Luiz Carlos Máximo, 50 anos, nascido e criado na Vila da Penha. Compositor com músicas gravadas por vários destaques da MPB e parceiro de nomes como Wanderley Monteiro e Paulo César Pinheiro. Tricolor (ninguém é perfeito) e portelense.
Máximo também é um dos autores do antológico samba que a Portela levará para a Marquês de Sapucaí em 2012, “É feito uma reza, um ritual”, tema de três posts neste blog. E a campanha a favor deste samba acabou nos aproximando, em especial pelo meio virtual.
Luiz Carlos Máximo é o entrevistado de hoje da coluna “Jogo Misto” do Ouro de Tolo.
1 – Bom, vamos iniciar pelo motivo de nossa amizade. Como surgiu o samba campeão de 2012?
LCM – Eu e o Toninho Nascimento, que éramos fundamentalmente responsáveis pela letra, conversamos sobre o estilo de samba que pretendíamos e vimos que estávamos na mesma sintonia. Iniciamos o processo tanto de letra como melodia. Mostramos ao Wanderley o que já tínhamos feito e o espírito que queríamos para a composição. O Wanderley entendeu, e juntos compusemos.
2 – E de onde surgiu a idéia de se fazer uma composição que fugisse aos atuais padrões de samba enredo?
LCM – A insatisfação com os rumos do samba enredo já vem sendo manifestada há muito tempo.
E neste ano tive a oportunidade de assistir a dois seminários sobre o tema, onde se discutiu sobre essa insatisfação e as causas. Percebi, principalmente nos plenários dos eventos, uma ansiedade grande por mudanças.
O que afligia a mim e aos meus parceiros também acontecia com os admiradores do gênero. Discutimos isso e resolvemos tentar fazer algo que saísse da mesmice. E o enredo facilitou a tarefa.
3 – O samba não tinha uma estrutura empresarial por trás. Como se montou a estrutura necessária para a disputa? Quanto aproximadamente a parceria gastou até a vitória final?
LCM – Com muitas dificuldades conseguimos gravar o samba, mas no dia da inscrição ainda discutíamos se iríamos participar da disputa. Apesar de algumas boas medidas da direção da Portela terem diminuído bastante os custos dos compositores (proibição de alegorias, competição curta e ingressos para torcida), não tínhamos como arcar com as despesas que são necessárias a fim de se disputar para valer.
Resolvemos então colocar o samba e apostar que a qualidade da composição atraísse pessoas amigas, que acabaram nos ajudando [N.do.E.: de forma modestíssima, uma delas foi este blogueiro]. O custo ficou em torno de R$ 25 mil.
4 – Facilitou o fato do carnavalesco da escola ter dito que o samba não precisaria ficar “engessado” à sinopse?
LCM – Foi fundamental. Não só a sinopse como a liberdade que o Paulo Menezes nos deu quando conversamos com ele sobre a nossa ideia. O Candeia já havia dito´: “A arte é livre e aberta à imagem do ser criador”.
5 – Vocês imaginavam a repercussão que o samba teria?
LCM – Jamais.
Quando terminamos a composição ficamos bastante felizes com o resultado. Mas eu achava que o samba iria causar dois tipos de reação: uns amariam e outros odiariam. Porque – felizmente errei na minha avaliação – achava que uma parte dos admiradores de samba enredo já estaria com os ouvidos padronizados de uma tal forma que rejeitariam um samba diferente do que vem sendo composto.
Mas que nada. Após a inscrição, à noite em casa, fui ver a repercussão. Não dormi mais. Os comentários nos sites especializados, as mensagens por email, nas redes sociais e por telefone foram muito emocionantes. Lembro-me que o Naldo, um cara experiente em disputa de samba enredo, me ligou na madrugada, se desculpando pelo horário, emocionadíssimo com a repercussão.
A avalanche começou no primeiro dia. E os comentários eram bons demais. Chorei muito.
6 – Qual a avaliação que você faz do modelo atual de samba enredo?
LCM – Olha, antes de falar do samba enredo atual é preciso discutir as dificuldades que são colocadas para os compositores atuais.
O andamento, que já é um tema batido, é o primeiro obstáculo. A aceleração é inimiga da beleza da melodia. Outro fator que complica são os enredos. As escolas em busca de patrocínios para atender a demanda do carnaval luxuoso escolhem enredos que dificultam – tanto na feitura da letra como também não são musicais.
