Neste domingo, a coluna “Orun Ayé”, do aniversariante e compositor Aloisio Villar, faz uma espécie de balanço pessoal.
Aproveito, neste Dia dos Pais – e coincidentemente aniversário do meu, velho Pedro – para desejar a todos nós uma data ao lado de seus filhos. Nada pode ser melhor.
O que eu vi da vida
Quinta, dia 9 de agosto fiz trinta e seis anos. Agora, escrevendo a coluna, tenho trinta e cinco ainda, mas quando você leitor estiver lendo terei trinta e seis e estarei mais velho, mas escrevendo estarei mais novo – tipo uma máquina do tempo. É, é confuso, sobre isso deixa para lá.
Sempre que fazemos aniversário, pelo menos eu sou assim, surge uma reflexão sobre a vida. Quando criança ansiava pela data e ficar mais velho, quando fiz 29 começou a vir o pavor dos 30 – mas acabou que foi o início de uma fase bacana na minha vida.
Agora com 36 percebo que estou mais próximo dos 40 que dos 30. Ainda estou tranquilo em relação a isso até porque estar mais próximo não quer dizer estar próximo – faltam quatro anos ainda e pretendo realizar algumas coisas nesse período.
Bem…
Pretender eu pretendo, mas isso não depende apenas de mim. Mas espero viver o suficiente pra ganhar o samba do centenário da União da Ilha em 2053, quando eu estarei com setenta e seis anos [N.do.E.: provavelmente, com Bia Villar e Aloisio Villar Neto assinando o samba (risos)]. Isso se eu não largar o samba antes, coisa que penso umas quatro vezes por dia.
Queria também que esse samba fosse minha centésima vitória em sambas-enredo exclusivamente para escolas de samba. Hoje tenho vinte e sete, faltando então setenta e três. Na média daria até antes e essas seriam hoje as maiores ambições minhas como compositor de carnaval.
E é a primeira vez que revelo isso para alguém, até porque é uma coisa tão distante que prefiro pensar nas coisas do dia a dia.
O programa da Globo “Fantástico” tem um quadro chamado “O que eu vi da vida” em que algumas pessoas falam de suas vidas e o que passaram ate então, sobre coisas boas e ruins.
Aproveitando a brecha vou me abrir um pouco com vocês, afinal, essa coluna também serve como terapia para mim e escrever é mais barato que pagar psiquiatra.
O aniversário, a maior proximidade dos 40, as perdas e ganhos que tive principalmente na década passada me fazem refletir.
Eu não sou aos 36 o Aloisio que imaginava que seria trinta, vinte e cinco anos atrás. Isso é bom? Ruim? Não sei ainda sinceramente, acho que essa certeza só terei perto de morrer, mas posso dizer com certeza que diferente sim, meu caminho foi diferente.
Minha avó me deu oportunidade de estudar em bons colégios, minha mãe não tinha emprego – então vivia em minha função. Uma tia falava que eu seria “diplomata”, mas eu nunca quis ser isso. Criança eu sonhava em ser político, era ambicioso, queria ser presidente da República [N.do.E.: confesso: éramos dois, também tinha este sonho na adolescência. Já passou, mas gostaria de mais tarde ser presidente da Portela].
E isso durou uma boa fase da minha vida, todas as pessoas que conviveram comigo em minha infância e reencontrei graças às redes sociais lembram bem disso. Eu era politizado, chato, debatia com professores. Eu devia ser mais adulto naquela época que hoje.
Adolescente, quis ter uma banda de rock, desisti da política, acabei no samba.
Como disse, estudei em bons colégios, fiz faculdade e acabei em um meio onde alguns dos maiores gênios dele, muito melhores que eu, nem terminaram ensino fundamental. Poderiam dizer que ter estudado então serviu para nada.
Serviu sim porque deixou meu mundo mais abrangente. Estudar e ter recebido cultura da minha avó como a mesma me levar sempre a cinema, teatro, me dar livros, viajar fez com que eu pudesse gostar também de escrever, me deu subsídios pra isso. O estudo é importante demais na formação de uma pessoa, principalmente na formação de um cidadão.
Acho que por isso não se investe tanto em educação nesse país. Medo de um povo consciente.
Não querer ser diplomata, querer ser presidente e virar compositor por incrível que pareça também tem certa coerência. Nunca me atraiu ser mais um, o horário comercial, a rotina. Escolhi um meio “livre”, onde posso fazer o que gosto, não mandam em mim e posso explorar a vaidade que todo leonino tem. Sim, claro que gosto de chamar atenção, ter um samba elogiado, tirar fotos pra sites em finais de samba, nome no google. Todo mundo tem sua vaidade.
