Alexandre Souteiro é representante comercial de vinhos importados e blogueiro. Aprendeu a beber e apreciar vinhos durante os seis últimos anos, mas não se furta em ouvir os mais experientes. Fã incondicional da Argentina e dos vinhos do Velho Mundo, em especial Itália e Portugal.
Vamos ao texto de estréia da coluna, excepcionalmente publicada neste feriado mas que será quinzenal, sempre às quintas feiras.
Conheci a ‘Bodega Zuccardi’ no começo do mês de agosto, a serviço e convite da Importadora Ravin, com o intuito de conhecer um pouco mais de nosso parceiro e, claro, tomar todos os exemplares de vinhos da casa.
Bom, vamos ao que interessa.
Fizemos três degustações em um mesmo dia, durante a visita à Família Zuccardi. Uma com cinco rótulos da uva Malbec, dois da Bonardas e um da Caladoc, a segunda das Séries A, Q e Zeta, e a última da família Santa Júlia.
Falaremos um pouco sobre a segunda, mas é interessante citar a ‘prova dos cinco Malbecs’ – abaixo. Imaginem uma BR, saída da capital, com destino à região metropolitana. Um município a 10 quilômetros de distância do outro. Pois bem, a nossa degustação de Malbecs foi baseada nessa situação. Os enólogos queriam nos mostrar como cinco plantações da mesma uva, em uma distância não tão grande, geravam vinhos tão diferentes um do outro. Mistérios de Mendoza….
Sob a batuta do enólogo Ruben Ruffo, os rótulos que compõem as séries A, Q e Z são a excelência da Família Zuccardi.
Foram servidos doze rótulos durante a degustação; e destes destacamos dois da Série A, dois da Série Q e o Zeta. O primeiro vinho que se destacou foi o Série A Torrontes. Colhido no mês de abril nas propriedades de Cafayate (Distrito de Saltao, ao norte de Mendoza), este Torrontes encanta no nariz, com um misto de flores, casca de laranja, aromas herbáceos e orégano. Na boca, é muito bem equilibrado, com estrutura e a acidez característica da uva. Um vinho que se harmoniza com carnes brancas leves e culinária asiática, mas que pode perfeitamente ser aberto despretensiosamente, numa reunião em família.
O Série A Malbec mostra o poder de fogo da uva mais emblemática da Argentina. Oriundo de 3 regiões distintas – La Consulta, Vista Flores e Agrelo – este Malbec passa 70% por barrica de carvalho francês e 30% em aço inoxidável. O resultado é um misto de aromas de frutas vermelhas maduras (cereja e ameixa), além de chocolate e tabaco. Na boca, equilibrado, com taninos estruturados e a habitual persistência dos Malbecs, com um final bem longo. Ideal para carnes de caça (javali, cordeiro), e pratos de massas com molhos condimentados. Uma vinho que enriquece muito com a harmonização correta.
A degustação foi fechada com chave de ouro. Dos vinhos que degustei, provavelmente os dois melhores, mais completos do dia. Nota do autor: eu costumo dizer que o vinho bom é aquele que se adequa ao seu paladar. Mas existem alguns vinhos que estão acima do bem e do mal.
O Série Q Tempranillo é um vinho espetacular. De uvas do distrito de Santa Rosa, o Q Tempranillo 2007 passa um ano em barrica de carvalho americano e, depois, um ano na garrafa. As frutas vermelhas predominam nos aromas, em especial ameixa, figo e marmelo. Na boca, apresenta-se com uma intensidade elegante, com excelente equilibrio entre fruta e madeira. Os taninos estão redondos, e o final é persistente, mas sem ser agressivo. Um vinho que merece ser aberto em ocasiões especiais. Enriquece quando harmonizado com algumas carnes de caça e queijos mais fortes. Sem dúvida, uma das grandes estrelas da Família Zuccardi.
Outra nota do autor: durante a degustação, provamos as safras 2007 e 2008. No dia seguinte, fomos brindados com uma garrafa da safra 2001. Este foi, para mim, o vinho inesquecível da viagem.
Para completar, degustamos a grande estrela da Bodega: o Zeta, safras 2006 (uma das melhores safras de Mendoza) e 2007. O Zeta 2006 tem 64% de uvas Malbec (região de La Consulta) e 36% Tempranillo (Santa Rosa). Já o Zeta 2007 tem 68% de uvas Malbec, 18% Cabernet (Tupungato) e 14% Tempranillo. O Malbec passa por um ano em barricas de carvalho francês e o Tempranillo por catorze meses em carvalho americano.
Depois de pronto, mais dois anos de repouso na garrafa. Um vinho que necessita de decantação, mas que vale cada segundo de espera antes de ser servido. No nariz, é rico e intenso em aromas de frutas como goiaba e ameixa, além de pimentas, tabaco e chocolate. Na boca, mostra-se de uma elegância irrefrutável. Com uma estrutura perfeita, o Zeta muito equilibrado entre fruta e carvalho. Seu final é longo e profundo. Da série de vinhos que você sentirá seus taninos por algum tempo após a degustação, mas de forma muito elegante, sem ser agressivo. Para tornar o Zeta inesquecível, cabe o acompanhamento de carnes vermelhas com molhos temperados e caças como javali. Um vinho que merece um jantar elegante, com cerimônia para ser servido.
Caso tenham alguma dúvida, estou à disposição no e-mail alex.souteiro@gmail.com. Sou um iniciante no mundo do vinho, e o fator mais importante de todos é tomar o vinho sem preconceito. Admirar suas características, seus aromas, entender a persistência do vinho na boca (de uma forma leiga, é o rastro que o vinho deixa enquanto bebido). Tudo isso requer tempo, paciência e muitos vinhos. Volto a dizer: existem, sim, alguns vinhos que estão acima do bem e do mal. Mas existem aqueles que você gosta, que se encaixam no seu paladar – não existe uma regra rígida.
Para aproveitar melhor uma degustação de vinhos, vão aqui algumas dicas para os ‘enoleigos’:
1 – Beba muita água: é simples. O álcool desidrata, e a água repõe. Quase matemático. Convém dizer que a água não impedirá que você se sinta um pouco mais alegre. Mas certamente ajudará no “day after”.
2 – Perfume: Imagine a cena. Sua esposa foi com você à uma degustação, e pôs aquele perfume que lembra o aroma de melancia. Sentados à mesa, te servem um vinho qualquer. Qual aroma você sentirá: o do vinho ou do perfume de melancia? Ou seja, perfumes e afins atrapalham – e muito – a descobrir os aromas tradicionais da bebida.
3 – Beber ou eliminar: toda degustação tem um baldezinho ao lado das taças. Uns dizem que a etiqueta manda cuspir (literalmente). Outros, que é para beber. Eu vos digo: faça o que lhe convier. Cada um tem sua forma de entender a persistência, os taninos, a acidez. A etiqueta? Oras, lugar de etiqueta é na roupa.
Todo dia é dia de aprender um pouco sobre vinhos.
Parabéns Alex do Triplex! Como sempre mandou muito bem no texto. Eu que nada entendo de vinho fiquei com vontade de provar o Tempranillo. E valeu pelas dicas no fim. E pior que já vi gente misturando vinho com coca-cola…
Não conheço vinhos, a minha “cachaça” é outra, mas gostei muito das dicas do artigo. Posso precisar um dia. Boa sorte!
Mais uma ótima coluna, assinada por um grande Rubro-Negro. Parabéns ao Ouro de Tolo e ao Alex do Triplex.