O leitor mais antigo do blog sabe que sou crítico feroz do “jornalismo político” e do “jornalismo econômico” praticado pela chamada grande mídia. Sempre avaliei como uma conduta mais de proselitismo político-partidário que jornalismo.
Agora este caso envolvendo o (ainda senador) Demóstenes Torres, suas relações com o contraventor Carlinhos Cachoeira e seus reflexos imediatos traz à baila algo bastante preocupante, que são as relações de veículos da imprensa – em especial da revista “Veja” com os sujeitos em questão.
Há bastante tempo que se desconfia que a ânsia da revista em derrubar o então presidente Lula e agora a presidenta Dilma Roussef esbarrava muitas vezes nos limites do Código Penal. Entretanto, as escutas telefônicas que abateram o senador goiano – e, ao que parece, irão deixar o governador goiano Marconi Perillo em palpos de aranha – deixaram claro que Cachoeira não somente era fonte da publicação como muitas vezes se utilizou das páginas da revista a fim de nocautear inimigos que estavam atrapalhando seus negócios ilícitos.
As gravações telefônicas deixam claro que o editor Policarpo Júnior, da revista em questão, mantinha um relacionamento simbiótico com o contraventor em questão. Era um jogo de ganho mútuo: a revista ganhava “furos” de reportagem – verídicos ou factóides – e em troca os adversários de Cachoeira tinham sua vida dificultada pela revista. Foram mais de 200 ligações flagradas nas escutas entre o jornalista e o bicheiro.
Fica claro, por exemplo, que a gravação de vídeo que detonaria o suposto “Mensalão” na verdade era uma vingança de Demóstenes Torres pela sua não nomeação para um cargo no Ministério da Justiça. Ele se transferiria do DEM para o PMDB a fim de ocupar o cargo, e atribuiu ao então Ministro da Casa Civil a responsabilidade pela não-nomeação.
Daí a revista foi utilizada por Cachoeira e Demóstenes para veicular o vídeo no qual o servidor marinho aparece recebendo R$3 mil de propina – que desencadeou toda a crise do Mensalão. Sebe-se agora que todos os principais “furos” da sucursal de Brasília revista foram, por assim dizer, “preparados” pela turma de Cachoeira e mostram bem o “modus operandi” da revista no submundo de Brasília. Nas palavras do jornalista Luis Nassif:
As digitais do bicheiro e seus associados, incluindo o senador Demostenes Torres, estão nos principais furos da Sucursal de Brasília ao longo do governo Lula: os dólares de Cuba, o dinheiro das FARC para o PT, a corrupção nos Correios, o espião de Renan Calheiros, o grampo sem áudio, o “grupo de inteligência” do PT.

O que essas matérias têm em comum:

1) A origem das denúncias é sempre nebulosa: “um agente da Abin”, “uma pessoa bem informada”, “um espião”, “um emissário próximo”.

2) As matérias sempre se apoiam em fitas, DVDs ou cópias de relatórios secretos – que nem sempre são apresentados aos leitores, se é que existem.

3) As matérias atingem adversários políticos ou concorrentes nos negócios de Cachoiera e Demostenes Torres (o PT, Lula, o grupo que dominava os Correios, o delegado Paulo Lacerda, Renan Calheiros, a campanha de Dilma Rousseff)

4) Nenhuma das denúncias divulgadas com estardalhaço se comprovou (única exceção para o pedido de propina de 3 mil reais no caso dos Correios).

