Neste sábado, mais um conto da coluna do compositor Aloisio Villar, a “Buraco da Fechadura”.
República dos Meninos

César Vieira é um daqueles caras que podemos dizer que venceu na vida. Nasceu em berço pobre em uma favela no Rio de Janeiro. Lutou e perseverou até se tornar um dos homens mais poderosos do país.

Nasceu no morro do Dendê, que fica no bairro da Ilha do Governador, o quinto entre sete irmãos. Não chegou a conhecer os dois mais velhos – falecidos após entrarem na marginalidade. Com oito anos de idade César já vendia balas e chicletes em sinais de trânsito, com dez anos engraxava sapatos.

Mas nunca deixou de estudar: sua mãe dona Penha fazia questão de todos os filhos na escola e César se empenhava, era um dos melhores alunos do colégio e enchia a mãe de orgulho.

O garoto acordava todos os dias cinco horas da manhã. Tomava café, quando tinha café, tomava banho e pegava o 328 (Bananal/Castelo). Chegava à Central do Brasil pouco antes das oito e engraxava sapatos até meio dia. Pegava o ônibus de volta e ia direto ao colégio. Aproveitava para almoçar lá, porque almoço em sua casa era luxo.

Estudava e no fim da tarde voltava para casa. Voltava quando podia subir o morro, quando ele não estava em guerra. Nesses casos César se virava e dormia pelas ruas mesmo. Com tudo em paz ele subia, fazia seus deveres, jantava quando a família tinha grana para comprar comida e dormia – para no dia seguinte começar tudo de novo.

César era aluno nota dez e isso abria portas para ele.
Dono de uma grande inteligência, não gostava de jogar bola, nem brincar na rua. O dinheirinho que juntava não comprava roupas e sim livros. Os professores notavam seu grande esforço e capacidade e indicavam cursos gratuitos a ele, davam livros. César começava a se destacar no meio daquela miséria.

Adolescente se converteu e virou evangélico. Fez grande amizade com o pastor local e foi morar em sua casa. O pastor lhe tratava como um filho e dava suporte para os estudos de César tanto na escola quanto religioso. O sonho do menino era ser pastor.

Além do lado religioso César também tinha um lado político. No segundo grau tornou-se presidente do Grêmio Estudantil e  um dos líderes da favela, fazendo parte da direção da associação de moradores.

Esforçou-se, lutou e entrou para uma universidade pública. Nesse período o pastor, seu protetor, foi preso acusado de abuso de menores. César assim assumiu a igreja.

Virou pastor e na universidade presidente do DCE: César era ambicioso e queria cada vez mais. Com seu carisma e talento ampliou a igreja e montou filiais, entrou para um partido político e decidiu se candidatar a vereador. Com apoio do morro e dos religiosos de sua igreja se elegeu e destacou-se como uma nova liderança na cidade. Não demorou muito e foi eleito deputado federal.

César Vieira, menino pobre, engraxate, com seu esforço, inteligência e carisma transformou-se em político e líder religioso poderoso.

Nesse momento conheceu Amanda Lacerda, filha de José Lacerda, presidente do partido. Engataram um namoro, noivado e se casaram. Tiveram três filhos e a carreira de César ia cada vez melhor. Conseguiu concessão de uma rádio, depois de outra… Até ter uma cadeia de rádios pelo Brasil.

Mas ninguém é perfeito… Nem mesmo César Vieira.

Uma tarde foi procurado pelo ex pastor, preso por abuso de menores. O diálogo foi tenso: o ex pastor pedia ajuda e César negava dizendo que já havia lhe ajudado muito. O homem disse que seria melhor que César lhe ajudasse, pois teria muito a contar.

Basicamente uma chantagem rolava ali e César cedeu, dando dinheiro ao homem. Antes dele sair virou-se para César e disse que por tudo que fez ao deputado merecia muito mais. Tentou tocar em seu rosto e César impediu com violência respondendo que se tentasse tocar nele mais uma vez iria se arrepender amargamente.

Nem precisou tocar de novo. Uma semana depois o ex pastor foi atropelado por um ônibus enquanto esperava no ponto e faleceu na hora. Uma morte muito suspeita.

Uma vez me falaram que todo moralista era pervertido e esse ditado se aplicava bem a César. O homem gostava de pegar o carro depois que a esposa dormia e andar pelas ruas da cidade.