Então eu acho que no fundo antes de ser presidente, roqueiro, compositor eu queria tentar fazer diferença, não ser mais um. O samba-enredo não tem um grande espaço, não faz ficar rico ou famoso, mas pelo menos em algumas pequenas escolas pode acontecer de sambas com minha assinatura serem cantados mesmo depois de minha morte.
Eu sempre cito familiares meus, minha mãe, avó, minha filha, esse é um dos pontos talvez mais incoerentes e coerentes da minha formação. Eu sou um cara que preza a família, ainda que não tenha uma de verdade.
Meu pai é o tipo do “cara bacana”. Todo mundo gosta, é simpático, mas não sei se ele sabe quantos anos eu tenho. Que me lembre nunca me deu um presente de aniversário e se me desejou feliz aniversário foram no máximo duas vezes nesse período. Até hoje não conheceu a neta.
Como eu disse não é uma má pessoa, nunca me bateu, apesar de que às vezes até preferia ter apanhado à sua omissão. Quando eu era criança ele tinha um grave problema de alcoolismo, que superou sozinho tornando-se uma pessoa de respeito. Mas pai mesmo nunca foi.
De minha família por parte de pai conheço alguns nomes, alguns rostos, mas intimidade zero também. Só encontro alguns em eliminatórias da União da Ilha quando dizem ter orgulho de mim, falam a todos que sou da família, tomo puxão de orelhas por não procurar meus avós, quando mal sei nomes deles e nunca me procuraram.
Só nesses momentos temos contato, quando minha mãe morreu só um tio por parte de pai veio aqui.
A fim de vender vassouras.
Por parte de mãe sempre tive mais contato, morei com eles, mas tenho a impressão que eu provoquei uma grande decepção a eles não fracassando quando minha mãe morreu. Sempre foram distantes, só pensando em dinheiro, na “casa da Ilha do Governador” que eles são doidos pra vender.
Todos foram viver suas vidas e minha mãe ficou responsável por cuidar de minha vó, que sofre de transtorno bipolar e por essa doença fez da vida de minha mãe um inferno. Piorou seu estado de saúde e acabou sendo um fator influenciador em sua morte.
Minha mãe para tentar sobreviver colocou minha avó em uma clínica de repouso e foi se tratar. Enquanto se tratava meu tio tirou minha avó da clínica, conseguiu uma procuração e pegou para ele a pensão de minha avó, que pagava as despesas aqui de casa.
Com minha mãe internada e eu tendo que assumir as responsabilidades da vida pela primeira vez, vi a renda mensal daqui cair de quatro mil reais pra cento e sessenta reais em um mês.
Tudo isso porque não deixei que ele levasse numa carrocinha o cachorro de estimação de minha mãe, que ele jurou a ela que não tocaria. Perdi esse dinheiro, mas o cachorro morreu aqui em casa anos depois como ela gostaria.
Quatro dias depois de sua morte eu estava em delegacia com ele porque ele foi prestar queixa de “invasão” na casa devido a quartos alugados na residência. Única fonte de renda que restou.
Hoje ele me odeia, mas conta pra todo mundo que é tio de compositor campeão da União da Ilha. Não tenho raiva dele – a vida se encarrega de tudo.
Esse ano ganhei o samba no Grupo Especial (Ilha) e pude fazer uma festa legal de aniversário pra Bia (acima). Chamei a tia que hoje cuida de minha avó e a ela para o aniversário, todo orgulhoso porque usei mais da metade do dinheiro para reformar a casa dela. Mês passado a mesada que elas mandavam à Bia foi cortada sob alegação de eu estar bem de dinheiro para fazer a festa e a reforma.
Acho que pela “família maravilhosa” que tive e tenho que hoje tenho esse ideal de família com a Bia e que prezo demais meus amigos. Dizem que conhecemos os amigos nos momentos ruins e posso dizer que tenho amigos. Nenhum me abandonou nos piores momentos e muitos me ajudaram muito. Eles são minha família.
Amigos são os familiares que escolhemos, não somos unidos pelo sangue, mas pelo coração.
Mas tem duas pessoas que fizeram e fazem toda diferença na minha vida e o que eu vi da vida com elas foi o de mais bonito e sublime.
Minha mãe, Sonia Regina Quintanilha de Castro Villar, ficou nesse plano apenas por quarenta e oito anos por Deus acha-la tão bacana que quis por perto.
Minha mãe sempre foi a “ovelha negra”, a diferente, a que enfrentava meu avô coronel do exército, que fugiu de casa para viver um amor – e desse amor eu surgi. Ela sempre achou que no fundo nunca foi perdoada por isso e eu concordo.
