Venho acompanhando com interesse uma série de eventos de “higienização” que os governos estadual e municipal de São Paulo vem empreendendo nos últimos tempos, guiados por interesses diversos tanto da linha política dominante como de uma elite fechada em si mesma como algo escolhido por atribuição divina..
Todos estes movimentos são guiados pela mesma motivação: “limpar” as ruas, diminuir os espaços públicos como espaços de reunião, limitar a associação, retirar os mais pobres das vistas dos mais ricos. Não sou sociólogo mas é algo bastante interessante de se observar.
O episódio mais célebre foi o corrido na Cracolândia, onde tiraram os viciados da região no centro da cidade e os colocaram para outros locais sem haver o menor acompanhamento social: foi na base do cassetete.
Cassetete também que vem sendo utilizado pela Polícia, a mando dos governantes locais, para reprimir quaisquer tipos de greves e manifestações populares. Vale lembrar que a USP, a Universidade de São Paulo, foi invadida pela Polícia em pelo menos três ocasiões no passado recente. Seu reitor, escolhido pelo Governador Geraldo Alckmin, assumidamente tem a postura de reprimir os movimentos estudantis e de professores e funcionários.
Outro bom exemplo é a repulsa aos moradores de rua. A Prefeitura instalou “rampas anti mendigos” embaixo dos viadutos da cidade, a fim de impedir que possam pernoitar ali. Também quer proibir a construção de prédios com marquises e onde não pôde estabelecer outras medidas colocou pedras e cacos de vidros.
A última medida a fim de expulsar os moradores de rua é a inacreditável tentativa de proibição da sopa que entidades de caridade distribuem a mendigos no centro da cidade (foto). O propósito original era o de responsabilizar cível e criminalmente aqueles que distribuem comida aos que tem fome.
A alegação da prefeitura era de que esta proibição “forçaria os moradores de rua a procurarem os abrigos, onde teriam atendimento adequado”. Só que tem dois detalhes: os ditos centros ficam fora do centro da cidade e há reiteradas denúncias de que não passam de “depósitos de gente”.
Lembro aos leitores que nem Hitler criminalizou a distribuição de comida. Com a repercussão na grande imprensa a prefeitura voltou atrás, mas certamente voltará à carga.
Outro bom exemplo deste fenômeno de “esvaziamento” é o fechamento de todos os locais de “saraus” existentes na periferia na capital paulista. Eram espaços de reunião das comunidades mais pobres, difusão de lazer e da cultura “hip hop”. Estão todos sendo fechados pela prefeitura sob a alegação de que “não possuem alvará”, mas me parece que o objetivo claro é impedir, ou dificultar, a organização destes grupos.
Também se deve lembrar a recente lei aprovada pela Assembléia Legislativa que proíbe o consumo de álcool ao ar livre e restringe o seu consumo em locais fechados. Mais uma vez haverá como resultado o esvaziamento dos espaços públicos e restrições ao direito de reunião.
Percebo dois grandes grupos de razões a motivar este comportamento dos políticos atualmente no poder em São Paulo.
O primeiro é limitar a organização dos movimentos sociais. Alckmin e Kassab adotaram o velho lema do ex-presidente Washington Luis de que “a questão social é caso de Polícia”, e assim vem procedendo. Qualquer tipo de demanda social é tratada da mesma forma: com a Polícia batendo nos manifestantes, ainda que não ofereçam risco à sociedade ou a ordem pública. O recente caso da invasão da USP é um bom exemplo disso.
Outro arquétipo desta forma de atuar, ainda que já um pouco distante, foi a desocupação da ocupação de Pinheirinho, em São José dos Campos, para atender à reintegração de posse de uma área grilada pelo especulador Naji Nahas.
Diga-se de passagem, esta estratégia de criminalizar as demandas sociais foi adotada pelo partido no poder em São Paulo quando esteve no poder federal – entre 1995 e 2002.
O segundo grupo de razões reside no próprio fato da elite paulistana, reacionária até o último fio de cabelo, demandar que elementos “indesejáveis” sumam de suas vistas. Com isso aqueles integrantes de classes sociais menos favorecidas devem ser “exilados” para áreas de periferia a fim de ficar fora das vistas deste público.
É uma espécie de “apartheid” não declarado: os moradores de maior renda se apropriam de seus espaços públicos contando com seu braço na municipalidade e no governo estadual. Não deixa de ser uma privatização “branca” destes locais.
Note-se que é a mesma elite que paga R$ 5 mil para comprar um cachorro, mas reclama que “as babás estão querendo ganhar muito” – quando este muito, na maioria das ocasiões, equivale a R$ 1,5 mil.
Foi a mesma classe que fez campanha contra uma estação do metrô no bairro de Higienópolis, alegando que atrairia ao bairro de classe alta a “gente diferenciada” – leia-se: pobres.
A política paulista contempla estes interesses. Então se explica a expulsão de moradores de rua, viciados em crack e todo tipo de desvalido para as periferias – bem longe das Tucsons, CRVs, Mercedes e BMWs dos “escolhidos”. Não é exagero afirmar que para setores mais radicais desta elite “pobre bom é pobre longe – de preferência morto”.
Comportam-se como o povo “escolhido”.
Não se pode esquecer também que estão sendo lançados novos empreendimentos imobiliários em áreas como a da Cracolândia e onde existiam favelas antes de serem incendiadas. Não havendo moradores de rua nem gente pobre o valor do metro quadrado sobe – é a perversa lógica do mercado.
Com tudo isso, pode-se dizer que em médio prazo o sentido de coletividade tende a se diluir na capital paulistana. Os espaços de reunião popular estão ficando cada vez mais limitados, as camadas mais pobres na medida do possível confinadas à periferia e temos o poder público subordinado aos interesses de uma minoria demófoba e excludente.
Espaços e reuniões limitados, o que se pode afirmar é que a organização popular tende a se tornar mais fragmentada e dificultada, soterrada em um mar de proibições determinadas pela administração pública – até o “ovo mole” dos botecos foi proibido, por exemplo. Um clima de opressão se torna “natural” e há o estímulo ao comportamento individualizado a partir do momento que reuniões são consideradas “fora da ordem” – logo, devem ser reprimidas.
O poder econômico e a exclusão social venceram a batalha. Infelizmente. Pensamentos classificados como “desumanos” tornam-se “normais”.
Isto é São Paulo hoje. Lamento profundamente o que ocorre.

