Excepcionalmente neste sábado, véspera de Natal, temos mais uma edição da coluna “Orun Ayé”, assinada pelo compositor Aloísio Villar. Hoje temos uma coluna “2 em 1”: o Natal em sua primeira parte e algumas sugestões de sambas de enredo para animar a festa de reveillón – cujo arquivo disponibilizarei na sexta feira que vem.

Ao contrário do que o colunista afirma, não sou daqueles que criticam por ser uma festa de consumismo – embora odeie a hipocrisia típica de dezembro – mas até por ter uma tradição religiosa oriental, não cristã (ver post de ontem), o Natal é muito mais uma confraternização que uma festa religiosa para mim. Curto mais pelas minhas filhas que qualquer outra coisa.

A propósito, o colunista Fabrício Gomes escreveu ano passado texto com pesquisas históricas recentes sobre a real data de nascimento de Jesus Cristo. Pode ser lido aqui.

Então é Natal

Não adianta: por mais que muita gente não goste da música ela vem logo à mente. Simone, assim como Roberto Carlos e o Papai Noel, virou símbolo do Natal – e de todos esses símbolos eu prefiro a rabanada. [N.do.E.: não gosto nem de Simone, nem de rabanada]

Quando ouvimos na tv a expressão “Já é Natal na Leader Magazine” é sinal que ele está chegando. Quando ouvimos “Então é Natal” ou “Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel” sinal que ele chegou e é hora de correr para shoppings lotados comprar os presentes ou mercados insuportáveis comprar o pernil.

E é a época que a falsidade reina também, mas dos dois lados. Do grupo que faz besteira o ano todo, briga com todos, mesquinho e nessa data se transforma. Chora, abraça, faz afago em quem maltratou durante o ano, uma falsidade comovente. E tem o outro grupo falso também que é aquele que reclama do que citei acima. Que tá nem aí para as pessoas e ao mundo durante o ano inteiro, reclama que só pensam em Papai Noel, esquecem de Jesus Cristo e da fome na África quando ele mesmo fecha o vidro do carro se um menino de rua pedir esmola.

Amigo, não adianta você ser um idiota o ano todo e ser amável no Natal: quem apanha não esquece. Também não adianta ser “do contra” e gritar aos quatro ventos contra o Natal e sua hipocrisia, você não mudará a humanidade.

O que fazer então? Curta.

Eu passei por todas as fases citadas acima, principalmente a segunda. Achava uma porcaria o consumismo desmedido do Natal. As pessoas só se preocuparem com presentes, comércio, em lucro quando a data na verdade representava o nacimento de Jesus Cristo, o que quase todo mundo esquecia. A gente sempre pensa assim quando se transforma num adulto chato. Aposto que o dono do blog que é um adulto chato pensa assim. [N.do.E.: errou (risos)]

Mas um dia nós fomos criança.

E o Natal é momento mágico pra criança, é que faz tanto tempo que deixamos de ser que esquecemos. Toda a magia do Papai Noel, escrever a cartinha (hoje deve ser e-mail), tentar encontrar o velhinho, a emoção de falar com ele mesmo em um shopping, o presente na manhã do dia 25.

E o nascimento da Bia me fez lembrar os Natais de minha infância. O inesquecível foi o de 1980 quando eu tinha quatro anos de idade. Família toda reunida, muitas crianças aqui em casa, lembro que quebramos o sofá da sala de tanto pular nele. Comida deliciosa e no fim Papai Noel apareceu entregando os presentes. Curioso como sempre fui consegui descobrir que o Papai Noel era o porteiro do colégio que eu estudava.

Nessa noite descobri que Papai Noel não existia.

Mas será que não existe mesmo? E a alegria genuína que sentimos na noite de Natal? Estar com as pessoas que amamos, ver a felicidade de nossas crianças ao abrir os presentes. A sensação de prazer e a sensibilidade maior que nos toca nesse período?

E lembrar pessoas que queríamos que estivessem perto da gente nessa data. Pessoas que por um motivo ou outro estão ausentes ou mesmo que já faleceram. Esse Natal de 1980 foi o último com minha querida bisavó Ema. Fui o único da minha geração da família a ter o prazer de conhecê-la e receber seu afeto. Lembrar de Tia Nair, vovó Oneida e Joaquina, tias da minha avó Lieida já velhinhas naquela época, lembrar de minha mãe.

