Me causou profunda estranheza nesta semana ter passado praticamente despercebida a notícia de um grande vazamento de petróleo ocorrido na Bacia de Campos, em campo operado pela empresa norte americana Chevron.
Tal vazamento vem ocorrendo desde quarta feira passada e, embora não pareça ser de grandes proporções, no momento em que escrevo (noite de terça) estava se começando a controlar. A empresa norte americana alega que dezoito navios foram enviados para conter o vazamento, mas não há registros factuais de tal presença.
Segundo informações fornecidas pela empresa, o poço onde ocorreu o vazamento de petróleo era de avaliação, ou seja, não era de produção contínua. Isso contribuiu para diminuir o potencial de danos da intercorrência, por se tratar de perfuração de menor vazão.
A informação oficial da empresa é de que vazaram cerca de 880 barris de petróleo, em uma mancha de óleo de 160 quilômetros quadrados. Entretanto, como bem lembra o excelente “Tijolaço” (fonte da foto de satélite que abre o post), se houver 10 mililitros de óleo por metro quadrado já se chega a 10 mil barris de óleo – ou seja, os números não batem.
Embora esta tenha sido a informação oficial da empresa à ANP (Agência Nacional do Petróleo), em matéria publicada pelo site G1 a informação é de que estariam vazando 330 barris por dia. Se multiplicar sete dias por este valor já temos 2,3 mil barris em superfície – acima do valor de 800 barris informado na mesma notícia.
Ou seja, os números não batem.
Existem duas graves suspeitas sobre este caso. A primeira é de que, para economizar, a Chevron estaria utilizando o que se chama “perfuração de batelada”: não se perfura o poço de uma vez só, mas sim utiliza-se a mesma sonda para vários poços – no caso, três – para dar andamento ao trabalho de forma concomitante. Isso gera instabilidade no poço por manter trabalho incompleto em cada um deles, já que a perfuração é feita por etapas e para-se o trabalho para se avançar em outro poço.
A segunda é que a empresa estaria fazendo perfuração em profundidades típicas de pré-sal, onde até onde se sabe a companhia não possui tecnologia e conhecimento para tal. A exploração de petróleo é uma atividade onde o risco é inerente e a tecnologia precisa ser bem dominada para minimizar o risco ao mínimo possível.
Contudo, como escrevi na primeira frase deste post, o mais incrível é o total silêncio da chamada grande imprensa sobre o assunto. Nas grandes redes de televisão não houve menção destacada ao tema e em grandes portais da internet o destaque foi mínimo. Por exemplo, no site do jornal O Globo somente ontem que o vazamento apareceu em sua página de entrada – assim mesmo para informar que já estaria controlado.
Outro ponto a se estranhar é que todo o material publicado sobre o assunto nos grandes portais e redes de informação teve como fonte a própria Chevron, através de seus releases. Não houve um único repórter a ir a campo, a fazer entrevistas e questionamentos sobre as evidentes contradições deste caso – como aponto aqui mesmo neste texto. Nada.
Não tem como não comparar ao tratamento que a Petrobras tem recebido da mesma grande imprensa, com perseguições e críticas ferrenhas – até com a publicação de matérias inverídicas sobre a companhia. Parece claro que, uma vez mais, temos o ideológico acima do jornalístico – criticar a Chevron é ruim porque a postura dos referidos órgãos é a defesa da entrega do petróleo brasileiro às empresas americanas, ou seja, pode “atrapalhar”.
Eu fico me perguntando se tal vazamento fosse em campo de petróleo da estatal brasileira. Com certeza estariam exigindo intervenção na estatal brasileira e sua imediata privatização. Daria editorial no “Jornal Nacional” e duzentos repórteres em barcos e helicópteros no local da mancha de óleo. Mas como não foi…
Para os leitores que pensam estar eu exagerando, basta lembrar da campanha ferrenha empreendida pelo principal jornal carioca à época da abertura de capital da Petrobras. Visivelmente havia por trás interesses visando à diminuição do preço das ações da petroleira.
Há cerca de um ano atrás, na verdade um pouco menos, escrevi post sobre as revelações do Wikileaks sobre o lobby que as petrolíferas americanas estavam fazendo junto a setores da imprensa e a políticos do PSDB para terem o controle do pré sal – que é a última fronteira petrolífera mundial. Parece claro que o silêncio da imprensa agora tem a ver com esta questão, haja visto o seu posicionamento anti-nacional e pró-americano de seus donos e líderes.
Finalizando, embora eu não seja jornalista me parece claro que, pelo menos nos grandes veículos, o jornalismo está subordinado a questões ideológicas, partidárias e comerciais dos veículos. E quem perde é a população.
Assisti ao JN que deu em alguns segundos uma notinha sobre o vazamento de petróleo pela Chevron,inclusive usando imagens cedidas pela estrangeira,não a questionando sobre os prejuízos ambientais.Caso fosse um dano causado pela nossa PETROBRÁS,aí então a Globo faria um estardalhaço para denegrir a imagem do nosso País.Afinal de contas os Marinhos trabalham pelo Brasil ou são contra a Nação brasileira??????A serviço de quem essa gente chafurda contra o governo brasileiro,cotidianamente?
A cobertura pela imprensa é pequeno por ser proporcional ao tamanho do vazamento. Como noticiado, é de pequenas proporções não havendo motivo para alarde. Um grande abraço.
É, pequenas proporcoes…
http://priceofoil.org/2011/11/17/oil-spill-off-rio-sets-chevron-at-the-center-of-scandal/
Começa a ficar claro, amigos, que o vazamento é de grandes proporções – apesar da sonegação de informações.
Muito bom o artigo. E o que dizer ou explicar porque somente a Globo teve acesso ao avião da própria Chevron para sobrevoar o local e também a entrevista ocorrida hoje. Logo a Globo que pouco divulgou o caso.
Eduardo Paiva