A notícia mais importante da política internacional nesta semana foi a sequência de acontecimentos envolvendo o fundador do Wikileaks, Julian Assange.
Ele está refugiado na embaixada do Equador em Londres desde que o governo britânico deixou claro que o iria extraditar à Suécia, onde é processado por um suposto assédio sexual – na verdade, por ter feito sexo sem camisinha com duas mulheres.
Evidentemente este é um pretexto, até porque ao que tudo indica a passagem de Assange pela Suécia será breve: os Estados Unidos querem sua extradição para julgá-lo por traição e espionagem, o que deve levá-lo à cadeira elétrica antes mesmo que ele possa assistir aos Jogos Olímpicos de 2016 pela televisão.
Na noite de anteontem, se utilizando de uma lei local de 1987 o governo britânico ameaçou invadir a embaixada equatoriana a fim de prender o fundador do Wikileaks na marra e extraditá-lo para o país escandinavo. Como resposta o país da América do Sul concedeu na manhã de ontem (horário brasileiro) asilo político ao ativista, de forma a proteger a sua integridade física.
Com isso chega-se a um impasse: o governo inglês já alertou que não concederá o salvo conduto a fim de que Assange possa ser levado a território equatoriano. Por outro lado, teoricamente não pode invadir a embaixada pois esta é considerada território do país andino – embora não descartaria uma ação deste tipo.
Sem o salvo conduto Assange pode ser preso assim que entrar no carro que o levaria ao aeroporto. Assim seria extraditado à Suécia e depois aos EUA, onde certamente encontraria a pena de morte.
Contudo, ainda que Assange consiga chegar a Quito ou mesmo fique como hóspede da embaixada londrina por um longo período, me parece que seus dias neste plano me parecem contados. Explico.
As revelações empreendidas pelo Wikileaks trouxeram bastante embaraço a governos, políticos e outras personalidades importantes no mundo. Graças a este site soubemos que o discurso público era um e o efetivo, interno, outro completamente diferente. Também soubemos de algumas farsas em política internacional e de como a “corporatocracia” – para usar as palavras do economista John Perkins – se utiliza dos governos para impor seus interesses.
Evidentemente, Assange e o Wikileaks tornaram-se inimigos dos governos, em especial do governo americano. Parece óbvio que tal “atrevimento”, ainda que tenha trazido muitas verdades à população mundial, incomodou profundamente o governo americano – que já deu mostras suficientes de que esmaga este tipo de “inimigo”.
Por mais que Assange consiga se livrar da extradição e embarcar para Quito, os leitores não esperem que ele tenha uma vida tranquila por lá. Além de não poder emitir opiniões políticas por causa de sua condição de exilado, sempre haverá uma CIA em seu encalço, como a história mostra. Bin Laden provou deste remédio e hoje repousa ao fundo do mar.
Isso sem contar que a eleição de um governo conservador no país da América do Sul futuramente pode colocar em risco a segurança do fundador do site Wikileaks. Ou seja, Assange se conseguir escapar da extradição – e morte certa – nos EUA, possivelmente se tornará alvo de atentados ou “assassinatos seletivos” por parte de próceres estadunidenses. Questão de tempo.
Esta situação me lembra um livro que li – e resenhei aqui em um dos primeiros posts deste blog – chamado “Confissões de um Assassino Econômico”, que mudou minha visão de vida, minha visão de economista e a minha visão de mundo.
John Perkins, seu autor, sempre diz que os inimigos estadunidenses recebem três “visitas”. A primeira é a dos assassinos econômicos, como ele foi um dia. Segundo, os chacais da CIA. Se isso não resolver, o exército americano – como vemos hoje no Iraque e no Afeganistão.
Ou seja, o poderio americano sempre está disposto a esmagar aqueles que o contrariam, ou aos interesses que os levam à dissonância. Com uma pessoa apenas, um símbolo como o fundador do Wikileaks, é algo ainda mais plausível.
Outro ponto é se perceber o quão “flexível” é o conceito de liberdade de expressão. Pode-se expressar desde que não fira interesses daqueles que realmente detém o poder constituído. Algo bastante relativo.
Finalizo expressando meu pessimismo quanto ao futuro não somente do fundador deste site que expôs a hipocrisia das relações internacionais como de iniciativas que visem garantir a liberdade de expressão. Hoje, infelizmente, liberdade de expressão é a liberdade de disseminar o pensamento de quem detém o poder real.
P.S. – A Cultrix relançou “Confissões”. Neste link o livro pode ser comprado – recomendo fortemente.