Eu estava evitando escrever sobre este assunto para os leitores não pensarem que é uma postura eleitoreira, mas não se pode ficar calado diante do absurdo que vem sendo perpetrado pela atual presidente do Flamengo, Patrícia Amorim, a poucos meses do término de seu mandato.
Contrariando princípios básicos de gestão, a poucos meses do término de seu mandato a Presidente está renovando os dois contratos mais importantes de receitas do clube por vários anos além do término de seu período, deixando quem a suceder sem qualquer margem de negociação ou ampliação das receitas do Flamengo.
Sabemos que Patrícia Amorim pode se reeleger em dezembro e que suas chances, por incrível quanto pareça, são muito boas, mas isto é básico: somente se trabalha com definições de orçamentos dentro do espectro da própria gestão, no máximo no ano seguinte. Na prática Amorim irá determinar aspectos importantes da gestão do clube até pelo menos 2018, impondo sua linha de atuação mesmo que seu grupo político não esteja mais no poder.
Ainda há outra questão a ser analisada: o clube recebeu agora adiantamentos sobre os contratos em questão, o que diminui a previsão de receitas para os anos subseqüentes. Adiantamentos, alias, que provavelmente foram gastos mais rápidos que o tempo que eu levei para escrever este artigo.
Vamos caso a caso.
O primeiro, e muito pouco divulgado, foi a renovação antecipada até 2017 do contrato que envolve os direitos de televisionamento do Campeonato Brasileiro de futebol. Não tenho detalhes se houve aumento nos valores anuais, mas o que se sabe é que o clube pegou um adiantamento de R$ 30 milhões da Rede Globo de televisão para tal.
Tal renovação antecipada tem o objetivo de impedir a entrada da Fox Sports no mercado nacional. A emissora de origem norte americana vem fazendo um estrago considerável na concorrência nos direitos de campeonatos estrangeiros e vinha se preparando para se ombrear à Globo nos campeonatos regionais e nacionais.
Parêntese: vale lembrar que o clube na TV fechada vem sofrendo um certo descaso por parte da dona dos direitos. Equipes secundárias na maioria das transmissões, jogos em off-tube e narradores de outros estados nas partidas locais. Fecha o parêntese.
Certamente o clube poderia ter esperado um pouco para fazer esta renovação, pois o mercado tende a se aquecer com a concorrência representada pela Fox Sports e com os eventos que sediaremos. Contudo a diretoria optou por antecipar a renovação e antecipar receitas, abrindo mão de receitas futuras – quando Patrícia Amorim não estará mais no cargo.
O segundo caso é ainda mais absurdo. O termo é forte, leitores, mas não encontro outro.
Refiro-me à quebra de contrato com a atual fornecedora de material esportivo, a Olympikus, e a assinatura de um contrato de 10 anos com a multinacional Adidas. Os valores da proposta da empresa alemã são pouca coisa superiores ao que a empresa brasileira estará pagando ao final do contrato, em 2014.
Além disso, a empresa brasileira vem se mostrando uma ótima parceira do clube, construindo o museu na Gávea e pagando os salários de jogadores – entre eles, Vagner Love. Outro ponto forte é a capilaridade de sua distribuição: hoje se encontra material do Flamengo em todos os cantos do país.
Lembro ao leitor que nos tempos da Nike até aqui no Rio de Janeiro era bem difícil se encontrar material. E a então fornecedora disponibilizava ao público apenas as duas camisas de jogo e nada mais.
Hoje a Olympikus disponibiliza toda a linha do clube nas lojas, com a exceção de shorts de goleiro e de treino – mas mesmo estes aqui e ali se encontram.
Ressalte-se também que o Flamengo tentou quebrar o contrato com a Nike para assinar com a Olympikus. Naquele momento havia até justificativa, pois faltava material até para o time profissional – os goleiros chegaram a atuar com material de passeio por falta de camisas.
Um segundo rompimento, poucos anos depois, deixará no mercado a idéia de que o clube não respeita seus parceiros e que o clube não é confiável. Esta percepção já existe – basta ver que a camisa do Flamengo continua sem patrocínio master desde o término do contrato com a Procter e Gamble no ano passado. Este é o prêmio que a Olympikus ganhará por ser parceira: um término litigioso de contrato.
Outro ponto a se considerar é que a proposta é de 10 anos de contrato, com multa altíssima de rescisão. O mercado brasileiro tende a ter um crescimento exponencial nos próximos anos por causa da realização da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos. Isto significa que o contrato vantajoso de hoje, com multa alta, pode ser baixo daqui a dois ou três anos.
A prudência em uma boa gestão mandaria que se esperasse, até porque o contrato atual somente se encerra em 2014. Mas irão mandar a Olk às favas e assinar com a Adidas – ainda que a atual fornecedora tenha coberto a proposta da empresa alemã.
Os principais argumentos de quem defende a troca são o pagamento de adiantamento antes mesmo do início do contrato e a promessa de distribuição mundial do material do clube, tornando o Flamengo um dos cinco mais importantes da empresa no mundo.
Leitor: eu DUVIDO que isso aconteça. DUVIDO. Em caixa alta mesmo. Hoje o Flamengo sequer na América do Sul é considerado um dos clubes mais importantes, vai ter importância mundial?
Vou mais além: a tendência a meu ver é haver uma forte regressão na variedade e nos pontos de venda de material, comparado ao que existe hoje.
Quem leu o livro sobre a história da empresa alemã – “Invasão de Campo: Adidas, Puma e Os Bastidores do Esporte Moderno”, Editora Zahar – sabe que a multinacional se utiliza historicamente de métodos pouco ortodoxos para conquistar novos contratos e mercados. Sabendo disso e conhecendo como as coisas funcionam no Flamengo não me surpreenderia caso estes métodos de persuasão tenham sido utilizados na negociação.
O certo é que teremos uma batalha jurídica envolvendo esta questão, pois a Olympikus já avisou que irá cobrar na justiça a rescisão do contrato – uma conta de R$ 35 milhões.
Ainda que Patrícia Amorim tenha como bastante provável a sua reeleição, por mais insólito que isso pareça, são dois exemplos de uma gestão temerária e da falta de governança existentes no clube. Sua base de apoio é formada pelos frequentadores do clube social e dos segmentos ligados aos esportes olímpicos, que vêem o futebol mais como uma fonte de recursos que função principal do clube.
Inclusive muitos dos sócios e eleitores da atual mandatária sequer torcem pelo Flamengo no futebol, tendo se associado para freqüentar as dependências ou, o que é mais incrível, ter direito ao estacionamento do clube. Sai mais barato para quem trabalha nas redondezas da sede pagar a mensalidade de sócio contribuinte e parar o carro todo dia lá que ter uma vaga de mensalista em um dos edifícios garagem das redondezas.
Mas uma coisa é certa: com a reeleição da mandatária ou a vitória da oposição (na que pessoalmente não acredito, por fatores que em outro post discorrerei) o futuro do clube nos próximos anos é nebuloso.
Com estes atos Patrícia Amorim e sua diretoria estão comprometendo a continuidade competitiva do Flamengo a curto e médio prazos. E olha que não me refiro a alguns “esqueletos” cuja conta deve ficar para o seu sucessor, seja agora ou em 2015.
Para o grupo da atual mandatária isso não será problema, pois o futebol não é prioridade. Entretanto, o torcedor irá sofrer.
P.S. – Na foto Amorim está com Michel Levy, vice de finanças e uma espécie de “eminência parda” da diretoria atual.

