Nesta sexta feira, a coluna “História & Outros Assuntos”, do Mestre em História Fabrício Gomes, traz uma resenha do primeiro volume daquele que, a meu juízo, é um dos dois maiores políticos da história do Brasil: Getúlio Dorneles Vargas.
Tenho o exemplar, que está na minha lista de leituras próximas. Vamos ao post.
A biografia histórica da esfinge que transformou o Brasil
“Sou contra biografias”
Com essa frase enigmática, dita por Getúlio Dornelles Vargas ao jornalista Rubens Vidal, repórter da extinta Revista do Globo, em 1950, o escritor cearense Lira Neto (autor das biografias do ex-presidente Castelo Branco, do escritor José de Alencar, da cantora Maysa e do religioso Padre Cícero) inicia um grande desafio: escrever “Getúlio (1882-1930): Dos anos de formação à conquista do poder”, Companhia das Letras, 629 páginas”.
Esta é a biografia histórica daquele que pode ser considerado o maior político brasileiro do século XX – e por que não, uma de suas figuras mais emblemáticas daquele século. Trata-se de tarefa árdua e paradoxal escrever sobre este gaúcho nascido em São Borja , em 1882, quando o Império brasileiro vivia o apagar das luzes dos salões da monarquia. Apelidado de “esfinge” – durante e após seu desaparecimento em 1954, Vargas foi uma espécie de camaleão que se metamorfoseava, com ambivalências e contradições que só quem pôde acompanhar sua trajetória política e pessoal – ou estudá-lo – é capaz de “tentar” decifrá-lo.
Nas entrevistas que concedeu durante a campanha de lançamento do livro, Lira Neto problematizou o fato, ao querer mostrar que Getúlio não foi vários em um – o revolucionário, o ditador e o democrata, mas apenas um político que soube adequar-se aos distintos contextos que a sociedade brasileira vivenciou na passagem da monarquia à República, na transformação de um Brasil agrário para um país que começava a se tornar urbano, graças à industrialização que começava a dar seus ares ainda na Primeira República. Esta que muitos ainda insistem de chamar de “República Velha”, num sentido pejorativo que desmerece um período que também correspondeu a significativas transformações em nossa sociedade.
O “camaleão” ambulante, que alistou-se no Exército (embora não tivesse nenhum tino para a carreira militar), tornou-se advogado e pertenceu à hegemônica oligarquia do Rio Grande do Sul, inspirada nos ideais de Júlio de Castilhos e posteriormente Borges de Medeiros – que ocupou, durante 25 anos a presidência daquele Estado.
Tornou-se deputado estadual, depois deputado federal, Ministro da Fazenda de Washington Luís até ser Presidente do Estado do Rio Grande do Sul. Vargas traduz a passagem de um modelo político saturado pela política do café-com-leite (alternância entre São Paulo e Minas na Presidência da República) para um período que representou o fim da predominância das oligarquias e a maior atenção às lutas sociais, inaugurando uma era que duraria quinze anos, até culminar, em 1945, com sua deposição do governo e o auto-exílio em sua fazenda em São Borja.
[N.do.E.: a meu juízo a Revolução de 30, que entronizou Vargas no poder, é a única Revolução de fato ocorrida na História do Brasil: saiu a oligarquia agrária, entrou a nascente burguesia citadina – ou seja, houve mudança de ‘status quo’. Voltarei ao tema.]
Um dos inúmeros desafios enfrentados pelo autor foi o de que, apesar de existirem inúmeros trabalhos (livros, dissertações de mestrado e teses de doutorado) sobre Getúlio Vargas, não há nenhum que corresponda à categoria de “biografia histórica”, stricto sensu.
Oficialmente, Vargas teve três biografos, os quais abriu seus arquivos pessoais: André Carrazoni, Paul Frischauer e Leal de Souza. No entanto, os três produziram, não biografias, mas hagiografias, em plena vigência do Estado Novo.
