Nesta segunda feira, a coluna “Bissexta”, do advogado Walter Monteiro, conta uma história para mostrar a atual situação do Flamengo e retratar toda a bagunça, a falta de comando e de comprometimento que ocorre hoje. Assino cada palavra da coluna.
Sou ligeiramente mais novo que o colunista, mas também peguei os tempos da década de 80 que ele narra no texto. E só vi as torcidas de Flamengo e Vasco unidas uma única vez: no aplauso ao jogador Denner quando de sua morte – assim mesmo por um momento efêmero, porque o que cantamos de musiquinhas politicamente incorretas naquela tarde foi uma festa…
As fotos são a fac símile da matéria do Jornal do Brasil do dia 28 de agosto de 1964 , dia seguinte ao jogo. O segundo gol rubro negro, pela matéria, foi do jogador Nelsinho, com Célio abrindo o placar para o Vasco e Carlinhos empatando.
Tempos de Dignidade
Quando eu era criança (tecnicamente falando, na virada da década de 80 quem tinha 12 anos era criança, ainda que hoje seja adolescente) a minha diversão era ler a revista Placar.
Hoje há uma overdose de informação esportiva espalhada por todos os lados, mas naqueles anos longínquos os jornais dedicavam duas ou no máximo três páginas para os assuntos do esporte – e uma parte delas dedicadas ao turfe, vejam só. O Globo Esporte tinha uns 10 minutos e o Esporte Espetacular, uma hora, aos sábados. Tinha um programa esportivo na rádio às 18 e outro às 22 horas. E só. Jogo não passava na TV, debate esportivo só aos domingos – depois que a rodada acabava.
Então só nos restava a Placar.
Imensa, plural (tinha matéria sobre todos os times do país, só assim a gente descobria o que se passava no Palmeiras, no Atlético MG, no Inter), colorida (os jornais eram preto e branco), cheia de reportagens maneiras. Toda quarta feira eu ia para a banca de jornal comprar a minha.
Um dia tomei um susto. Era uma reportagem sobre casos pitorescos no futebol. E um dos personagens era a cara do pai de uma coleguinha minha da escola, só que uns vinte anos mais novo. Não só a foto. O nome também era o mesmo, Marcelo.
Claro, era ele, Marcelo Cunha, com o sobrenome omitido só para ainda me deixar com uma pontinha de dúvida. Na época, jogador não tinha direito à sobrenome, a revista não se preocupava com esses detalhes: afinal, se um time contratasse dois “Paulinhos”, a escalação seria “Paulinho” e “Paulinho II.
Mas como podia? Eu frequentava muito a casa dele, sabia que ele era engenheiro, que trabalhava na IBM, que era bem de vida. Os adultos da minha infância me ensinaram que jogador de futebol só tinham começado a ganhar dinheiro fazia pouco tempo, que antes jogavam quase que por amor e que eram, invariavelmente, pouco instruídos.
Mas era ele, com uma história linda, uma fábula para contar. Tão bonita quanto inverossímil, eu achei que era invenção da revista. Meio envergonhado, resolvi perguntar para ele na vez seguinte que o encontrei. Me lembro que ele na época parecia não gostar muito de tocar no assunto, mas acabou confirmando tudo.
Ele tinha sido goleiro do Vasco.
Um dia [N.do.E.: 27 de agosto de 1964], Maracanã lotado, jogavam Flamengo x Vasco. O Flamengo vencia, aparentemente por uma falha dele. No vestiário, a chapa esquentou entre ele, o treinador, o restante do time, todo mundo botando na conta dele a derrota parcial. Ele volta do intervalo já meio mexido com o bafafá.
E de repente pinga na área uma bola marota, dessas que é só o goleiro se abaixar e encaixar. Uma bola lenta, mansa, talvez até uma bola atrasada, já que naquele tempo não era proibido recuar para o goleiro. Ele vai, cheio de pose, mas, distraído, deixa a bola passar por entre as pernas e entrar. Um frango de manual, humilhante, decisivo.
