Exatamente hoje, 11 de abril, a Portela comemora 89 anos de vida e inicia as festividades de seus 90 anos, a se comemorarem ano que vem. A escola terá enredo para 2013 (confirmado na última feijoada pela Diretoria da escola) sobre o bairro de Madureira, com apoio institucional da prefeitura do Rio de Janeiro e que permitirá, também, que a escola conte um pouco de sua história e de seus 90 anos.
A princípio toda a equipe do carnaval 2012 irá permanecer, sendo a única dúvida, no momento em que escrevo, o puxador Gilsinho. Vale destacar que pela primeira vez desde 2003 a escola irá repetir seu carnavalesco, no caso o talentoso Paulo Menezes.
A escola de samba foi fundada a partir de dois blocos, o “Baianinhas de Oswaldo Cruz” e o “Conjunto Carnavalesco de Oswaldo Cruz”. A data de fundação do primeiro bloco é considerada como de nascimento da Portela, por causa dos blocos e seus sucessores que desembocaram na escola. Oswaldo Cruz e seus sambistas foram formados a partir da confluência entre migrantes vindos de Minas Gerais – em especial da cidade de Matias Barbosa, próxima a Juiz de Fora – e desalojados do morro da Providência, no Centro do Rio.
Nas palavras do site
“PortelaWeb”, do qual sou um dos fundadores e ainda hoje membro – e que inaugura ainda neste mês novo layout, iniciando as comemorações dos 90 anos da agremiação. Merece uma atenção e uma visita detalhadas:
” (…) Em 1923, tentando rivalizar com o grupo de dona Esther, alguns jovens, sob a liderança de Galdino, resolveram fundar outro bloco na região, o “Baianinhas de Oswaldo Cruz”, que não demoraria muito a se dissolver devido a uma briga interna. Após o desentendimento, parte dos integrantes do “Baianinhas de Oswaldo Cruz” funda outra agremiação carnavalesca, o “Conjunto Carnavalesco de Oswaldo Cruz”, que tinha como líderes Paulo Benjamim de Oliveira (o Paulo da Portela), Antônio Caetano e Antônio Rufino, três homens que se completavam em suas múltiplas funções.
Segundo Amaury Jório e Hiram Araújo, em “Escola de samba: vida, paixão e sorte”, os sambistas que fundaram a Deixa Falar – considerada por unanimidade, inclusive pelo pessoal da Portela, a primeira escola de samba do Brasil – queriam organizar um bloco pacífico, sem brigas ou arruaças como era característica dos blocos de então. Assim sendo, inspiraram-se no bloco formado pelo pessoal do “Oswaldo Cruz”, que brincava o carnaval com paz e alegria, tendo em Paulo uma liderança incontestável. Por meio disso, podemos concluir que a Portela não foi a primeira escola de samba, foi mais do que isso; serviu de fonte de inspiração para a primeira escola, exemplo para a Deixa Falar, que faria escola inclusive na própria Portela.
No final da década de 20, o grupo receberia um grande reforço de fora: Heitor dos Prazeres, amigo do presidente Paulo Benjamim de Oliveira (foto). Com um samba do próprio Heitor, o “Conjunto Carnavalesco de Oswaldo Cruz” se sagraria vencedor da primeira disputa entre os principais redutos de samba, ocorrida em 20 de janeiro de 1929. Estiveram presentes sambistas de Oswaldo Cruz, Mangueira e Estácio.
A vitória trouxe, além de uma grande felicidade, muitos problemas para o conjunto carnavalesco. Heitor dos Prazeres, um “estrangeiro”, ganhou mais prestígio dentro do grupo. Tanto que por sugestão sua o bloco passou a se chamar “Quem nos faz é o capricho” e ganhou sua primeira bandeira, também idealizada por Heitor, já para o carnaval de 1929. Todas as modificações de Heitor tiveram total consentimento de Paulo, uma vez que, devido a sua crescente fama no centro da cidade, Heitor dos Prazeres ajudava a divulgar o nome da escola.
Em 1930, já com Heitor afastado devido a um desentendimento com Manuel Bam-Bam-Bam e Antônio Rufino, o grupo desfilou pelas ruas do subúrbio e da Praça XI. Em 1931, a escola superou uma série de dificuldades para poder desfilar. Isto fez com que os sambistas da estrada do Portela mudassem o nome do bloco para “Vai Como Pode”. Com esse nome, a futura Portela começou a aparecer nos poucos jornais que cobriam os primeiros desfiles de escolas de samba, fato este que faz com que, de todos os nomes anteriores da Portela, esse seja o mais lembrado.
Também em 1931, Antônio Caetano desenharia a primeira bandeira da escola. Segundo depoimento para as autoras Lygia Santos e Marília T. Barboza da Silva, em “Paulo da Portela: traço de união entre duas culturas”, Caetano, desenhista da Marinha, declarou ter pensado no sol nascente e no valente povo da ilha japonesa. Instituiu as cores azul e branco em homenagem ao manto de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da escola desde a fundação, e como símbolo a Águia, por ser a ave que voa mais alto. Para Candeia, Caetano teria desenhado na verdade um Condor, ciente de ser esta na verdade a ave que alça vôos mais altos na natureza. Provavelmente, todos interpretaram o símbolo como uma águia, fazendo com que Caetano não tivesse outra saída senão a de concordar com que a Águia “assumisse o posto” de símbolo máximo do grupo. Surgia assim o símbolo mais importante e aguardado do carnaval carioca.