3 Replies to “São Paulo, o povo escolhido e o esvaziamento da coletividade”

  1. Um exagero.. SP tem uma bosta de politica higienista sim… mas muito longe do exagero que o amigo escreve… Muita coisa que sai em blog radical tem lá seu mérito mas no bojo isso não chega a grande população.. Tem uma meia duzia que tapa o nariz mas resumidamente é ela… A cracolândia foi absurdo enxotado por todos .. mas ta todo mundo lá de novo .. O projeto de lei foi aprovado numa comissão da Assembléia mas nunca vai passar… Sem chutometro , Migão.. No Rio propuseram fazer um muro na favela e num era igual?? mas aí é aliado e pode?? menos né

    1. Emerson, a lei sobre o consumo de álcool foi aprovada pelo plenário da Assembléia e seguiu para sanção do Governador.

      Sobre o Rio, será tema de post futuro.

      abs

  2. Acho assustadora esta política implementada em São Paulo. Na última semana, os moradores de rua desapareceram das redondezas da av. Angélica. Vi, de madrugada, alguém chegando em uma barraca de um morador de rua, não havia qualquer tipo de identificação, se era policial ou outro tipo de funcionário. No outro dia, a barraca havia desaparecido. Isso foi perto da rua Minas Gerais. Hoje encontrei dois cães perdidos nas ruas do bairro aparentemente procurando por seus donos. A presença dos cães indica que estas pessoas foram retiradas (expulsas, “desaparecidas”) de maneira forçada, não se mudaram, se assim fosse, teriam levado os seus cães. Temo pelo destino que tiveram os moradores de rua. As ações são feitas de madrugada e longe dos olhares da população. Os mais pobres não tem defesa, o “higienismo” está a todo vapor por aqui. É assustadoramente desumano.

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