Mas como pode, um frango desses, logo em um Flamengo x Vasco?
Nelson Rodrigues dizia que o Fla x Flu teria surgido 40 minutos antes do nada, mas só chegou a essa conclusão porque era tricolor: se fosse Flamengo saberia que Fla x Vasco surgiu alguns minutos antes do Fla x Flu. Aliás, Flamengo x Vasco faz Celtics X Rangers parecer uma disputa de secundaristas e Gre-Nal um jogo de víspora entre freiras. Isso lá é jogo para tomar um frango dessas proporções?
Deve ter sido isso que Marcelo pensou na época. Quem engole um frango daqueles precisa restaurar a dignidade. E ele se resignou. Sem alarde, sem fazer biquinho, sem fingir uma indignação teatral, começou uma lenta caminhada em direção ao túnel que dava acesso aos vestiários. Tirou a camisa, entrou e decretou sua aposentadoria.
Uma cena tão improvável que imediatamente gerou outra ainda mais incrível: as torcidas de Flamengo x Vasco se uniram para aplaudir. Imagina, ambas as torcidas em comunhão de aplausos. Eu nem consigo saber que evento seria capaz de unir as vozes de flamenguistas e vascaínos, digo isso porque estava no dia que Ayrton Senna morreu e nem a morte do piloto conseguiu ser homenageada de forma unânime.
Vá lá que eram outros tempos, menos selvagens, mais tolerantes. Mas o gesto de Marcelo, de se auto impor uma aposentadoria precoce em resposta a uma falha imperdoável mostra um respeito tão ímpar à profissão, aos colegas, aos torcedores e ao clube que realmente só poderia terminar assim: sob aplausos uníssonos, de aficionados e rivais irmanados.
Tempos de dignidade.
Marcelo deixou de ser jogador do Vasco para ser torcedor do Vasco – simplesmente concluiu que há situações que impõem essa transição.
Pode até ser que a história não seja bem essa. Escrevo de memória algo que ele me contou há mais de trinta anos. Mas que ultimamente não me sai da cabeça.
Porque eu vejo o Deivid perder um gol por displicência dentro da pequena área. Eu vejo Ronaldinho se esconder em seu ‘corralito’ (apud Affonso Romero) e fingir que não está em campo. Eu vejo Joel Santana bater o recorde mundial de asneiras. E vejo tantas e tantas coisas que me irritam, me consomem, me enojam.
E eles fazem o que fazem com a naturalidade de quem escova os dentes. Não mostram arrependimento, não reconhecem seus erros, sequer pedem desculpas. No máximo, prometem que irão melhorar.
E eu sigo sonhando que eles emulem o pai da minha coleguinha do primário: que tirem a camisa, que caminhem lentamente para o vestiário, que se aposentem de forma abrupta. Eu sonho com isso, porque mesmo quarentão, ainda lido com o futebol com a mesma ingenuidade daquela criança viciada na Placar.
E sigo sonhando que esse abutres me deixem em paz, me deixem voltar a ter orgulho de ser rubro-negro.
[N.do.E.: dignidade
Significado de Dignidade (de acordo com o Dicionário Online de Português);
s.f. Qualidade de quem é digno; nobreza; respeitabilidade.
Cargo ou título de alta graduação.
Respeito que merece alguém ou alguma coisa: a dignidade da pessoa humana.
Sinônimos de Dignidade
Sinônimo de dignidade: decência, decoro, distinção, honestidade, honra,honradez, integridade, probidade, pudicícia, pundonor, rectidão,respeitabilidade e seriedade
Definição de Dignidade
Classe gramatical de dignidade: Substantivo feminino
Separação das sílabas de dignidade: dig-ni-da-de]
__._,_.___
Bela coluna. Creio que, infelizmente, os valores estratosféricos percebidos por jogadores e até por “técnicos” como Joel Santana suplantaram completamente a possibilidade de atitudes dignas como essa.