A forma de disputa também é ruim. A necessidade de um alto investimento financeiro afasta ótimos compositores e inventa outros. E mesmo quando se faz um esforço a disputa muitas vezes é desigual, em razão dos, digamos, “conglomerados” do samba enredo.
Tem também uma confusão estética que se faz, que é atualmente hegemônica e é prejudicial ao gênero, e é preciso que se dissipe. Acham que alegria só é encontrada em notas agudas.
Então, se você faz um samba com determinados trechos melódicos com notas graves, dizem que afunda e perde a alegria. Tem na história do samba enredo vários sambas antológicos com notas graves e não são tristes. O samba sem a combinação necessária de notas agudas e graves fica muito igual, linear.
Certa vez o compositor, músico e arranjador Claudio Jorge disse assim: “As escolas deixaram de ser de samba pra ser de carnaval”. Ou seja, o negócio não é sambar mas pular carnaval. Tá bom que o andamento em consequência da grandiosidade do número de componentes e o tempo de desfile tenha causado isso. Mas temos que sempre tentar não deixar perder a cadência do samba. O samba não é para pular e sim para dançar.
O carnaval do Rio é com o pé no chão. Não pode perder essa característica.
7 – Você vem disputando sambas enredo na Portela desde que ano? Como chegou à Ala de Compositores da escola?
LCM – Em 2004, pelas mãos do então diretor cultural Carlos Monte, que nos conhecia das rodas de samba, sabia que eu e o Wanderley Monteiro éramos portelenses e nos convidou para integrar a ala. Fizemos um samba para a disputa de 2005, mas fomos cortados na fita.
Ficamos chateados, mas resolvemos entrar pela porta da frente, como antigamente, nos inscrevendo no festival de samba de terreiro. Chegamos à final e entramos definitivamente para a ala. No festival seguinte fomos campeões. O Gilsinho gravou este samba (“Novo Enredo) num CD que foi produzido pela Secretaria Estadual de Cultura.
8 – Além deste ano você venceu em 2009 e 2011, com parcerias ligeiramente diferentes. Quais as diferenças entre estas duas disputas e as de 2012?
LCM – Composição é como filho e toda vitória é sagrada. Mas esse ano teve um sabor especial por tudo que envolveu esse samba e essa disputa.
E cito as razões: É um samba que traduz fielmente a nossa trajetória musical e a nossa concepção estética; a luta contra as dificuldades financeiras; a participação dos portelenses na quadra, na internet, em defesa do samba que queriam foi também muito emocionante; a repercussão, não só pela natural vaidade de ver sua obra elogiada, mas em virtude da demonstração que o gosto musical não está pausterizado, e que há espaço para que o compositor possa criar livremente.
Essa vitória, além de ter sido ótima para a Portela – a manifestação na quadra após o resultado e a alegria da escola demonstram isso – também tem a importância de abrir janelas e portas para a ousadia. Tudo isso deu a essa vitória o diferencial sobre as outras.
9 – Em 2008 (acima) seu samba era considerado por muitos o melhor da disputa, mas não se sagrou vencedor. Como era aquela composição? O que faltou para vencer?
LCM – Em todos os sambas anteriores a parceria era só eu e o Wanderley. Nessa, nos juntamos ao Toninho Geraes e o Toninho Nascimento. E o resultado musical foi maravilhoso. Tem gente que canta esse nosso samba até hoje.
Mas ainda éramos ‘crus’ na disputa. Depois argumentaram que perdemos porque nosso samba não retratava carro a carro do que a escola apresentou na avenida. Mas a repercussão desse samba também foi maravilhosa. Lembro-me que levamos para a final somente dois ônibus e uma van (risos). Quando o samba foi apresentado a quadra superlotou. Um grande número de portelenses, que nem conhecíamos, aderiu.
A Portela tem isso. E são essas pessoas que desmentem quem diz que o amor pela escola não existe mais. Vai lá na Portela que verá o contrário.
10 – Qual a avaliação que faz do momento atual da Portela? O que falta, a seu ver, para a escola se tornar novamente campeã do carnaval?
LCM – O momento não poderia ser melhor.
