primeiro ano de seu mandato como governador, a construtora teve empenhos (recursos separados para pagamento) de cerca de R$ 67 milhões. Em 2010 este valor foi de R$ 506 milhões – um crescimento de 655%.
Sem dúvida alguma, é no mínimo impróprio que o Governador estivesse se dirigindo a uma festa de aniversário de um empresário que mantém contratos desta magnitude com o governo do estado. Ainda mais se levarmos em conta o aumento destes em seu governo. Fica meio complicado de se acreditar que a amizade do governador com o empresário não tenha contribuído para tal crescimento, embora não haja provas factuais de tal ilação.
Teoricamente as obras públicas passam por licitações onde a impessoalidade deve ser absolutamente respeitada. Entretanto, fica muito complicado acreditar nisso. Ainda que todos os contratos estejam dentro das normas e tenham sido obtidos de forma técnica, ainda assim não é adequado à ética do cargo a presença em um evento desta natureza.
Ainda mais se soubermos que quem cedeu o jatinho para o Governador se deslocar a Porto Seguro foi o empresário Eike Batista (na foto, com a namorada, o governador e sua então esposa Adriana Ancelmo). Eike, um empresário de métodos às vezes polêmicos – o leitor procure saber como ele recrutou os principais executivos da OGX, e entenderá o que digo – possui negócios com o governo do estado, além de ser doador de campanha e investidor do projeto das UPPs.
De acordo com o jornalista Ricardo Boechat na Rádio BandNews, última segunda feira, Eike Batista teria intercedido junto a Cabral para a instalação de uma usina siderúrgica e um porto em São João da Barra, Norte Fluminense, sem a necessária licença ambiental. Cabral teria interferido no processo a fim de que fosse concedida a autorização para as obras do chamado “Porto do Açú”.
Mais uma vez, não é correto um governador viajar em um jatinho de propriedade de um empresário que detém negócios com o Estado. No mínimo é anti-ético, ainda mais com a denúncia do apresentador de que não é a primeira vez em que Eike empresta seu jatinho para o Governador viajar.
Outro ponto esquisito comentado nestas dias é de que Cabral teria ido a Porto Seguro para uma suposta aventura extra-conjugal. Se é verdade não se confirmou oficialmente, mas a Primeira Dama Adriana Ancelmo entrou com o pedido de divórcio imediatamente após o sepultamento das vítimas. Ou seja…
Adriana Ancelmo, aliás, que é advogada do Metrô Rio, da Fetranspor e da Supervia, concessionárias de serviços públicos do estado.
Mais um flagrante caso de conflito de interesses, porque nos três casos os serviços destas empresas e associações devem ser fiscalizados pelo Estado – e a crescente piora na prestação à população indica que no mínimo há uma leniência estatal quanto à qualidade do transporte público.
Ancelmo também está em disputa pessoal com o Chefe da Casa Civil Regis Fichter – espécie de “eminência parda” do Rio de Janeiro – a fim de indicar o próximo Ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Além da desastrada condução da recente campanha salarial de bombeiros e policiais militares, causa “estranheza” a alguns policiais e jornalistas especializados que sigo no Twitter a não inclusão da favela da Rocinha no projeto das UPPs. A favela é a maior referência do tráfico de drogas hoje e fica em uma zona nobre da cidade; entretanto não está em cogitação pública a entrada desta comunidade no projeto.
Estes mesmos policiais e jornalistas especializados afirmam (de forma pública) que este fato teria relação direta com alguns acontecimentos que teriam ocorrido na recente ocupação do Complexo de favelas do Alemão – onde os principais líderes não somente escaparam como, especula-se, estariam refugiados na comunidade da Zona Sul. Inclusive estas mesmas pessoas afirmam em tom irônico que pode-se ter alguns “autos de resistência” – com cara, cheiro e cor de “queima de arquivo” – em um futuro próximo…
Bom, não dá para se afirmar certas coisas mas aproveito para fazer o registro – e os leitores mais interessados no assunto podem procurar em meu perfil no Twitter algumas destas pessoas que sigo, onde as coisas são ditas de forma mais clara.
“Relações perigosas” com executivos e assemelhados à parte, Sérgio Cabral tem muito o que se explicar. No mínimo o seu convívio íntimo com empresários que detém negócios vultuosos com o estado do Rio de Janeiro e a sua eventual ligação com licitações, contratos e “otras cositas más”.
É o mínimo que o cidadão pode esperar. A proposta de um “código de conduta” feita ontem em entrevista, além de insuficiente – parece aquela história da criança que só não faz algo errado porque a mãe não deixa – não esclarece o mais importante, as relações descritas acima no texto. As declarações dadas ontem na mesma são claramente insuficientes.
Este caso terá desdobramentos. O leitor pode apostar.
Ótimo post. Os escândalos envolvendo Cabral já são antigos, seu patrimônio pessoal é incompatível com seus proventos como governador. Há ainda o caso da empresa laranja que foi responsável por fazer material de campanha para sua última eleição para governador. Descobriram q a empresa, sediada no interior de SP, pertencia a duas aposentadas de 80 anos. Acredito ainda que o que veio à tona, até o momento, é a ponta do iceberg.
E pensar que, se não tivesse caído o helicóptero, não saberíamos de nada disso… foi preciso ocorrer uma tragédia (infelizmente) para que se desnudasse o “rei”.