A Guerrilha do Mp3
Na manhã preguiçosa da Sexta-Feira Santa recebemos – eu e Mara, minha esposa – pelo correio eletrônico uma dica do amigo Chiquinho: “Quem curte MPB de boa qualidade deve conhecer o novo trabalho de Fabio Góes, O Destino Vestido de Noiva (2011), que tem uma sonoridade que remete ao Clube da Esquina, Coldplay e Radiohead e pode ser baixado em: http://www.hominiscanidae.org/search/label/Fabio%20G%C3%B3es“.
A descrição despertou minha curiosidade. Também achei o titulo do cd muito interessante. Fui lá, baixei, ouvi, aprovei.
Bons tempos em que um autor e cantor desconhecido tem condições de produzir e divulgar suas músicas: conseguir esta ligação direta com alguém que desconhecia sua existência, passou a gostar e até está repassando a recomendação. O Chiquinho não mentiu: nem sobre a qualidade, nem sobre as influências do som.
Eu tinha minha habitual longa lista de temas a tratar nesta coluna, acrescida da necessidade de se fundar uma ONG-de-amparo-aos-adultos-viciados-em-joguinhos-de-celular-ou-Facebook, considerado o caso de crianças e adolescentes já sem solução possível. Ou ainda uma ode à minha profunda inveja ao trabalho realizado por Percival de Souza, do qual sou um humilde plágio por escrito. Mantenho a fé de que tudo terá sua hora e lugar.
Mas hoje retorno um tema que abordei há algumas semanas, sob o foco específico do formato mp3 e seu impacto na indústria musical.
Como mostra inequivocamente o exemplo dado pela minha relação com a arte de Fabio Góes, nem sempre o compartilhamento de música através da internet pode ser correlacionado com pirataria ou quebra do direito autoral. No caso do Fabio, que é desconhecido na mídia, certamente ele agradece e incentiva o compartilhamento, uma vez que é a forma possível de vencer a barreira que as grandes corporações impõem aos novos artistas.
Aproveitei a ida ao site onde há o link indicado, o Hominis Canidae, para dar um passeio pelo material disponível. Eu não conheço, e possivelmente o caro leitor também não conheça, artistas com nomes intrigantes tais como Sheila Cretina, Falsos Conejos, Eu Matei Pedro [N.do.E.: este não ouvi e não gostei (risos)], Crooneres Decadentes, Babi Jaques e os Sicilianos, Refrigerantes, Mahatma Guangue ou Motor Queimado.
Na barra ao lado direito do site o leitor encontrará, além da lista completa de artistas, um sem-número de sites parceiros, muito úteis caso se esteja procurando algo específico ou se queira mergulhar no poço sem fundo de músicas comerciais e alternativas.
Saltei de lá para o blog Eu Ovo (http://euovo.blogspot.com.br/), veterano de uma época em que eu tinha tempo para me dedicar ao vício de experimentar sons novos. Aqui, a lista de links para outros sites é ainda mais rica. Reserve tempo e chegue movido à curiosidade.
Depois, fui ao 300 Discos Importantes da Música Brasileira (http://300discos.wordpress.com/) que tem uma lista principal das tais 300 obras tão abrangente e esquizofrênica que leva a refletir sobre os limites do gosto e do ecletismo.
Tentei também visitar outro blog antigo, o A Música que Vem de Minas, que tinha um acervo primoroso, mas este já está fora do ar. Outro que parecia estar fora do ar foi o estrangeiro Afro Cuban Jazz ( http://afrocubanlatinjazz.blogia.com/) que já me ensinou muitíssimo sobre o estilo. Com um pouco de atenção, descobre-se o link alternativo e redireciona-se, entrando na brincadeira de gato-e-rato que a indústria musical propõe aos internautas e blogueiros.
Já o BR Instrumental (http://br-instrumental.blogspot.com.br/) necessitou reparar alguns links quebrados pela perseguição insana das grandes gravadores. Imagine o leitor: pelo título do blog já se percebe que trata-se de música relegada a um segundo plano e cujos artistas têm muito mais a ganhar do que a perder com sua divulgação e compartilhamento.
