Neste domingo, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloisio Villar, faz uma reflexão sobre a vida.
É a Vida
E a vida o que é diga lá meu irmão? Lembrei-me logo da música do Gonzaguinha quando pensei nessa coluna.
É um tema abstrato, talvez o mais abstrato das quarenta e duas colunas que escrevi pro blog, mas deu vontade de falar dela… Da vida.
Essa coluna, apesar de ser publicada apenas em fevereiro, foi escrita alguns dias depois da virada de ano. Assim como o dono do blog também me dei férias e ainda sob impacto da virada e dos fogos de Copacabana.
Enquanto assistia aos fogos e ouvia pessoas chorando emocionadas e abraçando desconhecidos dizendo que os amavam – sob efeito do álcool – e da emoção que a data reserva eu olhava pro céu e pensava nela…
… na vida.
Só existem duas ocasiões na verdade que pensamos na vida: quando ela está ameaçada e em viradas de ano.
O que é a vida?
Alguns dizem que a vida é apenas uma passagem, desde que nascemos começamos a morrer. Os mais espiritualizados que vivemos várias vidas, essa é apenas uma delas e a morte na verdade é continuação da vida em outra dimensão.
O que eu penso disso?
Sei lá, desde que o mundo é mundo, desde que Adão surgiu por essas bandas, do big bang, da criação de Deus, enfim, desde que surgiu essa bagaça chamada Terra o ser humano tenta decifrar o engima da vida. Se nenhum gênio conseguiu até hoje não serei eu que vou tentar.
Aliás, o ser humano recebeu o dom da inteligência de Deus para assim ter o direito de ser burro quando quer, mas isso é um caso a parte.
Tem gente que acredita que quando morremos acaba tudo, sinceramente não sei como seria esse “acabar tudo”.
É uma televisão desligada? É torcer para o Botafogo? Essas coisas que para mim representam o nada. A mim é tão complicada essa idéia de tudo acabar e existir mais nada que nem consigo colocar em palavras.
Tem gente que diz que tudo que fazemos aqui é levado “ao outro lado”. Para alguns existirá julgamento no “juízo final”. Não sei como seria esse julgamento, quem seria o advogado de acusação? Existe advogado no céu?
Outros acreditam no “umbral”. Local que seria reservado aos suicidas. Essa tese diz que a vida na verdade não é nossa, é um aluguel feito a nós por Deus e quando há o suicídio, a morte fora de hora é um grave crime contra as leis de Deus.
Não sei se é verdade, mas lembrar do personagem Alexandre na novela “A viagem” e do personagem André em “Nosso Lar” sofrendo no umbral me tirou totalmente da cabeça a ideia de me matar um dia.
Existe também a teoria da reencarnação. Seríamos seres evolutivos e tudo que fazemos de bom e ruim levaríamos pra outras vidas. Isso explicaria a fome da África e a sensação que já conhecemos lugares e pessoas que nunca fomos ou vimos.
Se essa tese é real fico imaginando o que seria a vida seguinte de Adolf Hitler.
Quero só dizer que sou totalmente leigo nesse assunto e estou escrevendo sobre coisas que eu ouvi falar e dividindo com vocês. Sou especialista em nada na vida, só um curioso.
Alguns dizem e acreditam no destino. Como diria Cazuza, nossos destinos foram traçados na maternidade. Maktub: está escrito.
Outros que temos livre arbítrio. Tudo que ocorre em nossas vidas somos nós que escolhemos. Tem gente que também consegue misturar as duas teses: destino e livre arbítrio.
A vida é um roteiro previsível. A gente nasce, cresce, envelhece e morre. Se tudo ocorrer bem, em nossa passagem pela Terra será assim. Existem poemas e pessoas que defendem que devia ser o contrário. Começava pela morte, depois ficávamos velhos e íamos regredindo, remoçando.
Do trabalho para a escola, da vida adulta à adolescência e infância, até voltarmos a ser bebês e o fim – na barriga da mãe.
O personagem Benjamin Button do filme estrelado pro Brad Pitt mostra isso.
A graça e as novidades ocorrem entre o nascimento e a morte. Cabe a nós traçar esse caminho ou ir ao embalo do destino. Eu tenho esse lado comigo. Vejo um bebê e gosto de ficar olhando e imaginando o que ele será, tantas possibilidades e pode vir a ser tantas coisas.
Faço isso com minha filha. Penso nela na escola, fazendo amigos, conhecendo amores, sofrendo por esses amores e eu dando meu ombro pra ela chorar, conhecendo o homem ou a mulher de sua vida, o importante é sua felicidade, construindo família…
…e enquanto ela cresce o meu fim se aproximando.
Porque como eu disse antes. Desde que nascemos começamos a morrer, então a cada dia que passa, cada vez que deitamos pra dormir é um dia a menos de vida que temos, nos aproximando da morte cada vez mais.
É impossível separar a vida da morte, uma completa a outra, uma automaticamente lembra a outra. Quando nossa vida está ruim algumas vezes, mesmo da boca pra fora, desejamos a morte e quando temos uma doença ou nos encontramos em situação de perigo nos agarramos a vida e pedimos a Deus por ela.
A morte assusta porque é desconhecida e o desconhecido assusta sempre. Quem do seu grupo de amigos morrerá primeiro? Da sua família? Do seu time de pelada? Do seu emprego e me colocando na roda, da minha parceria de samba-enredo? [N.do.E.: bom, desta última pergunta tivemos infelizmente a resposta semana passada, com o passamento de Alberto Varjão]
Esse tipo de pergunta assusta.
Assim como as vezes, era mais frequente anos atrás, eu parava pra pensar que ia morrer um dia e me dava um certo pânico. Pânico da sensação, o que sentimos? Como será? Com que idade? Quem me garante que esse ano que eu olhei maravilhado os fogos de Copacabana não é o último da minha vida?
Ou de todos, pelo que falam desse ano…
… e aí? Fazer o quê?
Tem nada pra fazer, vamos todos morrer um dia e não tem como fugir disso. Então por que sofrer por antecedência? Vamos viver.
Deus, o big bang ou seja lá o que for nos deu um mundo maravilhoso. Deu a possibilidade de realizarmos nossos sonhos, de ver o mar, florestas, nascer e pôr do Sol, o banho de chuva em um dia quente, a neve, o sorriso de um filho e o beijo da pessoa amada.
Deu-nos Chaplin e seus filmes já desbotados, mas que fazem rir. Deu a poesia de Drummond, a música de Chico Buarque, a voz de Frank Sinatra, o Maracanã lotado e as escolas de samba na avenida, o corpo nu de uma mulher e o suor honesto de um trabalho bem feito. Colocar molho inglês na feijoada e misturar chá com cachaça, por que não?
O colo de uma mãe, os conselhos de um pai, o jogar botão com o avô, o doce da avó, as brigas com os irmãos e o nascer dos filhos, o que garante a nossa imortalidade.
Nos filhos nós vivemos, em seus filhos eles vivem e assim a vida se perpetua.
A vida tem seus mistérios, seus segredos que os fogos de Copacabana esconderam bem de mim. Esse espaço entre o nascimento e a morte é tão pequeno que tem que ser bem aproveitado até o dia que fecharmos os olhos pela última vez, e no último suspiro dizer que valeu a pena.
E a vida? É bonita, é bonita e é bonita.
Orun Ayé!