O Deivid, embora devesse, não se aposentaria depois daquele “gol” inconcebível, porque estaria abrindo mão dos seus 475 mil mensais (ainda que não receba em dia o todo, bem ou mal a remuneração total dele é esta e um dia o clube terá que quitar os ditos “direitos de imagem”).
Ronaldinho, desde 2006, relega o futebol a segundo plano e, dentro das quatro linhas, tem uma postura passiva, sem confiança e sem coragem, mas continua recebendo um salário absurdo em função do que um dia já foi.
E o Joel é o símbolo da malandragem do boleiro em forma de técnico: não treina ninguém, não orienta ninguém, não sabe rigorosamente nada de futebol, mas sabe bancar o paizão para um grupo de pessoas extremamente mimadas e com isso deve levar, no mínimo, uns R$ 100 mil por mês.
Nada disso serve de justificativa para deixar de lado a dignidade, mas é a crua realidade do futebol contemporâneo e especialmente do Flamengo.
Aliás, a própria diretoria do Flamengo, de tão despreparada, também deveria se afastar do clube. Seria um sinal de inequívoca nobreza, em meio a tantas trapalhadas. Mas aqui, o que sobrepuja a dignidade não é um alto salário, e sim as aspirações políticas da presidenta.
Receio que, infelizmente, belos exemplos como o mencionado na coluna não voltarão a acontecer tão cedo no futebol.
Oi Walter!!!
Creio que embora tenha esquecido de um detalhe aqui e ali, seu relato foi ímpar e queria agradecer.
Embora muitas entrevistas tenham sido feitas ao longo dos anos (aqui em casa tem uma pilha dessas PLACAR velhas, com meu pai na capa ou miolo), nenhuma delas conseguiu extrair a essência desse cara que não só fez papel de pai pra mim, mas que tb hoje representa o mesmo papel aos meus filhos, como vc e tb Dom Marcos Barbosa na crônica (da época) “UMA ROSA DO POVO”.
Acho engraçado, as vezes, esse lance dele ter sido famoso – outro dia veio o pessoal da ESPNBR aqui em casa e fizeram uma entrevista enorme com ele. Meus filhos se acharam em Hollywood…
Pra mim ele é realmente uma pessoa especial, que consegue enxergar quando chega a hora de dar passagem, é de uma humildade perene. Hoje embora um pouco mais velho, ele ainda cultiva esse caráter excepcional que fez dele um homem que tenho orgulho de chamar de PAI.
Eu costumava achar que ele tinha aprendido na estrada da vida, nas dificuldades de quando era pequeno, mas hoje acho que é dele essa iluminação. Ele pegou todo sofrimento da infância pobre, das dificuldades da juventude e reverteu em caráter idôneo, em base de integridade.
Deu a volta por cima sem deixar nada pendente, sem dívidas, sem rancores, sem pêsames; simplesmente virou a página e seguiu outro caminho. Sempre em frente. É certo que ter conhecido minha mãe ajudou um pouco, mas era dele essa ingenuidade quase infantil. Ele faz o que é certo pelo simples fato de que é o correto a ser feito. SIMPLES ASSIM!
Costumo dizer aos meus filhos que “… QUANDO EU CRESCER, QUERO SER IGUALZINHA A ELE…”, KKK.
Mil beijocas
da sua “coleguinha da escola” – Mônica.
Prezada Mônica,
Como dono, editor e um dos autores do blog, só tenho a agradecer em nome do Ouro de Tolo e do colunista Walter Monteiro as suas carinhosas palavras. É este tipo de retorno que nos dá estímulo a continuar.
E seu pai tem uma história de exemplo para contar. Isto não tem preço.
Grande abraço
Sinceramente não sei o que foi mais sensacional, o texto do Walter Monteiro ou o comentário da Mônica sobre seu pai.
Desde já, fica escolhido o melhor post de 2012 para concorrer na promoção de fim de ano. rs
Abraços