Este é um processo que vem acontecendo com grande intensidade, porque a legislação norte-americana apertou o cerco sobre os servidores, os responsáveis pelos blogs são pressionados, muitos ficam uns tempos fora do ar, alguns desistem de vez. Principalmente aqueles feitos por abnegados, gente interessada em cultura, que entra neste universo sem motivações econômicas, e que veem que não vale a pena se arriscar a ser tratado como um marginal pelo prazer de divulgar e compartilhar arte.
A outra face desta moeda é que a atividade de troca de arquivos fica mais aberta à ação de pessoas sem escrúpulos. As ameaças mais singelas vêm de blogs que colocam o chamado link de proteção, sistema no qual, para acessar o link final do arquivo pretendido, o usuário precisa fornecer dados, pagar taxas ou baixar arquivos. Redundante dizer sobre o risco e o abuso envolvido nestas práticas. Mas há uma alternativa para contornar estas exigências, pelo menos para alguns casos.
Vamos supor que o leitor queira ir ao G1 Filmes ( http://www.g1filmes.com/ ) e baixar a versão em .avi do blockbuster épico e olímpico Imortais, que de jeito nenhum eu recomendo, a menos que o amigo fique impressionado pela beleza latina da atriz Freida Pinto (que faz Phaedra) ou queira conferir a que profundidade pode chegar o poço do ex-galã Mickey Rourke.
Neste caso, o leitor se verá direcionado para, por exemplo, http://www.meulinkprotegido.com/g1filmes/?url=http://www.meulinkprotegido.com/?id=687474703a2f2f756c2e746f2f396e766469726a30 em que há uma exigência de cadastro, pagamento ou algo do tipo. Basta recortar o início do endereço http e ficar com http://www.meulinkprotegido.com/?id=687474703a2f2f756c2e746f2f396e766469726a30 . Clique e será direcionado para http://uploaded.to/file/9nvdirj0 onde basta clicar em Free Download para ter o filme.
Como se vê, não é só a música que tem admiradores à procura de algo mais e gratuito na internet. Eu sou consumidor de discos e dvds originais, já fui inclusive proprietário de uma loja de discos durante quase cinco anos. Não consigo imaginar que um produto pirata, ou baixado livremente na internet, ou copiado, possa substituir um original, nem do ponto de vista do consumidor, muito menos sob a ótica da indústria. É muita falta de compreensão sobre a natureza da indústria cultural, porque fazer esta confusão parte de uma análise objetiva demais do que seria o “produto” colocado na prateleira.
A mesma gravadora que proíbe a música no 4shared.com coloca o clipe no Youtube, e o usuário vai lá e baixa o áudio em qualidade até superior. Os executivos trabalham com um setor que depende de tecnologia e não entendem nada de tecnologia. Trabalham com arte e têm uma lógica de produção de massa. Um equívoco só.
Tiraram do ar um blog chamado UmQueTenha, de tanto que encheram o saco. Era um blog que fazia um serviço completo: o que se puder imaginar que houvesse de qualidade na MPB, o blog postava, divulgava, disponibilizava. Não foram dois ou três discos que eu acabei comprando depois de conhecer online. Artistas de renome, menos ou mais famosos, discos mais ou menos populares, até coisas desencavadas nas poeiras digitais. A boa notícia é que o UmQueTenha voltou (http://umquetenha.org/uqt/).
Há uma coleção chamada Nova História da MPB que a Editora Abril lançou em fascículos, deve ter sido no final dos anos 1970. Bom material, tanto textos e iconografia quanto fonogramas e fichas técnicas. Meu pai assinou a coleção na época, aquilo fez a minha cabeça para ouvir todo tipo de música, perder o preconceito com os antigos, perceber que cabia a cada estilo e época a versão original e as releituras. Estou tendo o prazer de resgatar este material todo no Um Que Tenha, e não haveria outra forma. Depois, se é o mais ético e correto, eu jogo fora e espero que a coleção saia em cd. Não é assim que gente comportadinha faz?
