Um dos assuntos de maior destaque nas últimas semanas foi a crise econômica enfrentada pela economia grega e as medidas do pacote econômico aprovadas pelo Parlamento local dias atrás.
Esta situação e as medidas que estão sendo tomadas para “enfrentar” a crise são exemplo clássico da irracionalidade dos agentes econômicos e da falência do modelo desregulamentador adotado nas últimas três décadas – que o leitor já teve oportunidade de conferir em diversos posts que é um modelo absolutamente inadequado, para se dizer o menos.
A economia do país do sul europeu está asfixiada por uma dívida com bancos europeus – especialmente alemães – que monta em seu total a quase 150% de seu Produto Interno Bruto (PIB). Esta dívida, tomada especialmente para adequar o país às exigências necessárias para adoção do euro como moeda, está se mostrando impagável dentro do modelo econômico adotado: o Estado não tem receita suficiente para efetuar o pagamento do serviço da dívida e arcar com as demais demandas de seus cidadãos.
Vale lembrar que, juntamente com Portugal e Espanha, a Grécia foi um dos países europeus mais afetados pela crise global iniciada nos Estados Unidos em 2008. Com a crise de crédito verificada desde então o acesso ao refinanciamento de sua dívida diminuiu, a taxa de juros aumentos vertiginosamente e a economia real enfrentou nada menos que oito trimestres sucessivos de queda em sua atividade, ou seja, em recessão prolongada.
Com este quadro recessivo a receita de impostos reduziu-se, o que atrelado às maiores despesas sociais – pelo aumento do desemprego – e ao quadro financeiro decorrente da crise levou o governo grego a um estado de insolvência.
Bom, então o que ocorreu?
Pressionada pelo Banco Central Europeu, o país solicitou um empréstimo de 120 bilhões de euros a fim de cumprir seus compromissos com os bancos europeus, especialmente alemães. O dinheiro sequer passará pelos cofres gregos, sendo direcionado diretamente aos credores para abatimento da dívida.
Em troca, o Parlamento aprovou um pacote de medidas que, como explicarei, irão aprofundar mais ainda a crise e levar o país proximamente a outro estado de insolvência.
Basicamente, o pacote inclui uma combinação que é perversa para a atividade econômica em qualquer lugar do mundo: aumento de impostos e cortes de salários. Ou seja, o efeito recessivo na economia do país será duplo, pois retira recursos nas duas pontas. O objetivo é reduzir o déficit fiscal a menos de 3% do PIB, de forma a não desestabilizar o euro.
Além disso, serão realizadas 150 mil demissões, cortados recursos públicos para serviços de saúde e assistência social e realizado um programa de privatização radical que envolve a venda até de prédios públicos – preferencialmente para estrangeiros.
O leitor já deve ter entendido onde quero chegar: para que obrigações financeiras com bancos sejam cumpridas irá se arrasar ainda mais a economia do país, com o aumento do desemprego, a diminuição do nível de renda e a redução das contrapartidas sociais.
Haverá, portanto, duas consequências: um imenso caos social, com recessão, aumento da miséria e do desemprego, por um lado. Por outro, com a recessão que advirá das medidas a receita de impostos cairá – apesar do aumento das alíquotas – e a capacidade de pagamento da dívida novamente irá se tornar crítica, ainda mais lembrando-se que adicionam-se 120 bilhões de euros de dívida nova. Na prática, apenas se adia o inevitável: a moratória.
Isto foi dito inclusive pelo comentarista de economia da Rádio BandNews, Luiz Carlos Mendonça de Barros: que o pacote aprovado, apesar de seus imensos custos sociais, apenas permitirá aos credores ganharem fôlego para o inevitável “calote”. Ressalvo que o analista em questão está longe de ser considerado de “esquerda” ou progressista.
Além disso, o programa de privatização irá tirar do estado grego condições de intervir na economia a fim de reativá-la, tal como prega a teoria keynesiana e forma utilizada por diversos países – inclusive o Brasil – para enfrentar a crise. O “mercado” ficará responsável por dar dinâmica à economia grega, e a experiência recente mostra que mercados deixados por si próprios e sem regulação são um caminho “seguro” para a catástrofe – basta ver a crise americana/mundial de 2008 e a própria crise européia que levou à Grécia a esta situação.
Na prática, é como se uma pessoa estivesse doente devido a um vírus e, para curá-la, recebesse injeções… do próprio vírus! A desregulamentação que levou à crise está sendo atacada com mais desregulamentação – não pode dar certo.
Ou seja, é um episódio de irracionalidade: por questões ideológicas e para salvaguardar os interesses de meia dúzia de agentes financeiros vai se jogar um país inteiro em uma recessão que ceifará empregos, renda e especialmente sonhos. E, o que é pior, sem resolver a questão meramente financeira – apenas adiá-la, a um custo econômico e social absolutamente estúpido.
O caminho para a economia grega sair da crise é justamente o contrário: reduzir a dívida, estimular a atividade econômica, fortalecer o poder de compra de sua população.
Reestruturar a dívida através de um deságio é o primeiro ponto: deixar claro que é melhor receber parte dela do que ficar sem nada, o que ocorreria em caso de moratória radical. Alongar os prazos da dívida com deságio para permitir um desafogo e a possibilidade da utilização de recursos de Estado para induzir a atividade econômica, a consequente criação de empregos e assim aumentar a receita de impostos – permitindo nova ampliação da capacidade de pagamento a médio prazo.
Na prática, é uma socialização das perdas, e não o que irá ocorrer: os bancos credores não abrirão mão de um euro sequer, mas por outro lado milhares de gregos irão em muitos casos perder tudo – até a dignidade. A sociedade grega, que é bastante organizada, já percebeu isso, e através de protestos imensos de massa demonstrou seu repúdio ao pacote econômico – que, assim mesmo, foi aprovado por um Parlamento mais afeito aos interesses dos detentores de poder que do povo para o qual foi eleito para representá-los.
Vale lembrar, também, que há um fator complicador: por estar na “zona do euro” as possibilidades de uma política monetária ativa não existem. A taxa de juros da Grécia é estabelecida pelo Banco Central Europeu – dominado pelos grandes bancos alemães.
Na prática, as medidas adotadas não somente não irão resolver a crise como irão agravá-la. A moratória total é praticamente certa, aí sim com consequências funestas ao mercado financeiro europeu. Um programa de reestruturação, deságio e rolagem da dívida parece muito mais adequado, mas contraria princípios ideológicos e a lógica de agentes financeiros – o dinheiro acima das pessoas.
Há um caso anterior de programa de reestruturação da dívida, que foi o da Argentina pós-dolarização: a moratória e rolagem inicialmente trouxeram alto grau de incerteza, mas posteriormente o crescimento da economia suplantou e muito as dificuldades iniciais. Os problemas da economia do nosso vizinho, hoje, são outros – voltarei ao tema.
Finalizando, o agravamento da crise econômica grega deve levar de roldão as economias portuguesa e espanhola, que se encontram em situação semelhante e que devem passar por programas de ajuste semelhantes. Questão de tempo e que irá agravar mais ainda a situação da economia européia – com reflexos mundiais.
A situação é realmente preocupante.