Antônio Caetano também entraria para a história como o primeiro carnavalesco do Carnaval carioca. Foram de sua autoria os primeiros enredos que a Portela levou para o desfile. De suas mãos surgiu a primeira alegoria de uma escola de samba: um rústico globo terrestre no enredo “O samba dominando o mundo”, na grande vitória da ainda “Vai Como Pode” no desfile que entrou para a história como o primeiro desfile oficial, em 1935.
Ainda nesse ano, os sambistas de Oswaldo Cruz enfrentaram um impasse na hora de renovar a licença para os desfiles. O delegado Dulcídio Gonçalves não gostava do nome “Vai Como Pode” e só renovaria a licença se o nome fosse trocado. Após uma longa discussão entre Paulo da Portela e seus amigos, o próprio delegado sugeriu o nome que atravessaria fronteiras e entraria definitivamente para a história da arte e da cultura do Brasil: GRÊMIO RECREATIVO ESCOLA DE SAMBA PORTELA, em uma homenagem à rua onde ficava a sede do grupo.
Entre as contribuições da Portela para o carnaval carioca neste período, além da primeira alegoria, merecem destaque a caixa-surda, o reco-reco, a comissão de frente uniformizada, a corda para separar os desfilantes da platéia, o destaque e até o apito da bateria. Segundo muitos estudiosos, o primeiro samba-enredo foi “Teste ao samba”, de autoria de Paulo da Portela, que fez o papel de professor distribuindo diploma aos componentes da escola fantasiados de alunos, em frente à comissão julgadora. Um espetáculo que empolgou a Praça XI e está seguramente entre os maiores desfiles de todos os tempos.”
No texto acima temos também a origem da águia como símbolo da escola. Ela passou a ser o carro abre-alas em 1969 e a partir de então sempre é uma das grandes atrações do carnaval carioca. A Portela conquistou 21 campeonatos, sendo o último em 1984 – dividido com a velha Manga.
Entretanto, a azul e branca de Oswaldo Cruz pode se orgulhar de não ser uma “escola de desfile”. Sob as asas da águia altaneira se encontra toda uma dinastia de sambistas que movimentam todos os elementos pertinentes ao samba: o partido alto, o samba de terreiro, a resistência cultural e a aceitação do ritmo e de seus precursores na sociedade brasileira.
Portela é sinônimo de elegância. Paulo da Portela, símbolo máximo dos primeiros tempos e fundador da dinastia “sangue azul” da nobreza suburbana já alertava aos membros da escola: “mantenham sempre o pé e o pescoço ocupados”. Ou seja, sapato e gravata eram indispensáveis.
A elegância pregada por Paulo marcou profundamente a Majestade do Samba, tornando-se parte indissociável de seu DNA. O próprio caminhar do portelense é diferenciado, exibe uma nobreza e até uma certa soberba de quem sempre se acostumou a andar de cabeça erguida, sem se sentir inferior a nada nem a ninguém.
Suas andanças são referência de grandes sambas. À notável tradição de sambas de terreiro soma-se uma coleção inigualável de sambas de enredo de alta qualidade. Sua arena é o samba pesado, cadenciado, que facilita o canto e a sagrada dança do samba.
Sua lista de grandes nomes é inenarrável, mas apenas para ficar nos grandes líderes temos Paulo da Portela, Natal da Portela, Candeia, Clara Nunes, Manacéa, Monarco e Paulinho da Viola, entre muitos outros.
A partir de 2012, em que pesem alguns problemas de gestão, a escola parece estar iniciando um novo ciclo em sua história, que pode levar em um futuro próximo à quebra de jejum de títulos. Os tempos são de esperança e confiança em um futuro melhor, embalados no grande samba que apresentamos neste último carnaval.
Salvo algum percalço, em 2013 também completarei uma marca pessoal: será meu décimo desfile pela escola (2001 a 2005, 2009 a 2013), onde sou também sócio com direito a voto. Custei-me a decidir por uma escola de samba de coração, mas muito depois compreendi que não escolhemos a Águia: ela que nos escolhe.
Parabéns, Portela, meu amor !
(Foto: Barbara Alejandra, Desfile das Campeãs de 2012)
P.S. – Volta e meia pedem-me para elencar os melhores sambas de enredo da escola. Indico abaixo dez deles, sem ordem de qualidade – que podem ser ouvidos no site PortelaWeb:
– “Lendas e Mistérios da Amazônia” (1970/2004);
– “Seis Datas Magnas” (1953);
– “Rio, Capital Eterna do Samba” (1960);
– “Das Maravilhas do Mar, Fez-se o Esplendor de Uma Noite” (1981);
– “Contos de Areia” (1984);
– “Adelaide, a Pomba da Paz” (1987);
– “Tributo à Vaidade” (1991);
– “Gosto que me Enrosco” (1995);
– “Ilu Ayé” (1972);
– “E o povo na Rua Cantando, É Feito uma Reza, um Ritual” (2012);
Além disso, há três sambas muito pouco falados da escola e que eu particularmente gosto muito, que são os de 1973, 1982 e 1994.
E para você, leitor, quais são os melhores sambas de enredo da Portela? Indique na área de comentários.
Escrito por: Pedro Migão em 11 de abril de 2012.
O meu preferido é o de 1981! Adoro também o de 1970.
Bela coluna!
Difícil escolher, Migão. Mas na sua lista senti a falta dos seguintes sambas:
1971 – Lapa em Três Tempos (o samba eternamente esnobado pelo editor deste blog)
1975 – Macunaíma, herói de nossa gente (esse não pode faltar em qualquer lista)
1976 – O Homem do Pacoval
1979 – Incrível! Fantástico! Extraordinário!
Por fim, assino embaixo que o samba de 1994 é bem menos falado do que sua qualidade merece.
Difícil escolher,mas fecho com 2005
Obrigado madrinha Portela, que me ajudou a caminhar