Concedi estes dias pequena entrevista à pesquisadora Raquel Lázaro, que está elaborando trabalho de pesquisa sobre a organização e o comportamento das pessoas em torno da composição e divulgação do samba-enredo e do samba de bloco. E também algumas diferenças de características de sua evolução e também a diferença do comportamento das pessoas em relação a essa evolução.
Divido com os leitores o teor da mesma, que pode auxiliar na compreensão do fenômeno “escolas de samba”. Agradeço à pesquisadora por ter autorizado a publicação das perguntas e respostas neste blog.
Passemos às perguntas:
RL – Qual a sua opinião sobre a tradição dos blocos, e a tradição das escolas de samba.
PM – A meu ver, são coisas diferentes.
Não sou pesquisador “acadêmico” sobre o tema, mas minha visão de observador e folião me indicaria dizer que são manifestações com formações diferentes, com estruturas diferentes e objetivos diferentes.
A escola de samba sempre foi algo mais organizado pelo sambista, derivada, grosso modo, de conjuntos musicais e de reuniões de sambistas então perseguidos pela Polícia. Sua aceitação pela sociedade passou por sua estruturação sob um formato rígido e, de certa forma, adequado aos interesses dos governos de então.
Os blocos, que dividem-se em diversas vertentes, a meu ver sempre obtiveram um modelo de organização menos rígido. Lógico que a diferença entre os blocos de enredo – que podem ser considerados “pequenas escolas de samba”, com uma estruturação semelhante àquelas – e os blocos de rua é considerável, mas se tomarmos em foco os blocos populares do recente “renascimento” do carnaval de rua carioca se verá que são estruturas completamente diferentes.
Costumo dizer que não gosto de carnaval, mas gosto de escolas de samba. Parece contraditório, mas são dinâmicas, hoje, bastante diferentes. A participação popular em blocos de rua parece ser maior, contudo não tem a densidade e a expressão cultural das escolas e nem as particularidades envolvidas.
As transformações sofridas pelo espetáculo do desfile na Sapucaí afastaram ainda mais as agremiações do “brincar carnaval”, o que torna ainda mais diferentes estas da manifestação carnavalesca dos blocos.
RL – Qual a relação de aceitação do samba enredo hoje em dia?
PM – Parece claro que não voltaremos aos tempos da década de 80, onde o disco das escolas vendia mais de um milhão de cópias e era trilha sonora obrigatória em boa parte das casas do país. Hoje o samba de enredo é um produto segmentado e que se resume a uma época do ano específica – é quase um gueto.
Hoje o alcance é mais restrito, e penso que é reflexo tanto das mudanças ocorridas na chamada “cultura de massa” do país – com a ascensão de outras expressões musicais, que se transformaram a fim de obter aceitação nacional e se tornarem palatáveis a formas mais diluídas de consumo.
A música de consumo de massa é cada vez mais “descartável”, no sentido de ser feita para entreter e não para alcançar perenidade. Por outro lado, as escolas de samba sofreram um processo de profissionalização absolutamente anômala e isto afetou diretamente não somente a qualidade dos sambas de enredo como os temas que dão origem a este.
RL – Como tem se dado a adequação das escolas ao modo comercial e, se isso influencia uma perda de tradição?
PM – O processo de profissionalização é absolutamente anômalo, por vários fatores.
Primeiro deles: houve uma “profissionalização” em termos absolutamente inusuais. Ao mesmo tempo em que a gestão das escolas peca pela falta de transparência e pela inexistência de um modelo de governança estabelecido, por outro a busca de receitas ainda é feita de forma bastante primária.
O segundo é que as relações de trabalho saíram da “fidelidade” à agremiação para se transformar em uma forma mercantil de trato: os profissionais que valem quesitos tem valor monetário expresso em um salário estipulado em contrato. Aquela coisa do “amor à bandeira” em muitos casos não existe mais: virou uma profissão.
Isto leva a outra questão, que é a ainda precariedade das relações trabalhistas. São contratos sem “carteira” e a cultura do calote e dos atrasos, infelizmente, ainda perdura de forma bastante frequente. Isto é ainda mais dramático nos profissionais ditos “de retaguarda” – carpinteiros, ferreiros,pintores e outros – que ganham por “empreitada”.
Quarto, o marketing das escolas ainda é bastante rudimentar. Há toda uma seara de ganhos possíveis às agremiações com licenciamento de marca e mesmo patrocínios institucionais ainda não explorada. Entretanto isto esbarra em uma palavrinha maldita aos dirigentes das escolas: transparência.
Ainda temos a questão de não haver uma cultura de eficiência no uso dos recursos. Cada real ganho ainda é gasto de forma muito pouco eficaz.
