A grande notícia midiática do último final de semana foi a “invasão” da favela da Rocinha, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Localizada em ponto nobre, era um dos maiores faturamentos de venda de drogas da cidade e vinha sendo mantida fora do projeto das UPPs.
Setores da grande imprensa e mesmo especialistas saudaram tal fato como alvissareiro, revolucionário e outros adjetivos semelhantes. Entretanto, há alguns pontos que se devem analisar cuidadosamente.
O primeiro deles foi a estranhíssima prisão, na última semana, de Nem, chefe do tráfico no local. A versão apresentada para sua captura me pareceu – e a policiais e jornalistas especializados também – no mínimo incoerente com todo o histórico do bandido.
Estas mesmas fontes suspeitam que Nem, que deteria segredos comprometedores para autoridades, celebridades e empresários, teria feito alguma espécie de acordo a fim de ter sua segurança preservada. Com quem ou por que, não se sabe. Mas muitos especialistas apostavam que ele não sairia vivo deste episódio.
Outro ponto é se saber que a ocupação pela Polícia Militar e pelas Forças Armadas não irá resolver os problemas de segurança do lugar. Basta ver o que está ocorrendo hoje no Complexo do Alemão, alvo de excelente matéria na Carta Capital esta semana. A opressão do tráfico foi substituída por uma ocupação militar, com ainda restrições ao direito de ir e vir e diversos episódios de autoritarismos e abusos diversos.
Cabe estender o projeto das UPPs além da ocupação militar e estabelecer uma espécie de ocupação social nas comunidades. A presença ostensiva de policiais na comunidade é paliativa: necessária para a expulsão – ou diminuição do tráfico, mas ineficaz a médio e longo prazo. Sem alternativas de geração de emprego e renda para os habitantes destas o espectro do tráfico pode sim se revigorar.
Além disso, há o espectro das milícias a se considerar nesta questão. Por mais que a ocupação pelas Forças Armadas – que, aliás, é inconstitucional, mas esta é outra história – dure de forma indefinida, em algum momento a Polícia Militar terá de assumir este papel. Como o quadro de pessoal é limitado, pode-se abrir campo para a conquista da Rocinha pelas milícias, que acabam sendo até piores que o tráfico. O mesmo vale para o Complexo do Alemão.
E isto ressalta outro problema do modelo das UPPs. Com este modelo onde há uma ocupação indefinida em termos temporais, ainda que esteja se ampliando o número de Policiais vai chegar um momento em que o número necessário será inviável para haver UPPs em todos os morros e ainda atender ao policiamento do restante da cidade. O modelo sem dúvida alguma representou um avanço em termos de política de segurança pública, mas necessita não ser um fim em si.
Outro ponto a ser ressaltado nesta ocupação foi o fato de terem avisado com imensa antecedência que a Rocinha e o Vidigal seriam ocupados. Obviamente, facilitou a fuga de traficantes e permitiu a maus policiais ganharem dinheiro protegendo estas fugas. Com que objetivo isto foi feito? 
Sinceramente, não entendo.
Também vimos as mesmas matérias na imprensa sobre a “vida de luxo” que os traficantes levavam. Toda ação policial em favela inevitavelmente gera reportagens neste estilo. Entretanto, jamais vi uma matéria sobre a vida dos verdadeiros chefões do crime, que vivem no asfalto – e, geralmente, são pessoas acima de qualquer suspeita – ou o leitor acha que um traficante que mal tem o ensino fundamental vai negociar cargas de produto com estrangeiros que sequer o português falam, entre outras coisas?
Ainda que eu não seja especialista em segurança, me parece claro que os “Nems” da vida não passam de gerentes de quem realmente manda. Ou “buchas”, dependendo da situação.
Ou seja, a ocupação da Rocinha, embora importante, não será esta panacéia que se convencionou mostrar. Há um longo caminho a ser percorrido e ainda há que se encontrar uma forma de transformar as UPPs de ocupação de zona de guerra em algo sustentável.
Finalizando, a meu ver a indisfarçável euforia da Rede Globo com a ocupação tem a ver com o fato de que ela, como fornecedora quase que monopolista dos serviços de tv a cabo, passará a ter um novo mercado para desbravar. Não que eu ache certo a “gatonet” – que já foi tema de post anterior – mas a atuação da emissora ultimamente vem subordinando o jornalismo aos interesses comerciais e políticos de seus líderes. Este é mais um exemplo clássico.
Vale lembrar, também, que a questão salarial da Polícia Militar carioca está longe de uma solução satisfatória. Este sim é um movimento que poderia melhorar bastante a qualidade do atendimento ao cidadão. Menos pirotecnia e mais ação efetiva, às vezes, ajudam.
(Foto: O Dia)