Antes de mais nada, um aviso aos leitores: o tema é altamente polêmico. É algo que vem me incomodando há muito tempo, que é a ostensiva presença dos grupos neo-pentecostais na vida brasileira, sua influência política e sua teoria de que “são os escolhidos”.
Grosso modo, a teoria neo-pentecostal, baseada em uma interpretação bastante particular da Bíblia, é a seguinte: não importa o que você tenha feito em sua vida terrena, se na hora da morte você se “converter” estará salvo. Ou seja: você pode matar, estuprar, roubar, enganar os outros, fazer o que quiser, desde que na hora da morte se arrependa e se converta.
Por outro lado, se você faz o bem a vida inteira, acumula méritos, leva uma vida honesta e ética, pratica a verdade e o belo e se dedica à causa de Deus, mas em outra religião: vai direto para o inferno, sem escalas, para o sofrimento eterno.
Não sou profundo conhecedor de Teologia, mas isso não me parece nem um pouco coerente. E se tem uma característica Divina, esta é a justiça. Só que não falarei aqui de Teologia. Quero chamar a atenção para os efeitos práticos desta postura das seitas neo-pentecostais.
Darei o exemplo do trânsito: 90% das fechadas que eu levo no dia a dia insano do tráfego carioca, invariavelmente, possuem no vidro traseiro adesivos do tipo “Deus é Fiel”, “Ministério Apascentar”, “Canção Nova”, “Primeira Igreja Batista de São Longuinho do Oeste” e coisas semelhantes.
Como a doutrina evangélica prega que estes são “os escolhidos”, o homem alarga este conceito e resolve que tem prioridade em tudo: no trânsito, nos empregos, nas filas e em qualquer lugar em que necessite haver algum tipo de ordem. Diga-se de passagem, esta conduta não é privilégio dos representantes de tais denominações: é apenas mais exacerbado.

Sempre veem o próprio lado e a própria conveniência em primeiro lugar. Em seu raciocínio, como são os “escolhidos” por Deus, obviamente creem que são mais importantes que as outras pessoas. Isso implica em outra coisa: na necessidade que possuem de impor a sua crença e seus valores a outras pessoas de forma muitas vezes invasiva.

A prática política é bastante emblemática e excelente exemplo do que acabei de citar: ao invés de utilizarem a religião para buscar algum tipo de reforma ética na política, não somente não o fazem como ainda utilizam os fiéis como massa de manobra. Assim eleitos, repetem as velhas manias da locupletação e da perpetuação de estruturas há muito carcomidas e viciadas.
Este posicionamento também é baseado na tentativa de impor suas convicções ao restante do país através da aprovação de leis que reflitam a sua doutrina ou a sua postura política e doutrinária. Um bom exemplo é a lei aprovada recentemente pela Assembléia Legislativa paulista que limita o consumo de álcool a residências e locais fechados onde não haja qualquer tipo de relacionamento com o Poder Público – alvo de post anterior.

Emblemática também é a defesa da homofobia, com “vistas grossas” para os casos de violência ocorridos contra os homossexuais. A lei que criminaliza a homofobia está emperrada no Congresso Nacional justamente devido à pressão feita pela bancada representante das seitas pentecostais – que, alias, vem atuando em “dobradinha” com a bancada ruralista em assuntos que dizem respeito às duas bancadas. Hoje, no Brasil, incitar violência não é crime quando se trata de gays e lésbicas – incrível.

A pregação contra os homossexuais, a propósito, acaba a meu ver incentivando este tipo de prática violenta, com assassinatos e casos de violência se sucedendo – e líderes destas denominações quase que adotando a postura de que “a vítima mereceu”.

Em termos partidários, há correntes que apoiam o governo, como a Igreja Universal do Reino de Deus, e outras oposicionistas representadas, por exemplo, pelo Pastor Silas Malafaia (foto). Entretanto, estão unidas em temas “morais” que possam representar algum tipo de contrariedade à doutrina – a Igreja está sobre os partidos.

Cabe também a meu ver um debate mais aprofundado sobre a questão do Estado laico. Este não é um comportamento apenas das seitas evangélicas, mas das igrejas cristãs como um todo, que exigem serem ouvidas e determinarem políticas de Estado como se não houvesse separação entre a doutrina religiosa e a organização do Estado brasileiro.

Bons exemplos disso são o recente julgamento das questões do aborto de fetos anencéfalos e da união civil entre pessoas do mesmo sexo no Supremo Tribunal Federal e a oposição da Igreja Católica a políticas de difusão de métodos anti-concepcionais. Estes são exemplos de uma influência a meu ver indevida da religião no Estado, que a meu ver tende a se intensificar se não houver uma reação por parte da sociedade civil.

Estado é Estado, Religião é Religião. Devem caminhar separadas pera o bem da democracia.

Nos locais de trabalho também vemos bons exemplos desta práxis. Geralmente, não medem esforços para privilegiar-se, não importando o que ocorrerá com os colegas. Passei certa vez uma situação onde uma colega de trabalho queria me exorcizar cada vez que dizia que iria ao samba. Mas tramou com os chefes a minha demissão a fim de ficar no meu lugar.

Não podemos nos esquecer que todas estas restrições de comportamento – proibir o consumo de álcool, proibir músicas que não sejam de “louvor e adoração”, impedir que se frequentem diversões várias e outras – possuem um fundo nitidamente econômico. A música “Gospel” brasileira – que não tem rigorosamente nada a ver com a americana, diga-se de passagem – hoje é um negócio que gira milhões de reais às seitas.

Lembro, também, que se gastando menos com divertimentos e álcool sobra mais recursos para a oferta – e olha que escrevo isso com bastante conforto, pois sou dizimista e tenho total noção do valor da gratidão a Deus. Entretanto, a fronteira entre a gratidão e o interesse material dos líderes é bastante tênue, para se dizer o menos – as Igrejas evangélicas, hoje, são antes de tudo um negócio.

Por outro lado há a característica dos fiéis de impor suas convicções aos outros: basta ir a uma festa, por exemplo, para se perceber que tudo é feito em função da doutrina. Não importa a satisfação dos convidados, estes tem de se adaptar – e se possível, convertidos forem.

Evidente que a culpa não é da Bíblia, mas sim das interpretações oportunistas da mesma a fim de colocar Deus a serviço de suas conveniências. A meu ver isto não é adequado.

5 Replies to “A práxis evangélica”

  1. bom, as instituições são formadas por homens e homens assim como vc, erram… peço desculpa por todos… e deixo meu abraço a vc! Deus te abençoe!

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