Época feliz, inesquecível e quem disse que épocas felizes não voltam?

Para mim essa “época feliz” voltou em 2009 com o nascimento da Bia e desde então a casa que moro voltou a receber festas de Natal. O espírito natalino voltou a me tocar. Em 2009 fizemos uma festa gostosa, Bia ainda com sete meses ficou em sua cadeirinha e não aproveitou. Mas ano passado ela já via a imagem de Papai Noel e gritava “papaiel” já entendendo que aquela era uma figura especial.

Esse ano ela já está mais inteirada, sabe quem é Papai Noel e canta músicas. É lindo ver minha filha cantar “como é que Papai Noel, não se esquece de ninguém” e pela primeira vez pude sair pra comprar um presente para ela já sabendo seu gosto.

Semana passada saí pra isso. Revirei uma loja de brinquedos no shopping da Ilha do Governador com uma quantia máxima para gastar na cabeça e encontrei uma boneca da “Dora aventureira” que era o dobro do que planejara desembolsar. Eu sabia que ela amaria esse presente, seria perfeito, mas meu orçamento no restante do ano ficaria apertado. Pensei, pensei muito e peguei a boneca imaginando que minha mãe faria isso por mim e o sorriso de felicidade de nossos filhos compensa tudo.

Saí da loja pensando que dinheiro vai e vem e que aquele esforço não seria em vão. Deus estava vendo e não me deixaria na mão. Como não deixou, essa semana recebi um dinheiro inesperado, posso creditar ao espírito de Natal, quem sabe um presente de Papai Noel.

Quem disse que Papai Noel não existe?


Outro Papo

O Pedro Migão pediu que para a festa de reveillon indicasse alguns sambas de enredo. Como a coluna seguinte já será dia 1° de janeiro [N.doE.: na verdade não. Excepcionalmente será publicada dia 30, sexta feira] achei melhor dar essas dicas agora, até porque dar dicas pra virada do ano depois que ele virou não é legal.

Primeiro samba que vem a cabeça é sobre o de festas da Beija-Flor de 1997. O segundo, meu samba no Acadêmicos do Dendê de 2004. Porém vamos ser sinceros: o primeiro é muito ruim e o segundo desconhecido – e também não é lá essas coisas.

Quer animar sua virada?  Há uma escola certa pra isso, União da Ilha do Governador. Seus sambas de 1978 (O amanhã), 1980 (Bom, bonito e barato), 1982 (É hoje), 1989 (Festa profana) e 1991 (De bar em bar Didi um poeta) são perfeitos pra entrar bem no ano novo. Arrume espaço para União da Ilha 2012 também, que fará esse colunista feliz.

O Salgueiro também tem sambas “arrasta quarteirão”, como o de 1971 (Festa para um rei Negro), 1984 (Skindô skindô)  e 1993 (Peguei um Ita no Norte) esse então é capaz de ser cantado até numa aldeia Xingu ou em vigília da igreja Universal.

Portela 1981 (Das maravilhas do mar fez se o esplendor de uma noite), Império Serrano 1982 (Bumbum paticumbum prugurudum) Caprichosos 1985 (E por falar em saudade), Estácio 1987 (Tititi no sapoti), Mangueira 1986 (sobre o Dorival Caymmi), 1994 (Atrás da verde e rosa só não vai quem já morreu), Vila Isabel 1988 (Kizomba), Imperatriz 1989 (Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós), Mocidade 1992 (Sonhar não custa nada ou quase nada).

Tenho certeza que se montar essa play list pro seu reveillon os convidados irão adorar. No meio dessas músicas coloque sem ninguém perceber Boi da Ilha 2001 (Orun Aye), cujo refrão fala “Hoje peço paz, saúde, felicidade/brindaremos ao futuro nesse dia/faça sua festa com o Boi da Ilha”. Garanto que eles vão gostar. [N.do.E.: Portela 2012 também é boa pedida.]

Quero desejar a todos os amigos que acompanham essa coluna um Feliz Natal. Uma noite de muita felicidade, alegria perto daqueles que amam.

Que Papai Noel traga um saco enorme de ternura, carinho e amor para todos.

Tim tim.