5) Assim mesmo, todas tiveram ampla repercussão no resto da imprensa.
Entretanto não irei me deter especificamente neste caso, embora ele seja revelador dos métodos da publicação. A revista semanal nos anos dos Governos Lula e Dilma se lançou em uma cruzada visando removê-los do cargo custasse o que custar. Foi uma sequência de matérias visando não a informar mas simplesmente criar condições a fim de que a normalidade democrática do país fosse interrompida.
Na prática a publicação se envolveu no que há de pior em termos de jornalismo: “assassinatos de reputação”, matérias para se dizer o menos tendenciosas, fontes de origem duvidosa, parcialidade e até mesmo episódios como o da invasão do quarto de hotel do ex-Ministro José Dirceu e o furto de documentos no referido local. Um caso clássico de “os fins justificam os meios”.
Com isso a revista perdeu credibilidade, circulação e hoje sobrevive basicamente em dois públicos: o de assinaturas em massa de governos tucanos – como São Paulo – e o da classe média conservadora que comunga dos ideias de que “Lula está sempre errado”. Contudo, as recentes denúncias apenas referendam o que a parcela mais pluralista da opinião pública desconfiava: de que o jornalismo havia sido jogado às favas em nome de um “objetivo maior”, ou seja, desinstalar o PT do Governo Federal, para o qual havia sido eleito pela maioria dos brasileiros.
Sem dúvida alguma, o comportamento da revista era o mais proeminente e, digamos, “no limite da irresponsabilidade”, mas toda a mídia conservadora de grande alcance brasileira se especializou neste segmento de “moralidade seletiva”: o que era do grupo político do Presidente Lula fartamente denunciado, o que era dos aliados políticos assunto proibido em seus veículos.
Vale lembrar que o chefão da área de jornalismo da Globo, Ali Kamel, montou uma verdadeira “seleção da demofobia” em seus quadros, com vários (proto) jornalistas notoriamente identificados com as teses políticas, ideológicas e econômicas da oposição brasileira. O mesmo se pode dizer dos grupos “Folha” e Estadão”.
Ou seja, estes são bons representantes de um jornalismo político claramente enviesado e que estava interessado muito mais em fazer política partidária que em informar. Vale lembrar que no caso específico das televisões, estas são concessões públicas e devem manter um compromisso com a verdade, a imparcialidade e a ética.
Atropelaram-se ao menos em parte as regras do jornalismo, omitiram-se notícias, fabricaram-se escândalos de corrupção e extinguiu-se o direito ao necessário contraditório. Agora o grande público começa a ver que a banda não era exatamente como a grande imprensa tocava.
Além disso os jornalismos políticos e econômico passaram a se submeter aos interesses dos donos das publicações de forma despudorada, havendo vários casos de “matérias” onde já se partia de conclusões previamente estabelecidas para a apuração, com torções, distorções e muitas vezes fatos ou declarações inexistentes.
As investigações deste caso, a meu ver, são uma boa oportunidade de se passar a limpo o jornalismo político brasileiro e extirpar esta perigosa cumplicidade entre notórios infratores do Código Penal, publicações, jornalistas, políticos, juízes e outros atores interessados. Urge, a meu ver, algum tipo de auto-regulamentação (que seja) que resguarde a notícia como principal alvo, e não interesses políticos, econômicos ou ainda pessoais.
Neste momento, todo o jornalismo político brasileiro está sob suspeita, embora saibamos que existam bons e maus profissionais. Finalizando, três adendos:
1) Fica claro que “a cruzada contra a corrupção” destes órgãos na verdade era uma simples luta pelo poder por meios eminentemente golpistas. Os “moralistas” dos partidos conservadores apontados como campeões da causa pública não passam de verniz embolorado, como o “Privataria Tucana” e o recente escândalo estão demonstrando.
2) O caso do grampo na sala do Ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes parece ter sido um imenso factóide. Acredito que as relações entre este e Demóstenes tragam revelações embaraçosas, para se dizer o menos.
3) Quer combater a corrupção de verdade? Fazer uma reforma política que diminua a necessidade de acordos e simplificar a Lei 8.666, das licitações, já seria um ótimo começo. Fica a dica.

3 Replies to “Veja, Demóstenes e o jornalismo político brasileiro”

  1. Pedro, respeito sua opinião.

    Todavia, pessoalmente, tenho absoluta aversão à ideia de regulação da imprensa, direta ou indireta, interna ou externa. Por mais salutar e oportuna que ela possa parecer, é um atalho para a censura. Pode até ser exercida, de início, por pessoas de boa índole e com bons propósitos, mas depois, essas mesmas pessoas serão sucedidas por outras que poderão ter outros escopos. Trata-se de uma bomba-relógio que, explodindo, pode ferir de morte a democracia. Então os riscos a ela inerentes não justificam os benefícios que hipoteticamente decorreriam de sua instauração.

    No mais, os supostos abusos e ilicitudes cometidas pela Veja, se é que realmente existentes, encontram barreiras no próprio Código Penal vigente. Isto é, me parece totalmente desnecessário criar um arcabouço normativo de regulação da imprensa, quando, a toda evidência, basta que a lei penal seja aplicada a contento. Na minha visão, se de fato essas contravenções não estiverem sendo devidamente apuradas, caberá apenas exigir maior proatividade dos órgãos de persecução penal (polícia judiciária e Ministério Público), para que os jornalistas infratores sejam punidos, caso comprovadas as ilicitudes.

    1. Marcelo, de certa forma já há uma auto censura por parte dos próprios órgãos quando casos como o da “Privataria” são sonegados ao grande público. me preocupa muito o jornalismo etar sendo desvirtuado em nome do interesse politico-partidário dos patrões.

      O colunista Walter Monteiro escreveu um artigo muito interessante sobre o assunto tempos atrás aqui mesmo no Ouro de Tolo.

      Outro caso emblemático é o da campanha do principal jornal impresso carioca contra a Petrobras. Se publicou muita inverdade na capa – a troco de quê?

      Algum tipo de auto regulamentação, a meu ver, seria necessária, algo como o Conar – mas com representantes da sociedade civil

      abraços

  2. Também sou totalmente contra qualquer tipo de controle da imprensa. Quer fazer uma imprensa de qualidade? que o governo faça sua empresa independente e venda a qualidade jornalística da mesma como forma de diminuir o espaço das outras imprensas. Tal qual a BBC.

    Agora, saindo de qualquer discussão sobre o Demóstenes em si, o que me preocupa é a força e, principalmente, o espaço atual da oposição. Se ela já era pequena, ficará próxima da insignificância e a oposição é absolutamente necessária ao jogo democrático.

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