Anderson Lopes, também conhecido por “Dj Mangueira”, 37 anos. Treinador da equipe sub-20 de futsal da ADDP, clube de Cabo Frio, com experiência também em equipes de futebol e larga vivência em treinamento de meninos e meninas. É um dos DJs mais conhecidos de Cabo Frio.

Convivência em espaços sobre o Flamengo e anteriormente Hattrick levaram a uma amizade. Anderson Lopes é o entrevistado de hoje da coluna Jogo Misto.

1 – Já iniciando com polêmica: por que as “noitadas” dos jogadores prejudicam tanto seu desempenho? De que forma pode-se coibir estas frequentes “escapadas”?

AL – Porque, por mais bem preparado que o corpo de um jogador esteja, ele precisa de repouso. Não sou adepto do que se convencionou chamar de “jornalismo manja”, onde nego fica atrás de jogador para saber o que ele anda fazendo na hora de folga. Mas é preciso saber que o excesso de noitada uma hora vai prejudicar e vai atrapalhar na recuperação de um pós-jogo.

Quanto a coibir, não vejo muito jeito. Ficar contratando “babá” para marmanjo é complicado. Teria que haver uma mudança de mentalidade lá atrás, na formação do jogador.

2 – Por que as divisões de base dos clubes brasileiros, hoje, vivem um período de clara “entressafra” na revelação de talentos?

AL – Basta você ver uma competição de Sub-13, Sub-15, que você começa a entender. Os treinadores se preocupam em ser campeões para manter o emprego.

O critério pra avaliação de jogador hoje em dia mudou também. Um garoto de 12, 13 anos, pequeno e franzino, a não ser que jogue uma enormidade não tem muita chance nos grandes clubes hoje em dia. A preferência, de uma maneira geral, é por jogadores de porte físico maior.

Isso se reflete na frente. Um monte de jogador que começou na base jogando de atacante ou como meia criativo, quando chega ao sub-20 acaba virando volante, lateral, para “sobreviver” no futebol.

A preocupação com a parte técnica do jogador também tem sido deixada de lado na base. A preocupação, pelo menos onde eu acompanho, é mais com a parte tática. O talento nunca vai deixar de existir, mas hoje ele não tem sido privilegiado como deveria.

3 – Eu costumo dizer que qualquer garoto de time Sub-17 hoje tem “um empresário em uma das mãos e uma Maria Chuteira na outra”. De que forma isto afeta a formação destes jogadores?

AL – Todo garoto tem o sonho de virar jogador profissional, de estourar, de ir para o Barcelona, o Real Madrid, o Manchester United. Só que o funil é muito estreito.

O empresário é para muitos dos meninos um “atalho” pra realizar esse sonho. E dependendo da formação do garoto, os pais entregam a própria vida ao empresário.

A questão da “Maria Chuteira” é proporcional ao sucesso que o garoto tem na carreira. Se ele é sub-17 de um clube grande, a chance de ter uma melhor que a do que joga num clube pequeno é maior também… (risos)

4 – Qual o papel dos empresários na formação dos principais jogadores hoje em dia?

AL – Na formação?

Como eu disse antes, tem empresário que é uma espécie de pai pra alguns meninos. A partir daí, se o jogador consegue crescer na carreira, a tendência é que o jogador siga com esse empresário até um limite.

O grande ponto que eu vejo é que, na maioria dos casos, esses empresários só têm a visão do futebol para os “clientes”. É preciso pensar na carreira do jogador como um todo, até na hora de parar. Preciso pensar em capacitar o jogador para aproveitar as oportunidades que o futebol dá pra crescer como pessoa. Estudar, aprender um idioma, fazer um “media training”, essas coisas.

5 – Como seria uma estrutura de treinamento considerada adequada para um grande clube? Que tipos de treinamentos são mais adequados?

AL – Principalmente na base – hoje em dia já tem competições de sub-11, em alguns lugares, até de sub-9 – a preocupação precisa ser com a formação do jogador, sem a cobrança por resultados. A parte técnica tem que ser estimulada ao máximo nessa fase, e não tolhida.

Os treinos que estimulam a criatividade, que forçam o jogador a pensar em resolução dos problemas que o jogo apresenta, são os mais adequados. Quanto mais o jogador pensar, mais apto ele vai estar para utilizar seu talento e sua criatividade.

