Bom, o leitor mais atento sabe que estive em Natal a trabalho na semana passada. Sabe também que gosto de futebol, mesmo que não seja necessariamente um jogo do meu time, o Flamengo.
Então, retornando ao que já havia feito em Curitiba e em Campinas – o leitor pode ler
aqui e
aqui as duas experiências – fui uma vez mais assistir a uma partida de Segunda Divisão. Neste caso, entre o ABC de Natal e o Goiás, pela quarta rodada do primeiro turno da competição.
Na última terça feira, dia do jogo, estava chovendo bastante na capital do Rio Grande do Norte – aliás, uma constante na minha temporada na cidade. Cheguei a pensar duas vezes se iria assistir à partida, mas optei por sair do hotel – o gosto pelo futebol falou mais alto. O estádio Frasqueirão fica no bairro turístico de Ponta Negra, onde fiquei hospedado – de táxi, uns dez minutos do hotel – se muito.
O estádio é relativamente pequeno – 18 mil lugares – extremamente simples, mas muito bem cuidado e funcional. Apesar da chuva adquiri meu ingresso na bilheteria sem sustos e, ao entrar no estádio, há restaurante e um quiosque de produtos oficiais – pena que a camisa que eu queria não tinha o meu número. Outro destaque, como se pode ver abaixo, é que era distribuído uma espécie de “programa do jogo”, com as informações das duas equipes e a divulgação do programa de sócios do clube.
Sobre este último, vale uma nota. Paguei R$ 50 na cadeira coberta, valor que deve, a princípio, ser considerado caro. Entretanto, este setor do estádio é praticamente todo reservado aos sócios, que pagam uma mensalidade de R$ 60 e tem o direito de assistir a todos os jogos do clube confortavelmente instalados em cadeiras nominais e ao abrigo da chuva – algo importante na partida a que assisti.
Há um outro plano, de R$ 40, que permite assistir aos jogos nas arquibancadas descobertas. O interessante é que como as cadeiras tem “dono”, há a formação de uma espécie de “camaradagem” entre os sócios, que já se conhecem e se reúnem para torcer juntos. Foi algo que vi e que me chamou muito a atenção, pois é um público fidelizado e composto de torcedores assíduos.
Portanto, as cadeiras vendidas ao público comum são muito mais para atender ao Estatuto do Torcedor que propriamente auferir receita ao clube. A idéia é mesmo apenas complementar a lotação e atrair um ou outro fã/turista que esteja na cidade. E, caro leitor, turista tem de pagar mais caro mesmo pelo ingresso por ser um público flutuante. O curioso é que no anúncio da renda e público foram apenas 887 pagantes e cerca de cinco mil presentes – efeito do programa de sócio.
Vendo iniciativas como o “programa” do jogo e o quadro de sócios eu fico me perguntando como é que o meu time, o Flamengo, não possui nada parecido. Estamos falando do ABC de Natal, clube que oscila entre a segunda e a terceira divisões do futebol brasileiro, ou seja, com um potencial muito menor que o “Mais Querido”.
Entretanto, em termos de marketing o clube potiguar está léguas à frente do meu clube de coração – embora, como já escrevi aqui antes, isso não seja lá uma grande vantagem… O pessoal do marketing do Flamengo deveria dar um pulinho a Natal para aprender – uma passagem de avião não é tão cara assim.

Consegui um bom lugar e sentei-me para assistir à partida. Antes dela o locutor oficial incentiva os torcedores e coloca no sistema de som paródias de músicas falando do clube. Há também um show de “cheerleaders”, ou seja, animadoras de torcida para entreter o público que aguardava a partida.
Como fato negativo o fato de o estádio não ter placar de espécie alguma, pelo menos não no meu campo de visão. A questão do estacionamento também me pareceu crítica e, com a chuva, havia um imenso bolsão d´água na avenida exatamente em frente ao estádio. Mas isso não é de responsabilidade do clube.