No fundo, eu estou cada vez mais propenso a pensar que a coisa que mais incomoda a grande indústria cultural não é a transmissão gratuita de conteúdo dos seus produtos principais. Parece muito mais devastadora a possibilidade de se ouvir, ler, assistir, discutir, indicar sobre tudo, sem que as grandes corporações tenham o mesmo poder de filtro de antes, sem que a lógica da produção cultural passe necessariamente pela produção de massa.
Grandes gravadoras contratavam artistas para coloca-los na geladeira. Editoras, jornais, emissoras de tevê, todo mundo fez isso de uma ou outra forma. É mais confortável para este modelo de produção trabalhar com poucos nomes, espremer a laranja até restar bagaço e inventar uma “nova novidade”, porque focando em poucos nomes a lógica da repetição enjoativa trabalha. Esta é uma manobra imediatista, repetida à exaustão, momento imediatamente após momento, até que ela também se esgota. Não é por acaso que os segmentos culturais vivem em sinucas contínuas. Um dia é o teatro, no dia seguinte a tevê, depois o mundo editorial, agora é a música.
Ora, a música nunca esteve tão viva, as gravadoras é que estão em crise.
Tive o presente de bater um papo, regado a boa cachaça e escondidinho de carne seca, com o Roberto Menescal, faz uns poucos anos. Sabe tudo. Vive de arte há cinco décadas, só foi menos feliz no período em que foi executivo de gravadora. Afirma claramente que ele nunca vendeu tanto disco como agora. Tudo de pouquinho em pouquinho, tudo espalhado no mundo todo, tudo em mercados-nichos, tudo na base da qualidade divulgada boca a boca na aldeia global. Ele é a anti-lady-gaga. Um artista assim não é atingido pelos blogs que indicam os atalhos para a música em mp3 gratuito na internet.
Eu não quero processo desta gente, e também não é política do blog estimular nada ilegal, por mais estúpida que seja esta ilegalidade. Então, vou falar só de umas coisas que eu ando ouvindo, desta forma ziguezagueante de consumir cultura, e talvez seja material encontrado por aí, para isso que serve o Google (se é que algum dia não queiram tirar o Google do ar por indicar os caminhos).
Tente ouvir também:
1) A citada coleção Nova História da MPB, uns 50 volumes de oito faixas cada, com encartes.
2) Arlindo Cruz, o novo cd, principalmente a leitura de Meu Nome é Favela, a parceria vocal com o Zeca Pagodinho em Meu Poeta e a inusitada contribuição de Ed Motta em Bancando o Durão.
3) A versão do clássico Call Me, quase irreconhecível, no cd mais recente de Marina Lima, Clímax, que de resto eu acho fraco.
4) A engraçadíssima I’m Cool (Sexy Diva) da banda 1E99, com a Gretchen, de preferência o clipe do Youtube.
5) O disco antigo de Leny Andrade com standards americanos chamado Embraceable You, vale cada faixa.
6) O novo de Luciana Mello, 6° Solo, principalmente Tchau (composição linda do Jairzinho), Áfrico e Recado (do Gonzaguinha).
7) Das telas globais, a parceria surpreendente de Fiuk com Benjor em Quero Toda Noite, a bobagem divertida e leve de Perla em Menina Chapa-Quente, o impagável Eduardo Dussek em Me Segura e Rita Lee em Reza.
8) Do baú do Barry Manilow, um disco que eu não conhecia em homenagem ao Sinatra chamado… Barry Manilow Sings Sinatra (oh!!!), com um repertório menos óbvio que o nome.
9) As faixas sortidas Acertei no Milhar (Moreira da Silva), Libertango (com o Yo-Yo Ma), Malungo (Chico Science) e Não (Patrícia Mellodi). É ouvir para crer.
Um ótimo site que tiraram do ar foi o:
http://www.pratoefaca.blogspot.com.br/
Tinha ótimas postagens de samba.
E deixo também minha dica de um site (no meio de tantos que acesso) que ainda não saiu do ar:
http://www.baudelongplaying.com/