12 Replies to “A Exterminadora do Futuro”

  1. Nunca pensei que fosse dizer isso, mas falo abertamente que prefiro o rebaixamento à reeleição deste demônio de saias e seus asseclas. Se achávamos que nada poderia ser pior que Kléber Leite e Edmundo Santos Silva, eis que aparece esta mulher, tão pavorosa que nem a soma destes dois é capaz de se aproximar ao que ela está fazendo com o Mais-Querido. O Flamengo está perdido!

  2. O texto é bom. Mas o que me impressiona é a capacidade de conjecturar que as pessoas tem! Quem disse que ela vai se reeleger? Quem disse que ela está forte na Gávea? O senhor fez pesquisa? Frequenta o Clube e seus poderes? Quem são os eleitores da PA? Sabe o que pensam os demais Presidentes de Poder em relação a atual mandatária?

    As poucas melhorias da Gávea foram realizadas Pós-eleição, como é que a turma do parquinho ou da piscina elegeu ela? Promessa? Por favor, assistam os videos da Campanha 2009, procurem “VencerFlamengo” no youtube, está TUDO LÁ! Havia projetos muito mais interessantes para a Gávea.

    Ela foi eleita por N fatores, inclusive porque a bancada do futebol se dividiu em 4 partes (Delair, Plinio, Sahione e uma pequena parta até com a PA).

    Ela tem força hoje no Flamengo? É claro que tem! Ela é favorita? Boa pergunta, mas cuidado com as verdades absolutas a partir de achismos.

    SRN, Rafael Mengão.

    1. Prezado Rafael,

      Penso que desqualificar a minha análise não é o melhor caminho para quem busca um Flamengo melhor, que, a princípio, é o objetivo de todos aqui.

  3. Desculpe Migão, mas você falando em Flamengo é parcial demais, fanático demais, o ponto que você fala na transmissão mostra isso e quem te acompanha em redes sociais sabe que quando o assunto é o Flamengo você deixa a paixão lhe cegar um pouco.

    Fale mais de política como em sua coluna anterior, você manda muito melhor nesse assunto.

    1. Aloisio, aqui o assunto não paixão, é análise econômica (risos).

      Sobre as transmissões, já há algum tempo o Sportv faz as escalas das transmissões dos jogos aqui no Rio por último.

  4. OLHA A POSIÇÃO DO FLAMENGO NA TABELA. A PARICIA VENDEU MAIS DE MEIO TIME, CONSEGUIU PERDER O LUXEMBURGO E O RONALDINHO GAUCHO. ENDIVIDOU O FLAMENGO MAIS AINDA.ATÉ O DEIVID ELA FICOU DEVENDO PARA NÃO FALAR DO RESTO . E VCS AINDA QUEREM ESTA ANT-FLAMENGISTA? DA UM TEMPO NE.

  5. É… O futuro é nebuloso, se ao menos a Planeta Fla e a FlaCampeão do Mundo se juntassem, teriamos a mínima chance de ver algo diferente da reeleição da Paty… Mas essa “coalizão” que a elegeu não deve durar mais um mandato inteiro, é muita picuinha interna entre os cacifes…

  6. Se a oposição não cometer erros, Patrícia não será reeleita. E seria muito bom ver uma auditoria nas contas dela…
    SRN

  7. Concordo com quase tudo e o que não entendo é como se pode, em um clube do porte do Flamengo, fazer um contrato de tamanha envergadura por tanto tempo, ao final do mandato de um (a) presidente (a), deixando o “problema” para o próximo mandato e ninguém nem ao menos questionar ou barrar tamanha sandice. Também tenho minhas dúvidas se a Patrícia se reelege…as coisas não parecem estar tão simples pra ela não.

Comments are closed.