Agora, é muito divertido se assitir a uma partida de futebol sem estar envolvido emocionalmente com ela. As reações dos torcedores são exatamente as mesmas seja em Natal, no Rio, em Campinas ou Curitiba – apenas para falar de cidades onde assisti a jogos.
Uma diferença: ouvi muitos elogios à diretoria do clube, que teria pego o ABC “no buraco” e levado a um crescimento constante. Segundo os relatos de sócios a idéia é ampliar o estádio com a construção de um segundo andar de arquibancadas.
O time local é apenas mediano e na primeira etapa sofria com um “buraco” entre as linhas de volantes e da zaga. O time do Goiás é bastante limitado, ainda mais levando-se em conta que foi rebaixado recentemente. O goleiro Harlei é seu único destaque.
No ABC destacaria o atacante Elionar Bombinha e o bom lateral direito Nego, autores dos gols.
Mas o torcedor não quer nem saber. Em sua paixão ele vibra, ele canta e, especialmente, xinga o árbitro. Apesar da boa atuação deste no primeiro tempo – inverteu uma ou outra falta, mas isso é normal – como o leitor pode ver no vídeo que abre este post ele foi impiedosamente xingado o tempo todo pela torcida abecedista.
Outra coisa é que a torcida sempre escolhe um jogador para “pegar no pé”. Na partida a que assisti o “premiado” foi o atacante Malaquias, xingado de tudo quanto foi jeito. Cheguei a propor a troca deste pelo atacante David ao pessoal que estava perto de mim, mas ninguém quis. Não sei o porquê…
A acústica do estádio favorece bastante, mas apesar dos xingamentos achei a torcida do clube local bastante apática. O time visitante tinha meia dúzia de três ou quatro torcedores presentes, mas sem segregação feita pela Polícia, o que muito me espantou. Aliás, ao contrário de outras cidades vi várias camisas de outros times nas cadeiras, em especial dos clubes cariocas. As pessoas apenas evitam a cor vermelha por ser a do rival América.
Mas uma coisa é certa: o que eu chamaria de “sociologia do torcedor” é muito parecido de Norte a Sul do Brasil. Ele canta, ele xinga, ele “homenageia” o árbitro – que é ruim mesmo se apita direito – ele ironiza o rival…
No caso em questão era um “prato cheio” pois o América foi rebaixado para a Série C e ainda ficou sem ter onde jogar com as obras no Machadão – o clube mandará suas partidas na cidade de Goianinha, a sessenta quilômetros de Natal.
O jogo em si foi típico de Segundona: pegado, brigado, sem grandes destaques individuais mas com bastante empenho. O Goiás veio claramente para se defender e parava com faltas todos os ataques da equipe local, o que levou a defesa inteira a estar “amarelada” ainda no primeiro tempo.
Logo no início da etapa complementar o ABC fez um gol e logo depois converteu outro, de pênalti. Somando-se a um jogador da equipe goiana expulso pelo segundo amarelo o jogo ficou muito mais aberto, com chances dos dois lados. Destaque para o gol incrível perdido por um dos zagueiros goianos, que debaixo da trave, sobre a linha, acertou o poste do outro lado. Como, não sei até agora…
Abaixo o leitor pode ver o momento do segundo gol da equipe do ABC.
Até o final a partida foi movimentada. Diria que o segundo tempo foi bastante agradável, com chances de lado a lado e ótimas defesas dos goleiros. Melhor que muito jogo badalado que vi este ano. A partida poderia ter se encerrado com uns três ou quatro a um para a equipe potiguar, mas acabou dois a zero.
Táxi, uma intragável Nova Schin e hotel. Noite muito agradável e que recomendo ao leitor: assistir a uma partida no estádio onde o seu time não está em ação é muito, mas muito divertido. As duas equipes tem plantéis que permitem apenas aspirar a um lugar intermediário na tabela, a meu ver.
Resta saber se ocorrerá o mesmo que houve com os outros times a que assisti: os locais venceram todas, mas entraram em decadência logo após…
Escrito por: Pedro Migão em 14 de junho de 2011.