Neste final de domingo, início de uma nova semana, temos mais uma edição da coluna “Orun Ayé”, do compositor e publicitário Aloísio Villar.
Hoje o tema é o crescente desinteresse da população com a seleção brasileira, afogada em um mar de grana, escândalos e, por assim dizer, uma certa arrogância.
Aproveito para disponibilizar neste post o vídeo do recente programa “Bola da Vez”, na íntegra, com o jornalista Andrew Jennings. Não deixe de ver.
Quem Liga para a Seleção Brasileira?
Essa é a pergunta que venho me fazendo há algum tempo. 
A seleção brasileira de futebol é um patrimônio do país. Algo que mexe com nossas emoções, nos dá alegrias e tristezas há mais de cem anos. Uma derrota épica como a de 1950, ocorrida para o Uruguai no Maracanã na final da Copa ou uma vitória como a de 1970 estão na história do Brasil com a mesma importância que a Independência do Brasil ou a proclamação da República. 
O brasileiro se orgulha de dizer que aqui é o país do futebol. Ninguém joga melhor que o brasileiro, como diz a música “com brasileiro não há quem possa”. A Inglaterra inventou o futebol como nós vemos hoje, mas quem fez desse esporte arte foi o brasileiro. 
Temos os melhores jogadores da história: Pelé, Garrincha, Zizinho, Didi, Gerson, Rivelino, Domingos da Guia, Zito, Coutinho, Ademir, Jairzinho, Tostão, Sócrates, Falcão, Zico, Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaucho… são tantos que perdemos as contas. 
E a nossa seleção sempre foi a melhor mesmo perdendo. Lembro com cinco anos de idade a seleção na Copa da Espanha em 1982. 
Eu, na inocência da idade, torcia contra por causa dos fogos – que faziam muito barulho – e porque quando o Brasil vencia minha família saía de carro fazendo buzinaço por toda a cidade. Como recentemente tinha passado por um pequeno acidente de carro com minha avó ficava com medo.

Aquela seleção do Telê Santana perdeu, mas entrou pra história. Era o fim do futebol arte. [N.doE.: a seleção de 82, nitidamente inspirada no Flamengo então campeão mundial de 81, era taticamente inovadora. Foi a maior que vi jogar]

Em 1986 mais velho e entendendo melhor chorei com a derrota para a França. Em 1994, uma das maiores emoções da minha vida foi a conquista da copa. Poucas vezes chorei tanto quanto no momento em que Baggio perdeu o pênalti: era a realização de um sonho. Maravilhoso ver as pessoas mobilizadas por causa das copas, ruas pintadas, vizinhos em volta da TV vendo as partidas, os fogos, a vibração.

E onde está isso tudo agora?

Venho notando que essa situação vem diminuindo. Em 2002 ainda vi, mas em 2006 já foi menos, 2010 menos ainda e agora o Brasil participou de uma Copa América na qual os torcedores estavam mais preocupados com seus clubes que a seleção. Reclamavam que seus clubes perderam jogadores para ela e atrapalhava o horário dos jogos deles

Por que isso acontece? Por que o Brasil jogou uma partida eliminatória e na hora eu saí de casa pra ir ao cinema sem me preocupar? Vários podem ser os fatores.

O primeiro deles: s seleção hoje é internacional. Poucos jogadores atuam no Brasil, fazendo assim com que os torcedores não se habituem aos jogadores. Para piorar o quadro,  a seleção mal joga no país.

Mal joga no país porque hoje nós temos uma “Seleção Brasileira S.A.”, onde o mais importante é o lucro da CBF e seu eterno presidente Ricardo Teixeira – que disse recentemente que não liga para a opinião pública nem para os órgãos fiscalizadores porque a CBF é uma entidade privada. Pode ser, mas a seleção é do povo, pelo menos era.

Falta de amor a camisa. Lembro de 2006 com Zidane “abrindo a chapelaria” em cima dos jogadores do Brasil, fazendo e acontecendo e eles ‘nem aí’. No fim da partida, o país chorava a eliminação – enquanto isso, eles trocavam camisas e batiam papo. Os jogadores agora estão todos na Europa, são amigos, ganham milhões e estão mais preocupados com seus clubes. A seleção parece ser um fardo.

E o que dói mais no coração do brasileiro: hoje o Brasil não tem mais o melhor futebol do mundo.

Há algum tempo tem jogadores comuns que não sobressaem em seus clubes – o que faz o adversário perder o medo e o torcedor perder o orgulho e a alegria. [N.do.E.: times na base jogando no 3-5-2 e a preferência pelos mais fortes em detrimento dos mais habilidosos complicam o quadro]

A impressão que passa é que o povo está de saco cheio da seleção que lhe esnoba. Jogo comum do Brasil não mexe em nada: a seleção só chama atenção agora se ganhar copa, ganhar da Argentina ou passae vergonha como domingo passado. Mesmo assim gera piadas, não revolta.

A verdade que é um casamento em crise. Mas ainda dá para resgatar o “todos juntos vamos, pra frente Brasil, salve a seleção”. Mas para isso se faz necessário um processo de reconquista do brasileiro.

E acertar uns pênaltis que faz mal a ninguém…

Orun Ayé!

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