Obviamente, todas estas transformações, ainda em curso, afetaram em cheio a tradição do desfile das escolas. Hoje o “amor à bandeira” é minoritário, substituído por um mercantilismo ainda rudimentar e muitas vezes contaminado por relações de poder promíscuas. Complementando, a visão da Liesa de que “O Grupo Especial é um show para turistas” vem afastando bastante estas instituições de sua tradição original.
RL- Em que medida as mudanças ocorridas nos últimos anos sobre a produção do samba enredo interferem na receptividade do publico?
PM – A qualidade das composições caiu bastante, e isto é fato. Acompanhou este processo de transformação das escolas e mercantilizou-se da mesma maneira. Hoje muitas vezes o samba vencedor da disputa não é o melhor, mas sim o da parceria mais rica, que investiu mais.
As “firmas” de samba enredo hoje vencem várias disputas em diversas escolas, o que leva a uma inevitável pasteurização dos sambas. Deve-se notar também que hoje a parte musical está subordinada ao visual, estando a serviço deste, ao contrário do que ocorria originalmente. Com isso o julgamento deste quesito é bem menos rígido e, na prática, em termos de resultado não faz diferença levar sambas bons ou ruins – a diferença na pontuação é bem menor que no quesito Alegorias, por exemplo.
Obviamente, a queda de qualidade e sua menor divulgação interferem em sua receptividade. Além disso, tornaram-se músicas descartáveis – uma pessoa que não viva o dia a dia dificilmente se lembrará hoje do samba da Portela ou do Salgueiro de 2011, por exemplo, ao contrário do que ocorria em décadas anteriores.
RL – Há uma relação no processo de surgimento das escolas em que as camadas populares urbanas buscavam um processo de legitimação e o estado buscava certo controle disciplinar em detrimento da criminalização. Podemos, portanto, que de ambos os lados a escola de samba tinha grande importância de afirmação.
Passada esta relação de tensão, como estaria este processo hoje, isto é, a medida que este processo de afirmação vai reduzindo, teria a escola de samba ter perdido um pouco do seu papel? Esta relação tem a ver com as mudanças das escolas para um caráter mais ligado ao marketing, isto é ao que vende?
PM- A governança das escolas é um problema seríssimo, a meu ver.
Normalmente (com raras exceções) uma escola de samba é comandada por uma pessoa que possui uma extensa folha corrida na Polícia e que se utiliza da escola para legitimar sua presença na sociedade, entre outras coisas. Este mesmo indivíduo, como disse em entrevista ao Ouro de Tolo o carnavalesco Luis Fernando Reis, comanda a agremiação com “a chave da quadra em um dos bolsos e a grana do outro”.
Claramente há uma confusão entre o que é da escola e o que pertence ao indivíduo que se assenhora da mesma, o que leva volta e meia a suspeitas de mau uso de verba pública – curiosamente jamais investigadas pelo Ministério Público. A Prefeitura, que deveria fiscalizar, não o faz.
Na prática há uma certa tolerância com desvios, o que leva a casos como o de uma grande escola onde todo mundo sabe que seu mandatário usa em proveito próprio quase a totalidade dos recursos da agremiação e jamais houve qualquer investigação – ou seja, não há provas. Contudo, basta ver o VT dos dois últimos desfiles que se percebe que há algo de muito errado ocorrendo.
Mais ainda: os sócios não possuem acesso livre aos balancetes financeiros (que quase sempre são peças de ficção).
Por outro lado há relação de “dominador/dependente” entre os detentores do poder e os sambistas, que acabam legitimando todo este processo. O presidente/dono da escola trata suas relações com a comunidade, em média, ainda como uma “concessão” de direitos que são naturais dos sambistas, mas acabam sendo vistos como uma espécie de “outorga”.
Historicamente o Estado mantinha os contraventores “controlados” e estes se sentiam aceitos através das escolas de samba, o que era um processo histórico. Hoje as escolas estão bastante longe de um caráter “ligado ao marketing”, se tornando uma estrutura adaptada a novos tempos, mas de relações de poder antigas – e isto não deve mudar sem uma ação vinda de quem deveria fiscalizar e regular a festa.
O “vender” é algo bastante embrionário e anômalo – estão matando lentamente a “galinha dos ovos de ouro” com esta estratégia de afastamento dos cariocas, que exercem demanda o ano inteiro, e sua substituição por turistas que somente se interessam nos dias de festa.
RL – Obrigada
PM -Eu é que agradeço a oportunidade. Estou longe de esgotar os temas nestas linhas, mas espero que tenha auxiliado na compreensão do fenômeno.
Se não estou enganado, nesse video da Portela 1980 aparece o Jamelão sambando (até dando entrevista) rsss…
Foi ótima essa entrevista! Muito obrigada mais uma vez Pedro!