A gente entende que os clubes grandes sobrevivem de resultados, mas na minha modesta avaliação, a criação de uma cultura onde o jogo inteligente e criativo é a tônica é a melhor maneira de produzir jogadores mais completos – o Barcelona é o grande exemplo disso. O jogo que eles produzem no time profissional é a ponta de um trabalho que começa na base. A questão é, também, cultural.

6 – O que é a experiência de dirigir uma equipe de futsal com poucos recursos como a ADDP? Que tipo de dificuldades enfrentam?

AL – Cara, estou no clube desde 2006, já dirigi a equipe sub-17 (masculina e feminina), a adulta (masculina e feminina); mas sempre fui treinador do sub-20 masculino, que é o passo final para a categoria adulto. Apesar de ser um clube vitorioso dentro da cidade, com uma mentalidade profissional, a gente tem uma estrutura de trabalho limitada, que treina em praça pública, três vezes por semana.

É uma luta constante. No time adulto a maioria dos jogadores trabalha na rede de drogarias de propriedade do presidente do clube. Os caras trabalham no balcão, em pé, oito horas por dia, e à noite ainda vão treinar e jogar. Não é fácil.

A gente tenta captar, com patrocinadores, as condições para disputar as competições da Federação de Futsal do Rio. Neste primeiro semestre, ficamos em quinto lugar no adulto (e tivemos o artilheiro do campeonato, Rodriguinho, com 22 gols) e em quarto lugar no sub-20.

7 – Qual sua avaliação sobre o nosso Flamengo?

AL – O time está em um momento bom. Também tenho algumas restrições ao trabalho do Luxemburgo, principalmente pela insistência com o Wellinton na zaga; mas analisando no geral, o time titular está se portando bem. A carência no ataque e de reservas de melhor nível me preocupa para a sequência do campeonato.

A administração do clube, no entanto, não me agrada. A gente critica muito a falta de ações de marketing, mas a gente não sabe o grau de liberdade de ação (e de verba disponível) que o departamento possui. A política interna é muito conturbada e a Patrícia Amorim, em alguns momentos, se mostra muito à margem de tudo. Eu ainda alimento a utopia de que o futebol do Flamengo terá, um dia, uma gestão 100% profissional.

8 – André, recentemente contratado pelo Atlético Mineiro, foi seu jogador. Que avaliação do futuro dele você faria?

AL – É um jogador que sabe fazer gol, sempre teve talento pra isso. É grande, forte, finaliza com os dois pés, bom cabeceador e tem muito potencial de crescimento. Muito se falou que ele era “o cara certo no lugar certo”, por ter feito quase 30 gols em um semestre ao lado de Robinho, Ganso e Neymar. Mas se o cara for ruim, pode jogar do lado do Messi e do Iniesta que não vai fazer gol.

A transferência pro Dinamo Kiev foi boa financeiramente para o André, para o Santos, para o grupo de investidores que gerencia a carreira dele e até para a Cabofriense, como clube formador. Tecnicamente, foi ruim pra todo mundo. Ele perdeu um ano onde a ascensão tava grande, e agora vai ter que recomeçar cercado de desconfiança.

Converso com ele quase todo dia, e a gente sempre fala que o importante é tentar fazer o trabalho da melhor maneira possível. Torço pra ele fazer um grande Brasileiro no Atlético, pra recuperar prestígio e espaço dentro da seleção sub-23 que vai a Londres. Acredito que ele terá bons momentos na carreira.

9 – Por que jogadores se exilam na Ucrânia e semelhantes?

AL – Porque financeiramente é bom para esses caras. Os clubes do Leste Europeu vêm com um caminhão de dinheiro, algo que, na maioria dos casos, os caras nunca viram na vida. O empresário cresce o olho, o clube cresce o olho, o próprio jogador se deixa fascinar. Ele só pensa no que fez quando chega em Donetsk e tá 20 abaixo de zero e não vai ter paparicação nem nada a fazer a não ser treinar e ir pra casa.