O samba é a alma da escola. E a escolha deste samba trouxe um outro astral para a Portela. A escola está unida e feliz. Esse é um fator importante para uma agremiação que quer ser campeã. E o portelense, com seu passado de glórias, tá com sede de vitórias. E unido e alegre é uma potência.
E o que é mais importante nisso tudo, é que o carnaval de hoje o que predomina é o visual, e a música virou descartável. Mas o samba é o samba. Quando tudo parece estagnado, o samba vem e demonstra que ele é o “senhor” das escolas.
11 – Você nasceu e foi criado na Vila da Penha. Como se tornou portelense?
LCM – Pela proximidade do bairro com Madureira, na Vila da Penha tem muito portelense e imperiano. Meu pai torcia pelo Império, por exemplo [N.do.E.: mais um ponto em comum com este blogueiro: somos portelenses filhos de pais imperianos].
Mas eu me decidi pela Portela por causa de um LP do Paulinho da Viola, que era do meu pai. Na adolescência, na contramão dos gostos do meus amigos do bairro, ouvia música brasileira. E aí peguei o LP “Foi um rio que passou em minha vida” e não devolvi mais. Passei a me interessar pela trajetória do Paulinho, meu ídolo até hoje, e me decidi pela Portela.
Quando conheci as obras dos outros compositores portelenses, principalmente da Velha Guarda, o amor pela escola se concretizou. Pra você ver a importância que tem os sambas de terreiro. Eu me tornei Portela não pelo samba enredo, mas pelos sambas chamados de “meio de ano”.
12 – O que é ser portelense?
LCM – Eu poderia responder com um samba em parceria com o Wanderley Monteiro:
“Um certo dia/ Alguém me perguntou/Por que eu sou Portela/ Eu respondi de imediato/ Que o samba lá é bom de fato/E a escola é a mais bela/ Falei dos seus fundadores/ Dos poetas e cantores/ Da nossa velha jaqueira/ Das pastoras e passistas/ Mestres-salas e ritmistas/Baianas e porta-bandeiras/
Eu juro que eu sei/Que impressionei aquele interlocutor/Mas depois me perguntei/ Se tudo explicava esse meu grande amor/Vaguei e divaguei e não cheguei/ A nenhuma conclusão/ Hoje se alguém me perguntar eu digo então/Não existe o que define uma paixão’.
Ser Portela é ter “os pés e pescoço ocupados”, como disse Paulo da Portela, que resumiu os valores intrínsecos de um portelense.
13 – O que o Luis Carlos Máximo faz fora da composição musical e do carnaval, como profissão? Como conciliar as atividades?
LCM – Sou jornalista e estou voltando a trabalhar no serviço público federal. Conciliar o tempo não é um grande problema, até porque nunca me aventurei a cantar, fazer shows. E sempre encontro tempo pra compor.
14 – Você foi parceiro daquele que a meu ver é um dos únicos gênios vivos da música brasileira, Paulo César Pinheiro. Como foi compor em parceria com ele?
LCM – A parceria com o Paulo César Pinheiro veio por meio de um soneto que ele escreveu em homenagem ao Aldir Blanc (“Velho Amigo”), e foi publicado numa revista.
Eu li, gostei de imediato e tentei musicar. Gostei do resultado e muito tempo depois fiz uma gravação com a cantora Luiza Dionizio e levei para ele. Passado um tempo ele me ligou me parabenizando e autorizou a parceria.
Palavras que eu jamais vou esquecer: “Rapaz, parabéns. Ficou ótima a música. E olha que um soneto é difícil de musicar. Tenho vários parceiros que não conseguiram. Mas você conseguiu. Tá autorizada a parceria.” Depois nos encontramos outras vezes. E a Luiza gravou no lindo CD “Devoção”.
15 – Paulo da Portela anda relativamente esquecido nos dias de hoje. Qual foi a importância dele para o mundo do samba e a Portela?
LCM – Paulo, além de ser um dos fundadores da maior escola de samba (risos) e um dos grandes compositores do samba, é uma das maiores lideranças populares surgidas no país. Paulo lutou pelo reconhecimento do samba e pela dignidade do sambista.
Muitos dos avanços conquistados pelo samba e sua gente, e das próprias escolas de sambas, se deve a este cidadão portelense.
16 – Qual a avaliação que você faz da gestão de Peter Siemensen em seu Fluminense?