Vagava pelos lugares considerados de maior ‘baixo nível’ à procura de aventuras e invariavelmente acabava atrás dos meninos de rua. Quanto mais jovens melhor.

Parava seu carro perto de grupo de meninos e os chamava. Aproximavam-se e ele convidava para entrar. Meninos com mais ou menos nove, dez anos de idade. Idade que César trabalhava para ajudar a sustentar sua família.

Saía com os meninos indo a algum lugar escuro, abandonado e depois voltava para casa. Tomava banho e deitava-se ao lado de Amanda como se nada tivesse acontecido.

César era discreto e ninguém ficava sabendo de suas perversões. Quem sabia já estava a sete palmos debaixo da terra.

Os anos passavam e César cada vez mais poderoso. Tornou-se ministro do trabalho e conseguiu uma concessão de tv. Sua igreja já tinha ramificações por toda América do Sul e Europa, tornando-se a mais poderosa evangélica do Brasil. César já criava novas ambições na mente.

Com a morte de José Lacerda tornou-se presidente do partido e começou a costurar apoios para virar governador do Rio de Janeiro.

As pesquisas indicavam que ele era a melhor opção do partido. César tinha programa matinal em uma de suas rádios, onde ajudava a população e isso fez do deputado uma pessoa popular. Nas tais pesquisas encomendadas seu partido viu que ele era líder disparado na sucessão do Palácio Guanabara e assim seu nome foi homologado.

Costurou acordos no mínimo estranhos. Fez reunião com milicianos e dessa forma conseguiu apoio das comunidades dominadas pelos criminosos.

Era o único político com acesso a essas comunidades para fazer discursos e mostrar suas propostas. Conseguiu o mesmo acesso em favelas do Terceiro Comando, Amigos dos Amigos e Comando Vermelho. O deputado de Deus fez pacto com o diabo.

Mas um dia a casa cai..

Uma manhã César foi acordado por Amanda, histérica com uma revista na mão. César perguntou qual era o problema e Amanda jogou a revista sobre ele.

Eram denúncias.
Muitas denúncias de desvio de verbas, Caixa 2, tráfico de influências e acordos com milícia e traficantes. Os podres de César todos escancarados na revista dominical.

O deputado resolveu reagir e dar uma entrevista coletiva se explicando e negando toda a situação, mas a coisa piorava a cada dia. Um jornalista da tal revista, Jairo Mello tornou-se a maior pedra em seu sapato e a cada semana novos escândalos surgiam.

Escutas telefônicas surgiram e testemunhas das negociatas. César, em desespero, tentou levar a questão para religião. Parou de se defender e acusou a imprensa de perseguição religiosa.

Fez um evento na praia de Copacabana para um milhão de pessoas, com shows e discursos em desagravo a ele. A questão virou uma guerra religiosa. César conseguia levar as denúncias para o lado que queria.

Com o tempo tudo foi esfriando, como todo escândalo no Brasil. Uma novela nova estreou, um jogador de futebol famoso foi acusado de ter filho fora do casamento e ninguém mais falava em César Vieira.    

Voltou à liderança das pesquisas mesmo com Jairo Mello batendo nele todas as semanas. As eleições pareciam decididas e na noite anterior do pleito resolveu sair para espairecer.

Percorreu a cidade de carro e achou meninos de rua. Como de praxe conversou com eles e levou dois para dentro do carro. Saiu com os meninos e parou em uma rua escura.

De repente policiais e imprensa aparecem.
Os policiais socam a porta do carro e um assustado César Vieira abre. Ele está com camisa e cueca apenas e os meninos nus. A imprensa aparece e fotografa, tenta entrevistar um arruinado César Vieira preso em flagrante.

Antes de entrar no camburão César olha para Jairo e pergunta “por quê essa perseguição?”. Jairo olha fixamente o deputado e responde “não foi só o senhor que venceu na vida saindo da miséria; eu fui um dos seus meninos”.

César, mesmo na cadeia, foi eleito governador e alguns dias depois saiu com habeas corpus. Conseguiu levar o mandato até o fim e virou candidato a presidente.

           

Sim, ele se deu bem… Ele é político e rico, achavam mesmo que se daria mal?

Bem vindo ao Brasil.