Acho sinceramente que não teve uma vida feliz. Passou por muitas desilusões, tristezas, sofreu demais nos últimos anos de vida e eu ao lado não pude fazer nada e talvez na época nem tivesse a dimensão do tamanho de seu drama. Acho que só na última vez que lhe vi onde inchada, respirando com dificuldades ela segurava meu braço e me olhava como pedindo ajuda e eu não entendi.
Mas ao ir embora eu entendi que era um dia diferente, de uma sofrida despedida como acabou ocorrendo.
Não sei quantos de vocês já perderam a mãe ou alguém que amava muito e com o perdão da expressão garanto: é foda. Você perde o rumo, parece que vai a uma outra dimensão. Alterna momentos serenos com vontade louca de morrer e aquela saudade que aperta o peito e só consegue sair pelos olhos.
Minha mãe foi a pessoa mais espetacular que conheci na vida. Minha heroína, minha protetora, minha amiga, meu grande amor. Uma cumplicidade que talvez eu nunca mais tenha com ninguém, um refúgio que não terei mais, um colo que não botarei mais a cabeça.
Mas minha mãe era um ser tão especial que cumpriu sua missão ao todo e disse ao meu coração “minha missão foi cumprida, agora é com você”.
E precisei de sua morte pra virar adulto, ter responsabilidades, enfrentar o mundo, mostrar a quem esperava meu fracasso que não era bem assim, me fez tornar uma pessoa confiante, mais ciente de minhas limitações. Ela precisou morrer pra que eu renascesse.
E o fruto disso tudo se chama Ana Beatriz de Jesus Villar.
A Bia é a certeza que o amor nunca morre, se renova e tenho certeza que minha mãe vive nela. Ela que mandou a Bia para mim, ela me fez ter a ideia de registrar a Bia quando vi a Michele, minha ex-namorada e grande amiga grávida de uma criança que não teria pai, que teria um espaço em branco na certidão de nascimento.
Tive essa ideia e levei adiante pra proteger a menina do mundo e acabou que ela que me protege. Ela que vem em meus pensamentos quando as coisas estão ruins, seu sorriso que me fortalece, ela dizendo “papai” que me anima e seu abraço me dá a certeza que não estou sozinho. A Bia é continuação da Regina, elas nunca se conheceram fisicamente, mas espiritualmente tem a mim como elo e nós três estaremos juntos para sempre.
Eu sou uma pessoa de sorte porque conheci duas vezes o amor verdadeiro.
O ESPELHO E A JANELA
A vida em poeta me transformou
Me fez descobrir que eu me enganei
Me enganei quando numa imensa dor
Eu perguntei
Como viver seu o seu amor
Seu amor não vou perder
Nele que conto pra vencer
Com choro e sorriso da vida
Chegadas, despedidas
Um novo homem me tornei
Melhor ou pior eu não sei
Sei que do seu legado, não me esquecerei
No espelho continuo vendo você
Mas tem alguém que você também pode ver
Alguém que surgiu depois que você partiu
Um grande amor floriu, sei que você viu
E sei que a ela ama também
Em algum lugar zela o teu bem
Te vejo nos olhos dela
O espelho foi pra janela
Refletir a vida a se criar
Te vejo nos olhos dela
O espelho foi pra janela
Refletir a vida continuar
Essa é a música que fiz para as duas, os amores da minha vida.
Dedico meus trinta e seis anos de vida a elas e também a todas as pessoas que passaram em meu caminho nesse período, pessoas que me fizeram bem, mal, mas que influenciaram em meu crescimento.
Dedico aos grandes amigos que fiz, os que estão comigo até hoje, os que a vida levou pra longe dos olhos, mas sempre estarão no coração. Dedico às mulheres que algum dia fizeram meu coração disparar e amei. Ah amigos, eu amei demais nessa vida, fui muito feliz, sofri também, mas é muito bom e quero mais, sempre mais.
E a principal delas, que até hoje é uma pessoa muito especial para mim também dedico essa coluna. Por coincidência tem o nome da minha filha, obrigado por tudo Beatriz Patriota, Bia.
Apesar de tudo trinta e seis anos com saldo positivo. Mais trinta e seis pela frente? Não sei, sigo o destino que me enviarem.
E o que eu vi da vida?
Que ela vale muito a pena. Orun Ayé!
Para uma mãe a felicidade está simplesmente na existência de um filho. Olhar para ele, acariciar, cuidar….isso é a melhor coisa da vida, meu caro. Sua mãe teve sofrimentos na vida mas, foi feliz sim e graças a você, esteja certo disso.
Feliz 36 anos!
Já estou nos meus 40 e digo que daí até aqui é muito chão…aproveite!rs
Eliane