Numa linha oposta, em 1977 – na plenitude do regime de exceção inaugurado em 1964, Affonso Henriques escreveu “Ascensão e Queda de Getúlio Vargas”, desconstruindo a personagem. Tal fato comprova a imagem negativa que Vargas tinha para os militares pós-1964, que se lançaram numa campanha para torná-lo desimportante para o Brasil, pormenorizando sua figura política.
Numa espécie de biografia do governo Costa e Silva, escrita pelo general Jayme Portella, em 1979, este não chama Getúlio Vargas pelo nome e sim como “O Ditador”. Perfis biográficos também foram escritos sobre ele, porém, sem o detalhismo e a meticulosidade que uma biografia merece ter, amparada de fontes primárias e material de pesquisa.
Admitindo que seria impossível contar a vida de Vargas em apenas um livro, o autor tomou a acertada decisão de fazer uma trilogia.
Este primeiro volume aborda os anos de 1882 (ano de nascimento da personagem) e 1930 (quando a Revolução é vitoriosa e Getúlio assume o governo). O segundo volume será lançado no próximo ano e irá narrar os quinze anos em que Vargas esteve à frente da Presidência. Neste período comandou o Governo Provisório, foi ditador durante o Estado Novo, vivenciou a Segunda Guerra Mundial – onde soube como ninguém utilizar de estratégia política para angariar, por exemplo, a construção da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda – e foi deposto do poder pelos generais Pedro Aurélio de Góes Monteiro e Eurico Gaspar Dutra – que viria a ser o próximo Presidente da República.
Por fim, em 2014, anuncia-se o terceiro e último volume, que abrange o exílio em São Borja , a volta à Presidência sob o voto popular e seu desaparecimento em 24 de agosto de 1954. Getúlio suicida-se com um tiro no coração, jogando seu cadáver à veemente oposição, numa das mais fantásticas manobras políticas já vistas.
O que torna este primeiro volume um trabalho edulcorado e digno de reconhecimento foi a quantidade de arquivos, fontes primárias e livros sobre o período pesquisados, num trabalho que tomou dois anos e meio do autor. E justamente por fazer a abordagem de um período praticamente desconhecido pelo grande público – salvo os especialistas, que foi a infância, a adolescência e sua passagem como liderança política no Rio Grande do Sul.
É como se Getúlio Vargas estivesse preso a uma cápsula do tempo, onde fosse identificado apenas como ditador entre 1937 e 1945 e à madrugada de 23 para 24 de agosto de 1954. Fora essas temporalidades, é como se a “esfinge” estivesse obscura, desconhecida e inatingível aos olhos dos leitores. Por isso a dificuldade que o autor encontrou em transpor barreiras e responder a uma pergunta que o leitor faz logo na primeira página do livro: “O que esperar de uma biografia sobre Getúlio Vargas?”
Dois dos grandes momentos do livro correspondem, sem dúvidas, à elucidação de possíveis crimes os quais Vargas teria participado na adolescência. Apoiado em fontes e autos policiais da época, o autor desmente, por exemplo, o boato plantado por Carlos Lacerda de que Vargas teria assassinado o estudante paulista Carlos de Almeida Prado, em Ouro Preto , e também o índio Tibúrcio Fongue, em Inhacorá (RS).
O autor reafirma o verdadeiro sentido que a biografia adquiriu, após a retomada do gênero pela historiografia, de não apenas ater-se aos acontecimentos das grandes personagens históricas, mas de procurar relacioná-las ao contexto político, social e econômico de uma época, com atenção à sua rede de sociabilidades e entendendo seu papel como parte de uma estrutura.
Também não podemos deixar de destacar a importância que duas personagens “periféricas” tiveram na vida política de Getúlio: João Neves da Fontoura, deputado federal e líder da bancada gaúcha no Congresso, e Oswaldo Aranha, primeiro como secretário de governo estadual e depois como presidente interino do estado do Rio Grande do Sul. Através deles, é possível entender como aconteciam as ações políticas que levaram à Revolução de 1930 estourar e ganhar milhares de adeptos no Brasil.
Uma biografia para ler e entender o Brasil da Primeira República, promissor de profundas transformações e rumo à modernidade. Que venham os demais volumes.
Tanto alarde para tão pouca coisa !