Vamos ao texto.
A Rebeldia Sem Causa dá as Caras na USP
Um ou dois anos antes do meu ingresso na UERJ os estudantes botaram a PM para correr. A ditadura militar vivia o seu crepúsculo e a mobilização pelas Diretas animava as universidades Brasil afora.
O Proderj, empresa de processamento de dados do governo fluminense, ocupava o segundo andar do Campus da UERJ. Seus empregados decidiram entrar em greve e armaram um piquete ferrenho para impedir a entrada dos trabalhadores do turno da noite. A direção da empresa resolveu chamar a polícia para reprimir os grevistas.
Só que os estudantes, que mal sabiam que uma estatal era sua vizinha, desconfiaram que a PM tinha ido até lá por conta das mobilizações políticas da época. O boato se espalhou rapidamente e o DCE conseguiu parar as aulas, reunindo uma multidão na entrada da universidade pronta para resistir à ocupação.
Em menor número e sabedores que um confronto indesejado com estudantes acarretaria consequências muito graves, a PM recuou e bateu em retirada. Dizem até que o então Secretário Vivaldo Barbosa teria ido a UERJ no dia seguinte pedir desculpas às lideranças estudantis e desfazer o mal entendido. Todo militante do movimento repetia essa história com orgulho.
Muitos anos depois eu me envolvi em um segundo episódio relacionado à polícia na universidade, quando fazia o meu MBA na UFRJ, no campus da Ilha do Fundão. Em 2002 o Rio de Janeiro vivia um de seus muitos momentos de pânico na área de segurança pública e arrastões nas Linhas Vermelha e Amarela tinham se tornado frequentes. Como nossas aulas terminavam ao anoitecer e alguns colegas já haviam sido assaltados, os alunos pressionaram a direção da universidade para aumentar o policiamento no campus, pois ninguém se sentia confortável para sair de lá às 19h. A universidade, polidamente, respondeu que não tinha ingerência sobre as rotinas policiais e ofereceu uma mudança no calendário das aulas, para que saíssemos de lá ainda com dia claro, o que acabou ocorrendo.
Fiz esses dois relatos pessoais para ilustrar que a presença da polícia dentro de um campus universitário não pode ser tratada como um dogma. É óbvio que se ela vai até lá para interferir em aspectos políticos é um dever cívico da estudantada resistir até o limite de suas forças. Mas, se ao revés, a PM ingressa no campus para cuidar da segurança pública, só nos resta apoiar.
Eu não conheço a Cidade Universitária da USP, por isso tenho medo de falar besteira. Agora, se o seu traçado interno guardar alguma semelhança com a Cidade Universitária da UFRJ na Ilha do Fundão (o que o mapa divulgado na Internet sugere), eu não sei como se pode conceber que por ali se transite à noite sem policiamento.
Dada essa constatação, é chocante o método empregado pelos alunos da USP para rechaçarem a presença da PM no campus. Tudo começou com a tentativa de prisão de três alunos de História, que estariam consumindo ou portando maconha. Para evitar que os alunos fossem conduzidos à delegacia, a turba resolveu simplesmente ocupar o prédio da faculdade e depois o da reitoria. E os estudantes estão lá, mesmo depois que a Justiça determinou a reintegração de posse, em nome da suposta autonomia universitária.
Mas, afinal, o que querem esses estudantes?
Ninguém sabe ao certo. O DCE da USP, que dá toda pinta de não ter o menor controle sobre a ruidosa manifestação, acena com uma enigmática defesa de “uma política alternativa de segurança, construída e controlada pela comunidade universitária”. O que está por trás dessa palavra de ordem obscura? Não sei e acho que eles também não sabem, é apenas uma frase retórica.
Não sejamos ingênuos. Todos sabem como as coisas funcionam na prática. É possível, ou melhor, é até provável que alguns policiais, cientes do largo consumo da erva santa entre a população universitária, tenham enxergado aí uma bela oportunidade para os costumeiros achaques e pequenas extorsões. E que daí para tornar frequentes as revistas de jovens com aparência suspeita é um pulo, o que certamente causaria tensão e revolta na rapaziada.
Vamos admitir que essa hipótese seja verdadeira.
Aí caberia a liderança estudantil procurar a Reitoria e o comando da PM exigindo moderação nas atitudes da polícia e definição de metas claras na política de segurança. Ao invés disso, o que todos assistimos, perplexos, é uma reação inexplicável, desmedida e infeliz, que só pode atrair antipatia à causa defendida pelos alunos da USP.
Aliás, que causa é essa?
A impressão que fica é de que os invasores reivindicam, tão somente, a saída da PM do campus para que possam consumir drogas sem serem molestados. Sequer é uma tentativa de defender a descriminalização da prática ou coisa que o valha. É pura e simplesmente a defesa do direito à transgressão sem qualquer limite.
Ora, façam-me o favor!
O fato de uma universidade ser um espaço de convivência democrática e de costumes liberais não torna os alunos da USP imunes às restrições que todos somos obrigados a respeitar. Ademais, a universidade não é um celeiro de maconheiros, por mais tolerância que se possa ter a essa prática. Há um contingente enorme de alunos inteiramente refratários às drogas, que realmente esperam que a repressão funcione e impeça o consumo dentro da Cidade Universitária.
Ao ocuparem o prédio, recusarem-se a cumprir a ordem judicial de reintegração, negarem-se a dar entrevistas, agirem com truculência em relação a imprensa e não terem nenhum horizonte a defender, os alunos da USP dão um péssimo exemplo e atraem a antipatia da sociedade, agindo como meninos mimados que não aceitam serem contrariados.
Por mais que eu tente ser simpático às causas estudantis, dessa vez fica impossível apoiar o vandalismo puro. Só lamento que algo tão belo e histórico, como a resistência estudantil, tenha sido distorcida para dar amparo a essa sandice.
Sobre esse episódio, a causa dos estudantes fica ainda mais absurda quando lembramos que, no ano passado, um dos universitários foi assassinado dentro do campus, sem que houvesse 1% da mobilização que está sendo feita hoje, por conta do enquadramento de alguns maconheiros. Lamentável.