Levei um susto terça feira passada, ao abrir a leitura diária aqui do Ouro de Tolo. O que o Diego Mauricio estava fazendo aqui? E quem é Diego Mauricio?
Eu mesmo tive alguma dificuldade de identificar o rapaz da foto. Mas, sim, era ele: um jovem atleta do Flamengo, revelado nas divisões de base do clube e que hoje é reserva, fazendo aparições esporádicas no time principal. Eu tenho absoluta convicção de que bem mais de 90% das pessoas que conheço não saberiam de quem se tratava naquela foto – e incluo nesse universo muita gente que acompanha futebol.
Mas assustado mesmo eu fiquei quando vi a indignação do Editor Chefe com a foto que o jogador teria postado em seu perfil no Twitter. De cara, alertou a todos que o blog não tinha se tornado “adulto”, voltado para o público feminino ou gay.
Voltei à foto. Olhei, olhei, olhei.
Eu não vi nada de erótico ou sensual na foto.
A impressão que tive é algo infantilóide, de um jovem que provavelmente teve uma infância complicada e que brinca tardiamente com bonecos. Isso é mais comum do que se pensa: todos nós, em maior ou menor medida, reproduzimos comportamentos infantis, mesmo adultos e envelhecidos.
Para olhares mais maliciosos, talvez haja mesmo uma insinuação gay. O universo masculino é rígido com condutas que não sejam estritamente associadas à virilidade impoluta e homens, que não brincam de bonecos (só se for o Max Steel), não devem nem passar perto de bichos de pelúcia. Mais ainda quando se trata de jogadores de futebol, de quem sempre se espera brutalidade e rusticidade extremas.
Como pode ter o Editor Chefe se incomodado tanto?
E, ainda pior, ser secundado por meu colega da coluna Sobretudo, que aproveitou a foto para achincalhar ontem todos os males da Gávea, como se o ingênuo Tchuthucão fosse Pandora, [N.do.E.: esta é uma piada interna entre os colunistas] que além de batizar sua própria cadela de estimação, ainda leva a fama de carregar todos os males do mundo?
A imagem do clube, dizem. A santa, sagrada e imaculada imagem do clube!
Mas em que momento um jovem deitado na cama, mostrando parte do torso nu embaixo do edredom, ladeado por um cachorro de pelúcia de um antigo programa da Xuxa, pode afetar a imagem do clube, meu Deus?
É fácil responder: porque ao não se mostrar 150% viril, Diego Mauricio deu margem à pilhéria de torcedores rivais, como é histórico no mundinho futebolístico. Seria até mais divertido se Diego Mauricio fosse jogador do São Paulo ou do Fluminense, clubes sempre associados à brincadeiras sexistas, eu próprio talvez as fizesse.
E faria com gosto, porque a vida, em essência, só tem graça por essas coisas. É preciso reagir com bom humor às intempéries. É preciso tolerar os pequenos deslizes, quando eles são inocentes e inconsequentes. É preciso compreender as fraquezas alheias, quando elas não colocam em risco a instituição que o indivíduo representa – como é rigorosamente o caso. Basta pesquisar na Internet para ver que o assunto passou quase em brancas nuvens, não fosse a raiva do Editor Chefe e um blog de umas meninas, que acabaram elogiando a foto, que chamaram de “fofa”.
No fundo, no fundo, o que meus amigos de blog odiaram foi ver que poderiam ser alvo de brincadeirinhas – ui!. Porque sabem, por óbvio, que o jovem Diego Mauricio não fez nada demais. E que em ambientes mais rudes talvez até seja possível se incomodar com bichos de pelúcia e piadinhas de gosto duvidoso, mas que em espaços mais nobres, onde imperam a inteligência e a reflexão, uma foto ingênua é só uma foto ingênua, ponto final.
Além do que uma das melhores coisas de ser Flamengo é reafirmar, a cada instante, a grandeza que nos cerca e a insignificância dos que tentam nos tirar do sério – quer coisa mais divertida do que a arcoirizada estufar os pulmões para nos xingar de “favelados” e a gente comemorar nossas glórias dizendo que tem festa na favela?
Tolerância, compreensão e, principalmente, bom humor. Ingredientes indispensáveis ao bom senso.