LCM – Não digo decepcionante porque não votei nele e logicamente não achava que seria a solução para o meu Tricolor.
Mas como o Fluminense vem há muito tempo com gestões horrorosas, achei que ele se destacaria rapidamente. Afinal, para ser melhor do que o Horcades não é preciso muito. Mas é mais do mesmo. Pode fazer uma reforminha aqui outra ali, mas está longe de ser o presidente que o Fluminense precisa, como muitos acreditavam na época da eleição.
17 – E sobre a política brasileira?
LCM – O pragmatismo e a nova forma de militância que predomina na maioria da esquerda brasileira me fazem ficar observando de longe. Eu não acredito em mudanças que não passem pelo agente transformador, ou seja, a atuação nas regiões em que se localizam pessoas que “não têm o que perder a não ser suas cadeias”.
18 – E o que acha da questão do direito autoral no Brasil? Em sua avaliação, qual é o papel do Ecad neste processo?
LCM – É vergonhoso.
Ecad, editoras/gravadoras, associações de compositores, rádios, TVs. É tudo parte de um único processo em que o criador é prejudicado. No samba, onde a maioria dos autores é de gente humilde e pouco esclarecida sobre esse assunto, o prejuízo é maior ainda.
Quando um compositor é conhecido, com espaço na mídia, e bota a boca no trombone, parece que o problema individual é resolvido. Porque, logo depois, você não vê mais nada no jornal, nos meios de comunicação, e o tal compositor não fala mais nada. É estranho.
Agora, eu não comunguei dessa campanha contra o Ecad. O órgão sempre foi conhecido por ser um antro de irregularidades. Mas descobriram isso agora? Por que a Globo de repente começou a denunciar o Ecad? Será que não tem a ver com o fato da pendenga judicial em que a emissora não aceita pagar os direitos autorais como têm que ser pagos?
E além disso existe um movimento em defesa de um projeto de “flexibilização dos direitos autorais”, que, caso seja aprovado, será a ‘farra do boi’. Usam esse termo “flexibilização”, como usaram em relação aos direitos trabalhistas, pra esconder o significado correto que é o fim dos direitos.
Mas por isso o Ecad tem que continuar deste jeito? Claro que não. Mas isso compete aos maiores interessados que são os autores, que estão sendo prejudicados há muito tempo. Mas reconheço que a briga é difícil pela falta de organização dos compositores, ignorância no assunto e pelo adversário que tem pela frente.
Essa discussão remete à questão da concessão dos meios de comunicação, inclusive.
19 – Um samba inesquecível. Por quê?
LCM – “Foi um rio que passou em minha vida”, por tudo que já expliquei. Samba enredo, cito o “Lapa em Três Tempos”. Pra mim, o maior da minha escola.
20 – Um desfile inesquecível. Por quê?
LCM – Em 1995. A Portela veio linda, emocionante e foi a volta do Paulinho da Viola à escola. O resultado do carnaval foi criminoso.
21 – Livro ou filme? Por quê?
LCM – Pergunta simples, mas difícil.
Vi e li coisas excepcionais. Então vou citar os mais recentes. Estou lendo “Jogo Sujo: O mundo secreto da FIFA” do jornalista inglês Andrew Jennings e curtindo muito o cinema argentino.
22 – O que pensa da literatura disponível sobre carnaval?
LCM – Tem pouca coisa pela importância que tem o carnaval para o brasileiro. A melhor coisa recente sobre o tema que eu li foi o livro sobre samba enredo do Luiz Antonio Simas e Alberto Mussa [N.do.E.: já resenhado neste blog].
23 – Qual o recado que você daria aos portelenses leitores deste blog?
LCM – Portelenses, vocês fizeram história nesta disputa. Agora, avante portelense para a vitória!
24 – Finalizando, com os agradecimentos do Ouro de Tolo, algumas palavras sobre o blog ou seu autor/editor.
LCM – A internet a cada dia se firma como um dos mais importantes veículos de comunicação. E como no rádio, no jornal, na TV, tem coisas muito boas e besteiras. E é bom ser livre para optarmos.
O blog Ouro de Tolo é uma das boas coisas da internet e o dono da área é portelense de verdade. Tem um grave problema que é torcer para o futebol da dissidência tricolor. Mas a gente vai levando-o com a “barriga”.
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