Eu iria escrever sobre o tema, mas a coluna Bissexta, do advogado Walter Monteiro, traz o assunto de uma forma muito mais brilhante. Só tenho a dizer que neste episódio ficou claro o ódio de classe e o sentimento de egoísmo e exclusão de certos setores da sociedade brasileira – a ponto de até órgãos de imprensa conservadores terem sido obrigados a fechar a área de comentários de seus sites dado o ressentimento destilado.
Lamento, também, o comportamento de certos jornalistas torcendo abertamente pela morte do ex-presidente. É um bom sinal de que o jornalismo político no Brasil está cada vez mais político-partidário e cada vez menos jornalismo.
Mas o ex-presidente é mais forte e vai sair desta. Força, Lula!
Vamos ao texto.
A Raiva Que Não Passa do Presidente Operário
Fiz um raio-X da face. Eu e meu médico quase caímos para trás quando vimos o resultado. Há um espaço mínimo para as minhas vias respiratórias. É uma surpresa que eu nunca tenha me queixado de dificuldade para respirar, pois tenho um quadro claro de rinite não alérgica. Me receitou um remédio e disse que eu deveria notar uma melhora na respiração.
Fui na farmácia munido da receita. A vendedora me perguntou se eu ia comprar o remédio na “farmácia popular”. Frequentador assíduo de farmácias, sempre em busca de fraldas e leite infantil, já tinha visto dezenas de cartazes dessa tal farmácia popular, mas não tinha a menor ideia de como funcionava. A moça me disse que era um programa do Governo, que fornecia gratuitamente, ou com desconto substancial, uma série de medicamentos. O meu, por exemplo, sairia por um terço do preço.
Eu já estava pronto para lamentar que eu não deveria ser elegível ao benefício, até porque não tinha cadastro, inscrição, cartão de identificação ou coisa que o valha, nem estava com vontade de enfrentar um exército de burocracia para receber o desconto, quando veio o gerente me explicar melhor.
Ele me pediu a receita e a minha identidade. Digitou algumas coisas no computador, sem que eu visse do que se tratava. Imprimiu um recibo e me fez assinar. E me vendeu o remédio por um terço do preço, dizendo que daqui a 30 dias eu poderia comprar outro em qualquer farmácia conveniada. Nunca imaginei que fosse tão fácil e tão bom esse programa, que dá desconto até para gente que, como eu, claramente não precisa desse apoio.
Fiquei pensando nesse minúsculo episódio pessoal ao ler as raivosas manifestações da tigrada na web, exigindo que o ex-Presidente Lula vá se tratar pelo SUS.
Para meu gosto pessoal, a saúde pública brasileira está parecida com o time do Flamengo – nem tão boa que a gente possa sentir orgulho, nem tão mal que a gente chegue a sentir vergonha. A imprensa, como é o seu papel, destaca, sempre, as mazelas mais severas, mas há avanços sutis entre o que já vivemos tempos idos e a minha historinha revela um deles.
Muita gente acredita que saúde pública é sinônimo de hospital público.
Não é.
O Sistema Único de Saúde se baseia, essencialmente, na descentralização das atividades desempenhadas pelos governos da União, Estados e Municípios. E a rede privada participa do sistema de forma complementar, mediante convênio. Aliás, dos cerca de 6.500 hospitais que atendem ao SUS praticamente a metade pertence à iniciativa privada.
Portanto, essas manifestações demandando ao ex-Presidente que vá se tratar em um “hospital público” dão a medida do grau de desconhecimento de gente que se acha intelectualmente diferenciada, mas sequer sabe o que se passa no país e onde a população busca serviços públicos de saúde.
Essa gente não tem pudores de manifestar seu preconceito de modo explícito. Nunca, nunca mesmo, se viu mobilização semelhante para que qualquer um dos milhares de políticos fosse obrigado a passar por situação semelhante.
Depois que a gente atinge uma certa idade (uns 30 anos), ir ao médico, fazer exames de rotina e tratar alguma coisa vira uma constante. Idade, vale dizer, já alcançada por todos os políticos. E estão todos eles aí se tratando com seus respectivos médicos particulares, nos hospitais e clínicas particulares, sem despertar qualquer estranheza nos ‘neocons’ apatetados e desinformados.
Tudo isso porque a raiva do presidente operário não passa. Nem uma doença grave ou um drama pessoal arrefece os ânimos dos ressentidos.
Mas eu vou ser generoso e dar um alento à mesquinharia alheia.
Os políticos brasileiros dividem suas preferências entre os hospitais Albert Einstein (onde faleceu o ex-Presidente Itamar Franco) e o Sírio Libanês (onde Lula está se tratando). Detesto ser estraga prazeres da campanha sórdida de vossas senhorias, mas ambos são um dos muitos hospitais conveniados da rede SUS. Ressalvo que o Albert Einsten tem uma cobertura mais ampla para os usuários do SUS e o Sírio Libanês atua apenas em casos mais restritos
Para poupar trabalho, deixo o link da página do Ministério da Saúde mostrando que há sim hospitais de boa qualidade à disposição de qualquer um.
