Neste primeiro artigo da série o colunista desvenda o caminho desde 1808 – que marca o início da imprensa brasileira – até a Revolução de 30.
As partes restantes deverão ser publicadas na próxima sexta feira e na segunda que vem.
Perigos Midiáticos – a trajetória da imprensa (oficial e crítica) no Brasil (Parte 1: 1808-1930)
Mas talvez pouca gente saiba – ou se lembre, já que provavelmente estudou isso na escola, ainda que rapidamente – é que 80 anos antes da Lei Áurea nascia oficialmente, também no Rio de Janeiro, a imprensa brasileira.
A Imprensa Régia foi criada por D. João, então Príncipe Regente, e tudo que era publicado primeiro era fiscalizado por uma comissão formada por três pessoas, designadas pela Família Real, a fim de que nada se imprimisse contra a religião, o governo e os bons costumes.
Toda e qualquer outra tipografia que não saísse da Imprensa Régia era censurada, inclusive com a destruição de máquinas.
No entanto, é importante entender o contexto da época: acreditava-se que tudo que publicado fora da Imprensa Régia não era notícia. E sim doutrinas e propagandas ideológicas capazes de cooptar os segmentos da sociedade.
No dia 10 de setembro de 1808 surgia a Gazeta do Rio de Janeiro – o primeiro jornal publicado na América Portuguesa. O jornal era impresso com tecnologia importada da Inglaterra. O veículo só publicava notícias boas da Coroa. Foi o primeiro a ser publicado em território nacional – mas não o primeiro jornal brasileiro.
É que bem longe daqui, com um oceano nos separando, em Londres, surgia também a imprensa contestadora. E o mais interessante: surgiu antes mesmo do primeiro veículo “chapa-branca”, mais precisamente três meses antes. Em 01 de junho, o exilado Hipólito José da Costa lançava o primeiro jornal brasileiro: o Correio Braziliense.

Só em 1821 é que termina a proibição a jornais que não fossem impressos pela Imprensa Régia. Depois, ao longo do Império, surgiram jornais amplamente identificados com correntes políticas – liberais, conservadores – favoráveis ou não a D. Pedro. A maioria dos jornais era subvencionada por partidos políticos.
Mas faltava organização e profissionalismo, e grande parte deles surgia de maneira efêmera, apenas para apoiar ou criticar determinado acontecimento. A campanha republicana, a Guerra do Paraguai, a Abolição da Escravatura… Jornais de até quatro páginas, que duravam poucos meses. A Gazeta de Notícias e O Paiz foram jornais que surgiram no Império e resistiram até a Era Vargas. D. Pedro II foi muito criticado, em tom de ironia, por exemplo, nas charges de Angelo Agostini, como um monarca idoso, despreocupado com a vida do país, alheio a tudo.
Com a Proclamação da República, em 1889, parecia que enfim, os bons ventos da liberdade seriam sentidos pela população e principalmente pela imprensa.
A Primeira República – ou República Velha, para aqueles que preferem um tom depreciativo a esta época da história do Brasil – representou a ascensão das oligarquias de São Paulo e Minas.
Muitos jornais foram criados – e subsidiados – pelos barões do café, defendendo seus interesses, em oposição a outros veículos criados para agirem como contraponto. No entanto, existiam oligarquias também em outros estados brasileiros, como o Rio Grande do Sul, por exemplo. A família Vargas contava com jornais favoráveis em São Borges e também em Porto Alegre, apoiando o quarto de século em que Borges de Medeiros, presidente do Estado, mandava no poder.
Engana-se, contudo, quem pensa na imprensa, na Primeira República, como ligada apenas às elites cafeicultoras e grandes industriais: o jornalismo operário agiu como contraponto à grande imprensa liberal. Surgiram jornais ligados aos sindicatos dos estivadores, no Rio de Janeiro e Santos, e também ao campesinato e aos operários nas fábricas.
Em uma época onde o anarquismo pulsou forte no meio operário, jornais como “A Terra Livre” carregavam nas tintas em tom de crítica à exploração dos empregados e às condições subumanas de trabalho, defendendo a causa de uma sociedade igualitária e sem classes. O poder emanaria do povo, sem leis e sem exploração do sistema econômico.
As eleições para a presidência, em 1930, foram travadas em grandes debates nos jornais, com artigos inflamados dos Republicanos da situação contra a Aliança Liberal (Partido Republicano Rio-Grandense, Partido Republicano Mineiro, Partido Democrata de São Paulo, entre outros).
O jornal O Paiz, por exemplo, era situacionista e ironizava a figura de Vargas; por outro lado, O Jornal, de Assis Chateaubriand, apoiava claramente Vargas e João Pessoa na campanha.
Há a interpretação de que a Revolução de 1930 tenha sido um golpe de estado justamente por ter subvertido a lógica dos resultados apresentados no fim da apuração dos votos, que deu a vitória a Júlio Prestes. Uma grande desconfiança de fraude povoava as mentes oposicionistas, que não aceitaram o resultado, por isso então, a transição presidencial do Palácio do Catete teve que ser feita com tiros de balas e canhões.