Leitor, veja atentamente a foto acima. Veja novamente.

Não. O Ouro de Tolo não virou um “blog adulto” destinado ao público feminino ou aos gays e simpatizantes. É simplesmente a imagem postada no Twitter pelo jogador Diego Maurício, do Flamengo, na madrugada de ontem, abraçado a um cachorro de pelúcia e escrevendo que era “seu Txutxucão”, em referência ao personagem canino do programa da Xuxa. O jogador mais tarde apagou a postagem na rede social, mas era tarde: a imagem ganhou o mundo.

Este é apenas mais um exemplo de algo que vem marcando a sociedade nos dias atuais: a absoluta falta de bom senso.

Raciocine comigo, caro leitor: o sujeito joga no Flamengo, é um jogador jovem, avaliado como bom chutando com os dois pés e velocista, apesar de ter dificuldades para fazer a “leitura” do jogo – nas palavras de um treinador amigo meu, caso clássico de “cognitivo baixo”. O time em uma crise tremenda, com torcida querendo fazer (com razão) picadinho de diretoria, técnico e jogadores. A torcida sendo feita de chacota pela confusão toda no clube.

Aí você vai e publica uma foto destas? Não pode nem alegar que foi “papparazzi” ou coisa parecida: foi estupidez mesmo. No mínimo, tremenda falta de bom senso – e olha que o jogador em questão tem empresário e assessor de imprensa, embora sequer titular seja.

Total falta de bom senso, não é mesmo?

É neste ponto que quero chegar. A sociedade está em um ponto onde o bom senso parece ter sido extirpado da vida cotidiana e diária.

O exemplo do jogador em questão é pitoresco, mas a cada minuto temos bons exemplos da falta de senso: é o gestor que coloca engenheiros e correlatos para trabalhar como secretárias, é a blitz feita a fim de parar motos na hora do rush, são os pardais instalados em pontos com objetivo de forçar infrações e aumentar a arrecadação, são os itinerários malucos de linhas de ônibus… Parece que tudo é feito a fim de complicar os procedimentos e criar dificuldades para vender facilidades.

Chico Buarque dizia que o governo deveria ter um “Ministro do Vai Dar Merda”. Seu papel seria a cada decisão tomada perguntar se “vai dar merda?”, ou seja, testar os limites do bom senso de determinada medida. Só que a sociedade como um todo anda tão negligente a este respeito que todos nós deveríamos ter o nosso próprio “Ministério do Vai Dar Merda” e fazer esta pergunta a cada ato ou decisão que tomar, de forma a não ferir suscetibilidades ou se colocar em situações embaraçosas.

Bom senso implica, a meu ver, em respeito ao próximo. Este é outro artigo que também anda bastante em falta – e o trânsito é um bom microcosmo deste fenômeno. É o motorista que acelera para não entrar quando se dá seta, são as fechadas, é o fenômeno de que “eu sempre tenho a preferência”, são os donos de picapes e SUVs utilizando-se de seu tamanho para impor suas vontades… A lista é imensa.

A sociedade parece estar em um momento onde as pessoas criam dificuldades a fim de supervalorizarem suas posições. Não interessa fazer o que deve ser feito da forma mais simples, objetiva e correta possível: interessa é mostrar que os outros dependem de suas decisões e pensamentos – o importante é subjugar, não resolver. São os “pequenos poderes”, que muitas vezes levam a complicações que só tomam tempo e nosso bom humor.

Outra faceta da falta de bom senso é este irracional “culto à celebridade” que encontramos em parte da imprensa – alimentada pela demanda cada vez maior da população em geral por “notícias” deste tipo. Aí temos em destaque “informações” como “Atriz tal faz compras no quiosque do Zé da Pelúcia” ou “Fulano Santana Lanza diz que emite flatulências rigorosamente três vezes por dia”. É a futilidade que gera atitudes irracionais a fim de “ganhar destaque” – o sucesso do Big Brother é um bom exemplo deste fenômeno.

Mais um sintoma disso, e que não está restrito ao mundo corporativo, é o excesso de reuniões. Reúne-se para tudo, e decide-se pouco. Normalmente o resultado destas contendas, além da perda de tempo, é a criação de regulamentos, condutas e regras que só tem significado de aumentar o tempo necessário, crescer os custos envolvidos e diminuir a geração de valor – isso quando não se faz para se decidir que não há nada resolvido ou para preparar outras reuniões. O mundo vive uma verdadeira “epidemia” de reuniões mas, ao que parece, não há remédio eficaz para combater este vírus.

Ou seja, como o leitor pode ver, o caso do jogador rubro negro é apenas pitoresco, mas ocorrem aos milhares fenômenos semelhantes da falta de bom senso. Citei alguns aqui para a reflexão do leitor. Cabe a nós, dentro de nossas possibilidades (muitas vezes escassas), reintroduzir este conceito em nossas vidas.

Mas tudo o que o clube não precisava neste momento de total turbulência era um jogador posando na cama com um cachorro de pelúcia…