Sou obrigado a concordar que o digamos “padrão de atendimento” possa não ser o mesmo para os pacientes pagantes e para os não pagantes. Mas essa é uma outra discussão, inclusive de natureza ética. Capaz inclusive de requerer um artigo exclusivo sobre a famigerada “dupla porta”, que é o apelido que se dá à prática de encaminhar os pacientes particulares a um setor do hospital e a turma do SUS a outro setor menos luxuoso.
O que importa é saber que ter hospitais de qualidade, ao menos em tese, não é uma exclusividade de ex-presidentes. Mudem de assunto, corvos! Vamos torcer pela saúde de Lula.
Concordo que existem certas questões que transcendem a discussão político-partidária, e a saúde e a vida de um ser humano como ele se inclui nisso.
Ou seja, por mais que não se goste do Lula, desejar-lhe o mal obviamente é algo repudiável.
Mas não vejo essas manifestações com tamanha perplexidade, nem como sinal de preconceito. Em alguns casos, talvez.
Mas em muitos, me parece ser mera reação irônica da população às inúmeras bravatas do ex-presidente acerca da saúde pública no Brasil. “A saúde pública no Brasil é de primeiro mundo” dizia ele, em seu insaciável gosto pela megalomania. Ora, se assim ela é, então por que não se tratar pelos Sistema Único de Saúde?
Tenho convicção de que, no fundo, ninguém está desejando ao ex-presidente que ele sofra ou que não lhe seja dispensado o melhor tratamento para sua moléstia.
Então não vejo motivo para tanto espanto. Provavelmente se não fossem as bravatas em torno do assunto, não teríamos visto essa reação.
Por fim, cabe acrescentar que grandes hospitais podem mesmo fazer parte do SUS, mas a questão é: há acessibilidade da grande massa a esses centros de excelência? Sem dúvida, ela é muito difícil, senão impossível. Isso numa realidade onde várias cidades brasileiras sequer contam com seus próprios hospitais.
Em um país que arrecada trilhões de reais em impostos, nossa saúde pública ainda está abaixo da crítica e do admissível.
No mais, saúde ao ex-presidente. Que ele se recupere plenamente e que largue os vícios que o sujeitaram a essa situação.
Não, Marcelo, o que se viu e muito foi ódio de classe. A questão do SUS é apenas uma forma de verbalizar esta raiva.
abs
Tenho nojo das assim chamadas “zelites” brasileiras. Intolerantes, sectárias, atrasadas, preconceituosas, escravocratas, colonizadas. Pobre de uma Nação que tem lideranças tão fracas e mesquinhas. Como alguém disse, ninguém ficaria de mimimi se o doente fosse um tucano de alta plumagem. Ainda por cima, desinformados. O ridículo chega à sua expressão máxima neste caso. Até a Folha SP, através do Dimenstein )http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gilbertodimenstein/999070-o-cancer-de-lula-me-envergonhou.shtml), ficou envergonhada.
Bem, em homenagem ao nome do blog, digo que não há nada mais “tolo” que essa defesa do Lula com um preconceito às avessas… rssssss
Raiva por ser um ex-operário?? Não me façam rir, senhores… rsssssss
A raiva talvez seja pela desfaçatez dele em defender o indefensável por diversas vezes… Talvez por ver em um ex-operário um comportamento tão condescendente com a corrupção, quando sabemos que ela é uma das causas principais, perdendo para as más administrações, no sucateamento das nossas escolas e hospitais… E por aí vai.
Não vi nenhuma defesa em muitos dos que consideraram sem propósito (e é, tecnicamente…) essa campanha do Lula se tratar pelo SUS, quando o FHC foi para a França passear com o seu próprio dinheiro, após seu mandato. Na verdade, os mesmos que criticaram sem sentido, defendem o Lula, coitadinho, perseguido injustamente, pelo simples fato de que este já foi um operário…
Lula merece tudo, inclusive admiração em muitas coisas, e raivas em outras, só não merece é pena. O fato de ser um ex-operário não o exime de nada, pelo contrário, só aumenta sua responsabilidade.
Como ser humano que é, que vença e lute essa briga com a doença. Desejo o melhor para ele. E acharia interessantíssimo que os nossos governantes experimentassem por alguns instantes, o que a maioria do povo experimenta, nas escolas e hospitais públicos. Quem diz que os hospitais públicos não são nem muito bons nem muito ruins, é porque com certeza nunca precisou de muitos na vida… E graças a Deus. Porque experimente perguntar a quem precisou muito na vida, que você vai ver que o que realmente é bom pra tosse, como dizia vovó…
José de Alencar, um homem admirável em vários os sentidos, lamentou por diversas vezes, e claramente de forma sincera, saber que a maioria da população não tem o tratamento que ele pôde ter… Será que veremos tal comportamento no Lula? Acho difícil…
Corrigindo: “José Alencar, um homem admirável em vários sentidos”
José de Alencar também é digno de admiração, mas por outros motivos… rssssss