Nesta quarta feira, a coluna “Bissexta”, do advogado Walter Monteiro, fala do mais novo fenômeno na televisão brasileira: a novela “Avenida Brasil”.
Avenida Brasil – A incomparável emoção de torcer
Nos círculos que eu frequento (ou melhor, nos que eu valorizo), pega muito mal gostar de novela. Novela é associada a um tipo de cultura muito precária, para paladares intelectuais de baixa exigência – a novela representaria, no universo cultural, o mesmo que o Big Mac representa no ramo da gastronomia. Tanto assim que a última novela que eu acompanhei de verdade foi Vale Tudo, que foi ao ar em 1988 – eu ainda estava na faculdade.
Vi a estreia de Avenida Brasil.
Meu projeto era ver apenas a estreia e ainda assim por uma razão muito particular, que me tocava o coração: o protagonista da novela interpretava um jogador do Flamengo, que faria um gol decisivo em uma final contra um time cheio de referências ao Vasco.
Percebi, de cara, que havia algo de diferente naquela novela: as cenas eram filmadas como em película, assim como nos filmes. E o primeiro capítulo tinha um ritmo frenético, com muita coisa relevante acontecendo. Mas foi só, deixei a novela de lado…
O que sempre me incomodou em novelas é que muda o cenário, mudam os atores, mas não muda a história. Tem um núcleo de milionários, que vivem uma vida de sonhos. Tem um vilão muito mal, que a todos maltrata, em especial a algum personagem muito sofredor. A novela fica um ano no ar, com o malvado praticando todas as malvadezas e a vítima indefesa vai se redimir na última hora. Em paralelo, um monte de histórias inúteis, para encher linguiça.
Percebi que alguma coisa de diferente estava acontecendo em Avenida Brasil quando duas das pessoas mais noveleiras que conheço estavam se queixando da novela. Dei asas para a desconfiança e passei a acompanhar.
Pois olhem: como se diz hoje em dia, ‘garrei amor’ pela novela.
Creio que deva ser a novela com o menor número de personagens. Isso concentra a ação naquilo que realmente importa, que é o embate entre Adriana Esteves e Débora Falabella (essa, a meu ver, um tom abaixo do desempenho espetacular da primeira). Claro que há umas escorregadelas nonsense e desagradáveis, como um bobalhão cercado de três mulheres estúpidas, mas dá para relevar [N.do.E.: não dá para chamar de estúpida a Camila Morgado (risos)].
A melhor surpresa é que não há o insuportável núcleo dos milionários. Todos os ricos desta trama têm origem no subúrbio e tirando o tal bobalhão que vendeu uma empresa para uns espanhóis, ainda moram lá mesmo.
Tufão, o ex-jogador que é o mais rico de todos, tem o mesmo jeitão simples de suburbano: não tem helicóptero, não viaja para a Europa, não tem o típico comportamento de novo rico. Isso gera uma identificação imediata em todos nós: é possível ascender socialmente, seja jogando bola, seja montando uns salões de beleza, sem perder a essência que nos moldou.
E não há propriamente mocinhos ou vilões.
A briga de Carminha x Nina/Rita é uma disputa de muita malícia, com cada uma delas carregando seu fardo de sofrimento e sua cota de maldades. É impossível assistir aquilo e não se envolver. Eu, a cada noite, enquanto lancho, torço para Nina como se fosse possível intervir nos destinos da história.
Só não esqueço de vez essa chatice de Mensalão exatamente porque Carminha está para mim assim como José Dirceu estava para Roberto Jeffferson, ou seja, mexendo com meus instintos mais primitivos.
Impressiona também o grau de verossimilhança do enredo.
Em geral, novelas se pautam por combinar situações absurdas, para conectar núcleos de milionários ao núcleo dos pobres de forma forçada. Desse mal ficamos livres, os personagens se unem de modo natural. Além disso, os suburbanos não são estereotipados: são pessoas de carne e osso, gente como se vê na vida real cotidianamente.
Em resumo, é impossível ficar indiferente à Avenida Brasil.
Uma diversão de muita qualidade, em ritmo acelerado, atores inspirados e cenografia de primeira. Só torço para que acabe logo, para que eu possa me libertar do hábito tão logo as novelas voltem ao seu curso normal, ou seja, um monte de personagens apatetados, plastificados e irreais. Avenida Brasil, com seu sopro de modernidade, é, certamente, uma bela exceção em um gênero que já deu o que tinha que dar.

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