Mas aí é de cada um. Se o cara estiver determinado a fazer sucesso no futebol, ele vai trabalhar e ganhar o dinheiro dele honestamente, seja na Ucrânia, na Rússia, no Catar, na China. Só é preciso avaliar bem antes de ir pra depois não ficar forçando uma barra pra voltar na primeira oportunidade.

10 – Um garoto sem empresário consegue fazer sucesso no futebol hoje? Como os clubes poderiam se “defender” deste tipo de questão?

AL – Se ele tiver condição, além de treinar e jogar, de administrar sua vida fora de campo, de negociar seus contratos, ele consegue. Mas é raro, porque a gente conhece o perfil da boleirada, é de gente que apostou que a vida mudaria através da bola. E mesmo assim, lá na frente, é difícil o cara conseguir conciliar tudo e ainda dar conta de contratos, negócios e coisas correlatas.

Os clubes poderiam se “defender” se tivessem uma gestão integralmente profissional de seus departamentos de futebol. Mas é uma utopia achar que isso vai funcionar.

Funciona para clubes como o Sendas (que tá virando Audax Rio), que não aceita jogador que tenha empresário. Mas para um Flamengo é difícil. Todo jogador de ponta hoje tem um procurador, um empresário ou um grupo de investimento que gerencia sua carreira.

11 – Que tipo de música prefere tocar? Há muitos pedidos de frequentadores?

AL – Toco há sete anos com meu amigo David Benigno em um bar em Cabo Frio, chamado Boulevard Pub. Tem música ao vivo nos finais de semana e, depois, a gente toca. Como é um bar e não uma boate, o som é bem comercial mesmo: a gente toca hip-hop, eletrohouse, pop-rock, funk… depende do ânimo da galera.

Eu sou meio “de lua”, mas atualmente, eu gosto mais de tocar eletrohouse. Já tive minha época de gostar mais de funk, mais de black music, mais de música nacional…

A galera sempre pede música, né? O bar tem um público bem diversificado, então a gente tenta agradar a maioria das pessoas. A gente recebe bem mais elogios que críticas, sinal que está tudo certo.

12 – Como funciona o trabalho de um DJ?

AL – Cara, eu sou DJ desde os 14 anos, passei por todas as fases, desde quando o cara ficava escondido no cantinho do salão ou em um buraco até os dias de hoje, onde DJs são celebridades e reconhecidos como artistas. Na verdade, o DJ trabalha para que os outros se divirtam. Precisa ter talento, precisa estudar, precisa gostar de música, precisa conhecer o que tá fazendo, precisa ter o “feeling” para saber o que a sua pista sente, para montar o seu set.

A tecnologia facilitou muito a vida de todo mundo, e hoje em dia, todo mundo “ataca de DJ”. Mas isso só serve pra diferenciar quem é ruim e/ou enganador de quem é bom e verdadeiramente talentoso.

Tem uns caras que me inspiram, cada um em seu segmento: Memê, Roger Lyra, André Luiz (esse, meu amigo particular, tocamos juntos em Cabo Frio na T-Club, há uns seis, sete anos), Wally… enfim.

13 – Uma canção inesquecível. Por quê?

AL – “My Endless Love”. Foi a música-tema do meu casamento.

14 – Livro ou filme? Por quê?

AL – Gosto muito de ler, mas ando sem tempo. O último livro que li e gostei muito foi a biografia do Andre Agassi. Sempre gostei mais de ler do que de ver filmes, embora tenha alguns filmes que me marcaram muito, como “Sociedade dos Poetas Mortos”.

15 – Um jogo inesquecível. Por quê?

AL – Flamengo 3 x 0 Botafogo, primeiro jogo da final do Brasileiro de 92.

Apesar de ser da geração que mesmo criança viu o grande time do Flamengo dos anos 80 jogar, esse jogo de 92 foi especial. Eu estava no Maracanã – foi uma vitória épica.

16 – Finalizando, com os agradecimentos do Ouro de Tolo, algumas poucas palavras sobre o blog ou seu autor/editor

Um blog que vale a pena ler, pela diversidade de assuntos, alguns deles não tão abordados pela “grande imprensa”. E ao Pedro Migão, a quem ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente, mas uma pessoa que nesses anos de convívio virtual sempre foi um amigo bastante solícito, um forte abraço.